Ueslei Marcelino / Reuters
Ueslei Marcelino / Reuters

Opositor venezuelano critica medidas de Bolsonaro para país

'O candidato Bolsonaro foi muito duro e assertivo contra o regime de Nicolás Maduro, mas o presidente Bolsonaro não pôs em prática as medidas que anunciou', disse o deputado Luís Silva (AD-BO)

Pablo Pereira, ENVIADO ESPECIAL A CARACAS, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2019 | 05h00

As propostas o candidato Jair Bolsonaro sobre a crise da Venezuela mudaram depois que ele tornou-se presidente da República e essa mudança de posição provoca reações em Caracas, que desde a semana passada vive clima de tensão política entre a situação chavista, que reprime atos da oposição. “O candidato Bolsonaro foi muito duro e assertivo contra o regime de Nicolás Maduro, mas o presidente Bolsonaro não pôs em prática as medidas que anunciou durante sua campanha”, afirmou nesta segunda-feira na capital o deputado Luís Silva (AD-BO), eleito pelo Estado de Bolívar. “Estamos à espera dessa ajuda efetiva do Brasil”, disse.

Para o oposicionista venezuelano, representante do setor agropecuário no Congresso, e um dos líderes do Plan País, projeto de recuperação econômica previsto para o pós-chavismo, “a Venezuela necessita de toda ajuda possível” e Bolsonaro poderia ajudar mais do que o fez, por exemplo, quando da crise da ajuda humanitária na fronteira de Pacaraima com a venezuelana Santa Elena.

Para o deputado, “o Brasil deveria liderar os países latinoamericanos. Brasil tem posição privilegiada na região e sua opinião marca a rota para o resto dos países”, argumentou. “É um país pronto para liderar e ocupar um lugar na história da independência venezuelana”, afirmou. “Na minha opinião, Bolsonaro foi excessivamente cauteloso”, disse.

O parlamentar não quis falar sobre uma eventual invasão armada no país. “Não, esta seria a última alternativa. Antes disto temos ainda esperança numa solução política interna, com a adesão dos militares patriotas venezuelanos e o crescente apoio popular, coisa que já está em andamento no país”, ponderou. Para ele, não há qualquer oferta de operação militar externa, nem dos EUA, para afastar Maduro. “Isso seria trágico”, afirmou. Ele acrescentou que não tem dúvidas de que isso seria aprovado no Congresso, mas ressaltou que "não houve qualquer oferta".

Neste momento, destacou, a estratégia da oposição está hoje baseada em três pilares: Ampliar o rechaço interno à usurpação do poder, buscar apoio internacional e o “incentivo aos militares e civis patriotas a acatarem o artigo 333 da Constituição Venezuelana, que prevê que 'todo cidadão tem o dever de fazer o necessário para a vigilância e reconstituição da Constituição”.

Para Silva, o país vive uma ditadura. “Dou-te um exemplo: eu mesmo fui roubado”, contou. E recordou que abandonou a produção agrícola no sul do país por ter sido vítima de represálias do governo chavista local. “Fui vítima de assaltos, me roubaram 30% da produção num prazo de quatro meses, tive de vender as terras”, lembrou o político, que passou a administrar uma empresa de insumos agrícolas. Mas novas ações governistas ocorreram.

Em 2017, relembrou, “seis policiais me sequestraram por uma hora e me roubaram a camionete”, afirmou. “Esse clima contra opositores não pode continuar”, defendeu. Silva disse ainda que o governo chavista é dono hoje de mais de 5 milhões de hectares de terras produtivas confiscados dos proprietários. “Isso é confisco, não é expropriação. Eles tomam as terras e não indenizam os proprietário”, argumentou.

O deputado, que se diz um social-democrata, defensor da economia social de mercado, nega que seja de extrema direita. “Sou contra a militarização do Estado”, contestou. “Na Venezuela, há generais mandando em tudo, nas grandes empresas estatais, Guayana, PDVSA, Corpoelec”, disse. “O governador de Bolívar, meu estado, é um general, o prefeito de Ciudad Bolívar, a capital local, é um sargento”, afirmou. “Deram aos militares postos no governo, estão espalhados pelo poder, com concessões de exploração de ouro, diamentes e outros minerais. Isso não pode ser assim”, afirmou.

A saída para a crise venezuelana, segundo ele, deve passar pelo parlamento, onde hoje a oposição tem 112 dos 168 deputados, mas conta ainda com apoio eventual de um grupo de mais cinco ou seis parlamentares da situação em algumas votações. O parlamentar disse ainda que há 25 projetos de leis prontas para votar, entre elas a lei que dá poderes ao Estado para repatriar recursos de contas externas bloqueadas com dinheiro da corrupção dos chavistas. “Mas não vamos votar isso agora porque eles têm o controle do poder judiciário e as leis seriam imediatamente declaradas ilegais”, afirmou.

Por fim, ele diz que não houve tentativa de golpe no país na semana passada. “Isso não ocorreu porque não há governo legítimo. O regime de Maduro usurpou o poder, isso é uma fraude, e é reconhecido por muitos países”, afirmou. “Eu faço aqui um apelo à esquerda internacional, ao Foro de São Paulo: isso que ocorre na Venezuela não é um governo socialista. Isso é uma autocracia composta por delinquentes associados ao narcotráfico e ao terrorismo e esta é uma oportunidade para as esquerdas latinoamericanas não serem cúmplices da morte de doentes, crianças, idosos, por fome, por falta de remédios, como ocorre hoje aqui”, emendou.

Para ele, a economia no país está dolarizada, os salários em bolívares não representam nada no consumo das famílias, o país está quebrado e a população sofre. “Mas não perco a fé e penso que é possível recuperar a Venezuela. Temos planos para isso”, explicou. “E com a ajuda do Brasil”, concluiu.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.