Opositor ameaça reduto de Chávez

Na favela do Petare, tradicionalmente chavista, eleitores estão divididos entre candidato do governo e da oposição

Ruth Costas, CARACAS, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2008 | 00h00

Um dos maiores e mais violentos complexos de favelas da América Latina, o Petare é a prova de que, pouco a pouco, a Venezuela das profundas divisões políticas está dando lugar a um país de nuances. Há alguns anos, a oposição, apoiada pela classe média, ricos e empresários, estava disposta a tudo para tirar Hugo Chávez do poder, enquanto governistas, representados principalmente pelos mais pobres, defendiam o presidente até a insanidade. Foi nessa época que o Petare ficou conhecido como um dos mais importantes redutos chavistas da capital venezuelana. Ouça o relato da enviada especial, com mais detalhes sobre a eleição Hoje, para se ter noção da dimensão da mudança, basta dizer que na eleição de ontem o opositor Carlos Ocariz tinha boas chances de vencer o candidato indicado por Chávez, o ex-ministro das Comunicações Jesse Chacón, na disputa pelo município de Sucre - composto pelo Petare e seus 370 mil habitantes, além de outros bairros menores. As últimas pesquisas davam a Ocariz cerca de 5% de vantagem - embora as sondagens nem sempre sejam confiáveis na Venezuela. O simples fato de estar sendo desafiado no Petare, já é um golpe para Chávez. Se a oposição vencer, será uma das maiores derrotas do presidente venezuelano nas eleições de ontem. Chama a atenção o perfil do candidato opositor - que em outros tempos provavelmente seria prontamente rejeitado pelos humildes moradores do Petare como alguém muito próximo da "elite do país". Enquanto Chacón é um entusiasta da "revolução socialista", que esteve ao lado de Chávez no golpe de 1992, Ocariz é um engenheiro jovem (tem 35 anos), com pós-graduação no Canadá e chegou a trabalhar no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em Washington. Sua ligação com o Petare teve início há 15 anos, quando ele começou a fazer trabalhos comunitários. "Vou votar na oposição porque não me interessa qual é o perfil do candidato: o que quero é poder viver tranqüilo, sabendo que ninguém vai entrar em minha casa para matar ou roubar", disse Alberto Sánchez, pintor de 50 anos, na fila para votar em um dos colégios da região. Ele conta que um vizinho foi morto no sábado. "Agora há mais trabalho, mas de que adianta ter mais dinheiro para comprar coisas se depois você será roubado ou morto?" O comentário é comum no complexo. O aumento da insegurança nesta década em que Chávez esteve no poder foi justamente o que permitiu à oposição crescer em um local onde o presidente costumava dar as cartas. Hoje, o índice de assassinatos é de 94 por 100 mil habitantes, quase quatro vezes mais que o de São Paulo. E as histórias de violência se multiplicam. Um jovem morador da comunidade conta que de seus 80 colegas de escola, menos de 10 estão vivos hoje. "Morreram em brigas de gangue ou assassinados. A violência é o principal problema daqui e é para resolvê-lo que precisamos de uma mudança no governo local."É claro que o apoio a Chávez ainda continua grande. E aumenta conforme se sobe pelas ruelas estreitas. Quanto mais precárias condições de vida de uma família, mais ela depende dos programas sociais, os subsídios e as missões instaladas pelo presidente no complexo. "Nosso medo é que todos esses programas e o nosso projeto revolucionário sejam paralisados se a oposição ganhar na região", disse a dona de casa Argelina García, de 48 anos.

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