Shamil Zhumatov/REUTERS
Shamil Zhumatov/REUTERS

Médicos dizem 'lutar' para salvar opositor russo; aliados denunciam tratamento no hospital

Navalny passou mal durante voo e está em tratamento intensivo na Rússia; ele seria transferido nesta sexta-feira para a Alemanha

Redação, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2020 | 04h38
Atualizado 21 de agosto de 2020 | 04h19

MOSCOU - Médicos afirmaram nesta quinta-feira, 20, que fazem todo o possível para salvar a vida do líder da oposição russa Alexei Navalny, internado na UTI de um hospital da Sibéria, vítima de possível envenenamento. Ele seria transferido para um hospital na Alemanha na madrugada desta sexta-feira, mas o translado foi cancelado após seu quadro ser classificado como "instável" pela equipe médica. Segundo a porta-voz de Alexei, Kira Yamysh, essa decisão pode ser "uma ameaça direta" à vida de Navalny.  

Yasmiysh afirmou que os médicos haviam concordado previamente com a transferência, mas mudaram de ideia no último minuto. "Essa decisão, é claro, não foi tomada por eles, e sim pelo Kremlin", escreveu ela no Twitter.  

"Os médicos estão fazendo tudo o que podem, eles estão realmente lutando para salvar sua vida", disse Anatoli Kalinitshenko, vice-diretor do hospital de Omsk, onde o opositor foi internado na Unidade de Terapia Intensiva, com um respirador. 

Nesta sexta-feira, o médico Alexander Murakhovsky disse que apesar de o estado de saúde de Navalny ter melhorado um pouco, ainda é instável e, por isso, uma tentativa de transferência seria um risco. Ele afirmou que existem cinco possíveis diagnósticos para a condição de Navalny e que o resultado dos exames deve sair em dois dias. Murakhovsky se recusou a responder se o líder opositor teria sido envenenado. 

Apesar de os aliados de Navalny desejarem sua transferência, Murakhovsky disse que várias questões legais precisariam ser resolvidas antes disso acontecer. Ele também contou que médicos foram levados de Moscou para Omsk para ajudar no tratamento. 

Navalny, um dos maiores críticos do Kremlin, passou mal após tomar um chá no aeroporto de Tomsk, na Sibéria, antes de viajar para Moscou, segundo sua representante, Kira Yamysh. A porta-voz, que viajava com ele, disse à rádio Echo Moscou que ele foi vítima de um "envenenamento intencional".

"Acreditamos que Alexei foi envenenado com algo misturado em seu chá. Essa foi a única coisa que ele bebeu pela manhã", disse no Twitter.

Segundo ela, Navalny parecia estar "totalmente bem" pela manhã em Tomsk, mas "logo após a decolagem, ele perdeu a consciência".

De acordo com os médicos, seu estado é grave e o suposto envenenamento é apenas "uma das teorias sob investigação".

Segundo a agência de notícias Interfax, exames iniciais indicam que havia em seu corpo sinais de um “agente psicodisléptico não identificado”. O canal de mensagens Baza, que atua no Telegram, noticiou que ele teria sido envenenado com GHB, uma das drogas habitualmente usadas em golpes conhecidos como “boa noite, Cinderela”.

Resgate organizado por ativistas

Ele seria transferido para a Alemanha na madrugada desta sexta-feira, 21, mas segundo Kira Yarmysh, sua porta-voz, o médico responsável por ele disse que seu estado de saúde é "instável" e, por isso, a viagem não seria recomendável. Para ela, a decisão "é uma ameaça direta para sua vida", escreveu Kira no Twitter. 

O braço direito do ativista, Leonid Volkov, denunciou uma "decisão política, não médica". Ele diz que "os médicos esperam que as toxinas saiam e não possam ser detectadas em seu corpo. Não há diagnóstico, nem análise. A vida de Alexei está em perigo".

Um avião-ambulância decolou da Alemanha com destino à Rússia à meia-noite local (19h de Brasília) para buscar Navalny, informou à Agência France Press uma organização não governamental que organizou o transporte. A Cinema for Peace já organizou uma operação similar em 2018 para uma das integrantes do grupo punk russo Pussy Riot.

Navalny, o principal nome da oposição a Putin

Navalny é o principal nome do movimento de oposição ao Kremlin e esta não é a primeira vez que recebe ameaças. No ano passado, ele afirmou ter sido envenenado com uma substância que lhe causou um grave reação alérgica durante uma de suas diversas passagens pela prisão. Em 2017, foi atacado por um homem desconhecido com um líquido verde, perdendo 80% da visão de um olho e sofrendo queimaduras químicas.

Ele é fundador do Fundo Anticorrupção (FBK), entidade que se tornou conhecida nos últimos anos por descobrir e publicar nas redes sociais escândalos de corrupção das elites políticas e empresariais russas. 

Nos últimos anos, o grupo conseguiu construir uma rede local grande pelo país. O FBK já foi considerado culpado de violar uma lei de "agente externo" por aceitar financiamento estrangeiro e Navalny, condenado por corrupção. 

Seus apoiadores, no entanto, afirmam que ele é vítima de perseguição política pelo Kremlin. O advogado já foi barrado de participar de diversas eleições e, frequentemente, é detido nas manifestações antigoverno que muitas vezes lidera.

Envenenamento no chá de Navalny

A polícia de Omsk disse que está investigando um possível envenenamento, mas segundo a agência de notícias estatal Tass, esta hipótese não é considerada. De acordo com uma fonte da agência, não se exclui que Navalny tenha “bebido ou tomado algo por conta própria”.

A companhia aérea que o transportava, a S7, no entanto, disse que ele não bebeu ou comeu nada enquanto estava no ar. Segundo o relato que um passageiro, Pavel Lebedev, postou em suas redes sociais, Nalvany gritava de dor pouco antes de perder a consciência.  

Vídeos postados nas redes sociais o mostram sendo transportado para uma ambulância após a aeronave pousar em Omsk.

Opositores envenenados

O suposto envenenamento de opositores do  regime de Putin não é algo raro na Rússia. Em 2006, Alexander Litvinenko, ex-agente da KGB e crítico de Putin, morreu em Londres após beber chá envenenado com polônio-210. 

Oito anos depois, Sergei Skripal, um russo que trabalhava como agente duplo para as Inteligências russa e britânica, foi envenenado com um agente nervoso em Salisbury, no Reino Unido.

Em 2018, Petr Verzilov, editor do site independente Mediazona, passou um mês na UTI após uma substância desconhecida lhe custar a fala e parte da visão. O Kremlin nega qualquer envolvimento com os casos, chamando-os de "provocações anti-Rússia". /AFP e Reuters

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