Juan Karita / AP
Juan Karita / AP

Eleições na Bolívia: Opositor de Evo forma aliança para pressionar por 2º turno

Carlos Mesa acusa o presidente boliviano de orquestrar uma fraude para vencer no primeiro turno, com o auxílio das autoridades eleitorais; enquanto isso, Evo segue cada vez mais próximo da reeleição

Redação, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2019 | 07h23
Atualizado 24 de outubro de 2019 | 12h07

LA PAZ - O candidato presidencial boliviano Carlos Mesa, adversário do presidente Evo Morales nas eleições de domingo passado, anunciou na quarta-feira, 23, a formação de uma "Coordenação de Defesa da Democracia" visando pressionar para que haja um segundo turno. Enquanto isso, Evo garante que vencerá a disputa em primeiro turno, conquistando uma vantagem decisiva de 10 pontos sobre Mesa, depois de acusar a oposição de tentar orquestrar um “golpe”.

O objetivo da aliança do opositor com os partidos da direita e líderes centristas é "conseguir que se cumpra a vontade popular de definir a eleição presidencial no segundo turno", destaca uma nota publicada no Twitter.

A aliança articulada por Mesa é formada pelo governador de Santa Cruz, Rubén Costas, o candidato de direita Óscar Ortiz, o empresário Samuel Doria Medina, líder da Unidade Nacional (UN, centro direita), e Fernando Camacho, executivo do Comitê Cívico Pró-Santa Cruz, da direita radical, entre outros.

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Mesa acusa Evo de orquestrar uma fraude para vencer no primeiro turno, com o auxílio das autoridades eleitorais. O comunicado convoca os bolivianos à "mobilização pacífica até que se consiga o objetivo democrático da declaração do segundo turno eleitoral".

Uma missão de observadores da OEA já recomendou que, diante da desconfiança sobre o processo eleitoral, "continua sendo uma melhor opção convocar o segundo turno".

Ainda na quarta-feira, a Conferência Episcopal Boliviana (CEB) defendeu a realização de "um segundo turno, com uma supervisão imparcial, como a melhor saída democrática para o momento em que vivemos". "Nos preocupa o risco de confrontação entre os bolivianos diante de um processo eleitoral que, apesar do comportamento exemplar dos eleitores, perdeu a credibilidade pelas irregularidades", destacaram os bispos.

Reta final da apuração

Faltando menos de 2% dos votos para a conclusão da apuração, Evo se declarou "quase seguramente" vencedor da eleição. "Estou quase certíssimo de que, com os votos de áreas rurais, vamos vencer no primeiro turno", disse o presidente de esquerda. 

O site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostrava às 2h07 (3h07 em Brasília) que Evo tinha 46,32% dos votos válidos, contra 37,08% para o ex-presidente Mesa, pouco mais de nove pontos de diferença. Evo vencerá no primeiro turno se obtiver ao menos 10 pontos de vantagem sobre Mesa.

O ministro da Justiça, Héctor Arce, declarou que é preciso esperar o resultado oficial final do TSE antes de qualquer decisão, pois convocar o segundo turno diretamente "seria ignorar" a Constituição, "o que é pior que ignorar a vontade popular".

Pressão

Uma greve geral indefinida começou na quarta-feira. Grupos leais e opositores ao presidente entraram em confronto na cidade de Santa Cruz.

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Evo denunciou que "está em processo um golpe de Estado", em aparente referência aos protestos e à greve indefinida. "Quero que o povo boliviano saiba que até agora suportamos humildemente para evitar a violência e não entramos em confronto", disse.

As declarações foram acompanhadas por seu aliado venezuelano Nicolás Maduro, que afirmou: "É um golpe de Estado anunciado, cantado e, posso dizer, derrotado. O povo boliviano derrotará a violência".

Mesa, por sua vez, pediu "a mobilização permanente" de forma "democrática e pacífica" em defesa do voto, até que o tribunal eleitoral "reconheça que o segundo turno deve ser realizado". "Não vamos permitir que nos roubem uma eleição pela segunda vez", acrescentou, referindo-se ao resultado de um referendo que não foi reconhecido por Evo para se candidatar a um quarto mandato.

A greve convocada por um coletivo de organizações civis dos nove departamentos do país começou a tomar corpo em Santa Cruz, onde manifestantes queimaram parte da sede do tribunal eleitoral na noite de terça-feira. A greve também avança na rica região mineradora de Potosí e em outras áreas.

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) pediu à Bolívia para garantir segurança, integridade e liberdades cidadãs, ao expressar sua "preocupação diante de graves atos de violência".

Presos

Um juiz da Bolívia determinou na quarta a prisão preventiva de seis acusados de incendiar uma sede do tribunal eleitoral do país durante os protestos que começaram há dois dias contra uma suposta fraude na apuração de votos.

Os seis detidos são suspeitos de ter ateado fogo na sede do órgão eleitoral na região de Pando, na Amazônia boliviana, segundo a Promotoria-Geral do Estado da Bolívia. Eles serão acusados pelos crimes de roubo agravado, destruição e deterioração de bens do Estado, associação criminosa e instigação pública para delinquir.

De acordo com os procuradores, o grupo levou "paus, pedras, foguetes e outros objetos" para atacar o escritório do órgão eleitoral em Cobre, capital de Pando. Eles teriam, segundo o Ministério Público da Bolívia, invadido o local, roubado computadores e destruído três veículos.

A Polícia Nacional da Bolívia deteve 25 pessoas. Mais tarde, 16 delas foram libertadas pela Justiça porque os promotores não conseguiram provar que havia vínculo entre elas e os fatos registrados na sede do órgão.

Três das pessoas detidas eram menores de idade e foram levadas a um juizado especial. Os outros seis tiveram a prisão preventiva decretada por um juiz boliviano. / AFP, EFE e REUTERS

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