Amir Cohen/Reuters
Amir Cohen/Reuters

Eleição em Israel: opositores buscam voto de minoria árabe-israelense

Comparecimento do eleitorado árabe nas eleições de terça-feira poderia ajudar na formação de uma aliança liderada pelo partido do ex-general Benny Gantz, único capaz de derrotar o primeiro-ministro israelense

Renata Tranches, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2019 | 07h00

Relegado às margens da política, o voto árabe-israelense ganhou um importante papel para as eleições de terça-feira em Israel, que decidirão o futuro do primeiro-ministro, Binyamin “Bibi” Netanyahu.

As últimas pesquisas previam uma disputa apertada, cinco meses após uma eleição inconclusiva na qual o premiê se declarou vencedor, mas não conseguiu formar uma coalizão de governo, convocando nova votação.

Netanyahu e seu partido Likud disputam voto a voto com Benny Gantz, líder da aliança Azul e Branco, que intensificou sua campanha, nas últimas semanas, com outdoors em cidades árabe-israelenses e entrevistas a canais árabes. 

“Essa é uma mudança de estratégia com relação às eleições anteriores (de abril)”, admitiu o candidato ao Parlamento da coalizão Azul e Branco Ram Ben-Barak, ex-diretor do Mossad (o serviço secreto israelense), à agência Reuters

O apoio de parlamentares árabes poderia ajudar a aliança a compor a maioria necessária para formar um governo que tiraria do poder Netanyahu, o premiê israelense há mais tempo no cargo.

Os árabes representam 21% da população de Israel, estimada em 8,7 milhões. Eles participam e elegem candidatos à Knesset (Parlamento) desde a primeira eleição, em 1949, assim como integram todos os aspectos da vida cotidiana do país.

O professor de política da Universidade de Tel-Aviv e da Cornell (EUA) Uriel Abulof, em entrevista ao Estado, disse que, para Netanyahu, o melhor dos cenários é que esses eleitores árabes não compareçam em grande número na terça-feira.

A abstenção deles em abril foi significativa (50%). Se eles decidirem participar na mesma proporção dos judeus ultraortodoxos, podem ganhar entre 16 e 17 cadeiras no Parlamento (de um total de 120), o que seria um resultado fora do comum. “Poderiam influenciar muito a formação de uma coalizão e potencialmente participar dela”, afirma Abulof.

Na disputa, os árabes estão representados pela Lista Árabe Unida, composta predominantemente por partidos árabes de ideologias díspares, religiosos ou seculares. Nas eleições de 2015, a formação conseguiu 13 cadeiras na Knesset. Nas votações passadas, a aliança foi desfeita e o número de cadeiras caiu para 10, distribuídas entre os partidos. A participação eleitoral dos árabes foi reduzida de 65%, em 2015, para 50%, em abril.

Analistas citam a intimidação do Likud, que conseguiu instalar câmeras em locais de votação em comunidades árabes, como um dos motivos para ter desencorajado os eleitores. Em agosto, o Comitê Central Eleitoral barrou a repetição da medida, vista pelos árabes como uma forma de cercear o voto.

“Netanyahu é o primeiro de todos os israelenses a entender que a chave para sua derrota é uma parceria entre a centro-esquerda e os árabes”, afirmou Ron Gerlitz, diretor da Associação pelo Avanço da Igualdade Cívica em Israel (Sikkuy), em entrevista à revista New York Review of Books

A intimidação não é o único motivo que explica a baixa participação em abril. Uma pesquisa após as eleições mostrou que 34% dos eleitores árabes que decidiram não votar tomaram essa decisão por acreditar que seu voto teria pouco impacto, convencidos de que os líderes árabes eleitos ignoram as principais reivindicações.

Uma das queixas mais graves é a violência de grupos e gangues dentro das comunidades árabes e a violência de gênero. “Esse tem sido um problema. Muitos árabes-israelenses estão trabalhando duro para mudar as coisas. Eles precisam de muito mais ajuda do Estado em suas comunidades”, afirma Abulof.

Árabes-israelenses e ex-membros do governo alegam que há discriminação na definição do orçamento, como argumentou recentemente Yossi Beilin, que ocupou vários postos em ministérios israelenses e na Knesset.

Segundo dados divulgados em 2016 por Mamoun Abd al-Hay, então prefeito da cidade de Tira, o investimento do governo, às vezes, é oito vezes maior para as cidades israelenses em comparação com as árabes-israelenses. Para analistas, a eleição pode oferecer uma chance de mudar essa situação.

“No entanto, primeiro, as pessoas devem comparecer e votar em seus líderes e encorajá-los a serem corajosos (a formar um governo conjunto)”, afirma Abulof. Segundo pesquisa divulgada em abril, a maioria dos eleitores árabes – entre 73% e 78% – apoiaria um governo de coalizão entre parlamentares árabes e a centro-esquerda. Resta saber se os líderes finalmente serão sensíveis aos desejos do eleitorado.

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