Opositor de Evo diz que corria risco na embaixada

À Justiça Federal do Brasil, senador Pinto Molina diz que havia um matador contratado para executá-lo

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2013 | 02h03

Em depoimento interrompido por choros, o senador boliviano Roger Pinto Molina relatou ontem à Justiça Federal que o escritório da embaixada brasileira em La Paz, onde ficou asilado durante um ano e três meses, correu risco de invasão por aliados de Evo Morales, que queriam prendê-lo. "Eu ouvia uma multidão gritar ladrão, corrupto e dizer: 'Vamos invadir a embaixada para tirar o senador'", afirmou. "Todos os dias eram difíceis, insuportáveis, iguais."

O senador disse que franco-atiradores foram posicionados diante do prédio e foram atribuídos crimes aos funcionários do Itamaraty. Diante do juiz federal Itagiba Catta Preta Neto, ele disse que Juan Ramón Quintana, ex-ministro da Presidência da Bolívia, pagou um matador para eliminá-lo. O senador ainda acusou La Paz de manter relações com cartéis de cocaína.

O diplomata brasileiro Eduardo Saboia, que ajudou na fuga, evitou comentar as declarações. Representantes da Advocacia Geral da União (AGU), que acompanharam o depoimento, não questionaram o boliviano sobre os riscos que a embaixada teria sofrido.

Israel Pinheiro, subprocurador regional da AGU, limitou-se a questionar Pinto sobre o risco que ele correu durante a viagem ao Brasil. Em determinado momento, o juiz Catta Preta Neto reclamou que o representante da AGU quis impedir perguntas da defesa de Saboia.

O advogado Ophir Cavalvante, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que defende Saboia, avaliou que a estratégia da AGU é insistir na tese de que o senador correu risco de morrer ao viajar para o Brasil. "Está claro, no entanto, que pela demora dos governos o senador não tinha outra opção, sob pena de mofar até a morte no cativeiro."

No depoimento, o senador disse que a fuga não foi arriscada. Ele lembrou que foi acompanhado por Saboia e por fuzileiros da embaixada durante o trajeto. Ele contou que, durante a permanência na missão, o ex-embaixador brasileiro Marcel Biato relatou que o governo boliviano propôs a viagem ao Brasil sem salvo-conduto. Os diplomatas estranharam a proposta.

Pinto disse que estava em processo de "degradação mental" quando recebeu ajuda para sair da embaixada, onde viveu num quarto de 4 metros quadrados, sem luz direta do sol ou banheiro. "Devo a minha vida ao Eduardo e a minha liberdade ao Brasil." / L.N.

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