'Opositoras venezuelanas tomaram a frente'

Ativista busca apoio regional para libertar o marido, acusado pelo governo de Maduro de tramar golpe de Estado

Entrevista com

Mitzy Capriles. mulher do prefeito metropolitano de Caracas, Antonio Ledezma

LUIZ RAATZ, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2015 | 02h01

Mulher de Antonio Ledezma, preso em fevereiro por agentes do Serviço Bolivariano de Inteligência sob a acusação de planejar um golpe contra o presidente Nicolás Maduro, Mitzy Capriles ressalta a importância das mulheres de líderes da oposição venezuelana depois de o chavismo ter prendido três prefeitos e o líder Leopoldo López nos últimos 15 meses. Enquanto ela e Lilian Tintori viajam pela região em busca de apoio diplomático, Patricia de Ceballos e Rosa Scarano comandam as prefeituras de San Cristóbal e San Diego. "São mulheres muito valentes", disse ela ao Estado. A seguir, trechos da entrevista.

Como está seu marido depois da cirurgia?

Está se recuperando do pós-operatório. Foi muito difícil. Ele estava na cadeia e sentiu dores durante 18 dias até que fosse levado a um hospital. Então, os médicos se deram conta de que o teriam de operar de uma hérnia. Os chavistas falam que agora ele está em casa, mas está preso (Ledezma se recupera da cirurgia em casa sob prisão domiciliar). Mas ele segue animado e disposto a lutar por seu país e buscar diálogo entre os dois lados. Ele é um democrata. É impossível brigar com ele. Pode-se conversar sempre com Antonio.

Nos últimos meses, depois das prisões de líderes da oposição, suas mulheres ganharam proeminência na política venezuelana. Por que isso aconteceu?

Não sei se há uma "feminização" da oposição. Se fossem prefeitas que tivessem sido presas, acredito que seus maridos estariam fazendo o mesmo. Quando eles foram reprimidos, suas mulheres tomaram a frente. Mas, de fato, o caso de Patrícia de Ceballos (eleita prefeita de San Cristóbal depois da prisão do marido, Daniel) é impressionante. Ela assumiu a responsabilidade de substituí-lo e ganhou de maneira avassaladora, assim como a Rosa, mulher de Enzo Scarano, em San Diego. As duas e Lilian são mulheres muito valentes.

E a senhora não pensou em substituir Ledezma na prefeitura metropolitana?

Jamais. Ele é o prefeito metropolitano e foi eleito e reeleito.

A Venezuela vive um grave problema cambial e o governo limita o acesso a dólares para as pessoas que querem deixar o país. Como vocês conseguiram financiar essa viagem?

Nós evidentemente temos amigos que nos ajudam na nossa causa. Seria uma bobagem pensar que Leopoldo López, Antonio Ledezma e a oposição não teriam amigos que nos possam ajudar. Pessoalmente, não podemos comprar dólares a não ser que os compremos no câmbio negro, a preços extorsivos. O importante não é perguntar como podemos viajar. O importante é saber como gente do governo viaja como quer, vivendo a vida que vive, e diz que defende os mais pobres.

E o chavismo tentou de alguma maneira dificultar a viagem?

Até agora não. Nem poderiam. Seria o cúmulo. Não estou presa. Se me perguntam para que vou viajar, não preciso responder. Afinal de contas, vivemos supostamente numa democracia. Entretanto, uma vez já retiveram minha filha numa sala do Sebin (o serviço secreto chavista) antes de uma viagem apenas por ser filha de Antonio Ledezma.

A senhora tem um genro que foi ministro chavista, Andrés Izarra. Como é essa convivência com alguém do "outro lado"?

Você é muito jovem. Não sabe ainda que não se escolhe os amores dos seus filhos. Para nós, a família e o amor são parte fundamental da nossa vida. Simplesmente não falamos de política. Nunca dizemos nada que desrespeite a maneira dele de pensar, assim como ele nunca nos desrespeitou e nos deu dois netos espetaculares.

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