Opositor argentino quer limitar mudanças

Para Massa, que esteve ontem em São Paulo, eventuais avanços do país devem se manter

FERNANDA SIMAS, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2014 | 02h05

O deputado argentino Sergio Massa, líder do partido de oposição Frente Renovadora e provável candidato à presidência em 2015, afirma que para governar é preciso manter algumas conquistas do governo Kirchner, como as políticas de distribuição de renda e a inclusão dos idosos. Entre os opositores, Massa lidera as pesquisas de opinião, com 35% das intenções de voto.

"Essa mensagem da sociedade é um desejo de continuidade", disse ele, em entrevista ao Estado, durante encontro com representantes do setor industrial, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). "Acredito que devam ser valorizadas algumas políticas de direitos humanos que a Argentina quer consolidar e não retroceder. Essas coisas devem continuar, porque são uma conquista da sociedade e não apenas de um governo."

Uma pesquisa feita a pedido do jornal argentino La Nación mostra que 46% dos entrevistados querem que o novo presidente seja alguém capaz de "mudar algumas, mas continuar outras" políticas adotadas pela presidente Cristina Kirchner.

Massa tem questionado o projeto de reforma do Código Penal e afirma que a criminalidade deve ser tratada com "responsabilidade" pelo governo. Para o deputado, as medidas beneficiariam os criminosos porque eliminariam a reincidência e diminuiriam a pena aplicada a 146 crimes, entre eles, o tráfico de drogas, a prática de tortura e o homicídio doloso. "O projeto diminui as penas no momento em que a sociedade pede que sejamos responsáveis e firmes na luta contra a criminalidade", disse.

Em março, Cristina disse que a intenção do governo é aprovar a reforma do código ainda este ano. Um projeto foi entregue à presidente em fevereiro e está sendo analisado pelo Ministério da Justiça, que apontará eventuais mudanças.

Entre o fim de março e o começo deste mês, uma série de espancamentos foi registrada na Argentina.

Em 11 dias, 13 pessoas flagradas roubando pedestres foram espancadas por civis. Em um caso, ocorrido em Rosário, o ladrão, de apenas 18 anos, morreu. "O olho por olho cega uma sociedade", disse Massa. "Nunca se pode legitimar a política de justiça feita com as próprias mãos."

Quando os espancamentos foram divulgados, o deputado responsabilizou o governo. "Isso acontece porque o Estado está ausente e a sociedade não aguenta mais conviver com a impunidade."

Questionado sobre sua atuação nos governos de Néstor e Cristina Kirchner, o político disse que fez parte do kirchnerismo até começarem as divergências. "Quando começamos a divergir, eu sai", disse.

Massa integrou o governo de Néstor Kirchner, foi eleito prefeito de Tigre em 2007 e ocupou o cargo de chefe do gabinete de Cristina. Em 2013, criou o Frente Renovadora, formalizando o rompimento com o kirchnerismo e foi eleito deputado (mais informações nesta página).

Relações bilaterais. Em entrevista na Fiesp, Massa afirmou que o Brasil é um parceiro fundamental para a Argentina e para a consolidação do Mercosul. "O Brasil e a Argentina juntos são determinantes, mas precisa haver transparência. Há temas nos quais somos competidores, mas precisamos (aprender a) trabalhar juntos."

Para Massa, a dificuldade na relação bilateral é resultado de "entraves burocráticos", mas o Brasil segue sendo o "país mais importante (da América Latina) para a Argentina."

Sobre a relação do Mercosul com a União Europeia, o deputado argentino acredita que primeiro é preciso consolidar o bloco sul-americano internamente, deixá-lo mais forte, para depois negociar com os europeus. "É fundamental que o Mercosul tenha vida para depois lidar com a UE", afirmou. O ponto de discórdia na negociação entre os dois blocos é o prazo para a redução total nas tarifas dos produtos importados. A UE pede que esse prazo seja de 10 anos, enquanto a Argentina pede 15 anos. Brasil, Uruguai e Paraguai falam em um prazo de até 12 anos. / COLABOROU CARLA ARAÚJO

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