EFE/EPA/CLEMENS BILAN
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Opositor de Putin, Alexei Navalni chega em coma a hospital da Alemanha

Familiares do líder da oposição dizem que ele foi envenenado; no início, médicos russos tentaram impedir a viagem

Redação, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2020 | 10h27
Atualizado 18 de setembro de 2020 | 13h43

MOSCOU - O principal líder da oposição russa, Alexei Navalni, ainda está em coma após um suposto envenenamento na quinta-feira e foi internado neste sábado, 22, em um hospital de Berlim, na Alemanha. Após ser transferido de um hospital da Sibéria a pedido da família em um voo de emergência, Navalni segue usando um respirador. 

A ambulância que o transportou foi escoltada pela polícia alemã do aeroporto de Berlim até o hospital da Charité, um dos mais prestigiados da Europa. "O estado de Alexei Navalni é preocupante e crítico", disse a repórteres Jaka Bizilj, chefe da ONG alemã Cinema for Peace, que fretou o avião para sua transferência. 

Bizilj classificou a viagem como "apenas um pequeno sucesso provisório. "A questão decisiva é se ele vai sobreviver e sobreviver sem prejuízos duradouros". 

O avião privado que transportou Navalni ficou por mais de uma hora na pista até que os médicos preparassem o paciente para levá-lo ao hospital de Berlim. A aeronave aterrissou na zona militar de Tegel, onde inúmeras ambulâncias o aguardavam. 

A direção do hospital informou que os médicos realizarão um "diagnóstico global" que levará algum tempo e só se pronunciarão depois deste exame. Os familiares de Navalni insistem que ele foi vítima de "envenenamento intencional" com "algo misturado em seu chá". 

O ativista anticorrupção de 44 anos se sentiu muito mal a bordo de um avião que o transportava a Moscou e teve que fazer um pouso de emergência em Omsk, na Sibéria, onde foi hospitalizado. Médicos russos afirmaram que não detectaram "nenhum veneno" nem no sangue nem na urina de Navalni e disseram que a hipótese mais provável era a de um "desequilíbrio glicêmico" provocado por um baixo nível de açúcar no sangue.

Navalni perdeu a consciência antes mesmo de ser hospitalizado. Sua porta-voz, Kira Yarmysh, disse no Twitter na sexta-feira que o médico-chefe do hospital na Sibéria estava impedindo a transferência para o exterior, um pedido da família. Ela atribuiu a oposição inicial dos médicos para transportá-lo ao desejo de "ganhar tempo e esperar que o veneno já não possa ser detectável em seu organismo". Após pressão local e internacional, a viagem foi autorizada. 

Também afirmou que Ivan Zhdanov, o diretor da organização de Navalni, o Fundo Anticorrupção, foi informado pela polícia no hospital de Omsk que o veneno dentro dele era perigoso não apenas para o paciente, mas para aqueles ao seu redor. A polícia não revelou o nome do veneno por causa da "confidencialidade da investigação" - um termo frequentemente usado na Rússia quando as autoridades querem esconder informações. 

Vários adversários do governo russo foram envenenados nos últimos anos, na Rússia ou no exterior. As autoridades sempre negaram qualquer responsabilidade.

Repercussão internacional 

A chanceler alemã Angela Merkel, o presidente francês Emmanuel Macron e o secretário de Relações Exteriores britânico Dominque Raab expressaram preocupação na sexta-feira sobre o que aconteceu a Navalni. O candidato democrata à presidência dos EUA, Joe Biden, também se manifestou em favor do opositor russo. 

Ex-embaixador dos EUA na Rússia,0 Michael McFaul comparou Navalni a líderes como Martin Luther King, Nelson Mandela e Mahatma Gandhi. “Embora Navalni ainda não tenha obtido sucesso, não deve haver dúvida de que sua causa é boa e justa”, escreveu McFaul, acrescentando: “Vladimir Putin é mau. Nos últimos 20 anos, o atual líder da Rússia construiu uma ditadura implacável”.

Ele criticou o fato de o presidente Donald Trump não ter demonstrado preocupação e muito menos indignação. "Na divisão clara entre o bem e o mal na Rússia, Trump está do lado errado". 

Opositor contundente

Navalni é a figura de oposição mais proeminente da Rússia, conhecido por suas denúncias contundentes no YouTube de corrupção e suborno por políticos, burocratas e oligarcas russos. Ele tem sido freqüentemente preso por organizar protestos não autorizados. O seu suposto envenenamento foi alvo de protestos na Rússia neste sábado, 22, na cidade de Khabarovsk, no Extremo Oriente Russo. A região também teve protestos contra o governo de Putin em julho. 

No mês passado, Navalni foi forçado a fechar sua Fundação Anticorrupção depois que ela foi prejudicada por multas. Ele se comprometeu a iniciar imediatamente uma nova organização que faria o mesmo trabalho.

Em março, autoridades congelaram sua conta bancária e as de todos os membros de sua família, incluindo seus pais, filha e até mesmo seu filho de 11 anos, Zakhar. Ele foi impedido de concorrer a uma eleição presidencial em 2018. / AFP, Washington Post e The New York Times 

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