Opositor é tratado como astro pop na Venezuela

Comícios de Capriles têm multidão de jovens eleitoras em busca de foto com seu ídolo

MATURÍN, VENEZUELA, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2013 | 02h14

Ao descer do ônibus, o candidato da oposição à presidência da Venezuela, Henrique Capriles, é assediado por eleitoras entusiasmadas que empurram os guarda-costas para abraçar, beijar e fotografar seu ídolo. A maioria é de mulheres jovens que esperaram horas sob o sol.

"Ele é mais do que um político, é um astro do rock", disse a estudante Eugenia Díaz, de 19 dias, agitando um cartaz, num comício em Maturin, leste do país.

Como em outubro, quando perdeu nas urnas para Hugo Chávez, o jovem líder da oposição novamente provoca alvoroço à medida que cruza o país antes da eleição do dia 14. Apesar de toda a euforia, o governador do Estado de Miranda, de 40 anos, mais uma vez parece predestinado à derrota, desta vez lutando para vencer o presidente interino Nicolás Maduro, que se apresenta como herdeiro político de Chávez, que morreu no dia 5.

Explorando a comoção pela morte do presidente, Maduro lidera as pesquisas com vantagem entre 41 e 21 pontos porcentuais sobre o concorrente.

Nem Capriles nem os inúmeros estrategistas e assessores em torno dele, vindos dos cerca de 30 movimentos que formam a Mesa de Unidade Democrática, subestimam sua tarefa.

"Existe uma possibilidade de vencer, mas tenho tudo contra mim", disse o candidato. Maduro não tem somente o poderoso endosso pessoal de Chávez, feito durante seu último discurso antes de morrer, mas também o poder e recursos financeiros do Estado apoiando sua campanha.

Isso lhe permite aparecer à vontade para a nação inteira nos meios de comunicação públicos, o que os inimigos consideram flagrante abuso de poder. Maduro também tem a simpatia dos pobres em razão das "missões", os múltiplos programas sociais que foram parte importante do governo de 14 anos do seu ex-chefe.

"Estamos lutando contra um candidato-presidente, todos os dólares do petróleo, as instituições públicas e naturalmente contra o mito criado em torno de Chávez", lamentou o coordenador da campanha de Capriles, Carlos Ocaríz.

Embora o prazo até a eleição seja mais curto, Capriles utiliza a mesma estratégia adotada em 2012: um programa rigoroso de visitas a dois Estados por dia, além de comícios e entrevistas para a mídia e reuniões com políticos e moradores locais. Mas a confiança política e a retórica são diferentes.

Capriles provoca Maduro constantemente, referindo-se a ele como "Nicolás" e descrevendo-o como uma marionete incompetente do governo comunista de Cuba tentando imitar Chávez.

Maduro, que se qualifica como "apóstolo" de Chávez e invoca seu mentor em todos os eventos dos quais participa, procura responder à altura a Capriles. "A cada dez palavras, ele cita meu nome nove vezes. Está obcecado", declarou o candidato chavista.

Político de centro que admira o modelo brasileiro de economia de livre mercado com políticas sociais vigorosas, Capriles promete pôr fim à polarização social e às nacionalizações, mas quer manter os melhores projetos de combate à pobreza criados por Chávez.

Ele deseja acabar com as alianças da Venezuela com países estrangeiros controvertidos da era Chávez, como Irã, Bielo-Rússia, Síria e Cuba, e defende um vínculo mais forte com vizinhos latino-americanos e nações "democráticas".

Em Maturin, Capriles foi precedido no palanque por vários moradores locais que fizeram queixas, desde a falta de papel higiênico nas lojas até a distribuição injusta das receitas provenientes do petróleo. / REUTERS

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