Opositores conseguem candidaturas a vereador na ilha

Críticos ao regime dos Castro, Yuniel López e Hildebrando Chaviano são difamados pelo regime em cartazes

HAVANA, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2015 | 02h02

Em um raro desafio ao sistema político cubano, dois críticos do regime castrista conseguiram entrar na disputa das eleições para vereadores em Havana, marcadas para o dia 19. Hildebrando Chaviano, de 65 anos, e Yuniel López, de 26, conseguiram o respaldo de seus vizinhos em uma votação pública no mês passado. O governo, no entanto, tem retratado ambos como "inimigos da revolução" em cartazes com as suas biografias.

Em folhetos espalhados pelos bairros comunicando as candidaturas dos opositores, o regime cubano os retratou como "contrarrevolucionários financiados no exterior".

No caso de Chaviano, a biografia que acompanha o anúncio da candidatura o descreve como simpatizante do governo dos Estados Unidos e desertor do Exército. Sua carreira acadêmica não foi mencionada. "Só faltou o anúncio de 'Procurado'", disse o dissidente, que tem um blog crítico ao governo.

López pertence a um partido banido fundado por Huber Matos, ex-companheiro de guerrilha de Fidel Castro que rompeu com o líder cubano e acabou exilado. "Contrarrevolucionário é outro jeito de me chamar de terrorista", afirmou. "Aqui, veem um contrarrevolucionário como alguém que sabota a economia ou faz atentados."

Há 27,3 mil candidatos a 12 mil cargos de vereador em todo o país. O regime diz que seu sistema eleitoral é democrático, uma vez que a população indica os candidatos e eles, em tese, podem ascender na estrutura de poder sem pertencer ao Partido Comunista. Na prática, no entanto, apenas burocratas ligados à cúpula do regime conseguem chegar aos cargos mais destacados.

Não existe campanha eleitoral. O governo garante que há neutralidade no tratamento dado aos candidatos. "Há tratamento igual e oportunidade para todos, sem favorecer ninguém", disse Yusimi Perez, uma das responsáveis pelo distrito no qual Chaviano é candidato. "Não temos um único caso entre os 217 candidatos com qualquer peculiaridade."

Chaviano admite que assinou os dados biográficos no registro mesmo contendo informações incorretas.

Dissidentes cubanos geralmente boicotam as eleições municipais. Alguns ainda tentam disputá-las, mas nunca tinham conseguido até então o apoio dos vizinhos.

"Ninguém foi tão longe quanto esses dois", disse o analista Arnold August, autor de um livro sobre o processo eleitoral cubano. "A inclusão de comentários desse tipo vai contra o espírito do sistema eleitoral. Não acredito que auxilie a revolução tentar acabar com a reputação dos dissidentes desse jeito."

Caso consiga se eleger, Chaviano promete melhorar a falta de oferta de moradia no bairro de Vedado e alimentar os mais pobres. López tem como objetivo "consertar as calçadas e ruas da vizinhança".

"Podemos surpreender", diz Chaviano. "Posso ter mais votos por ser diferente."/ REUTERS

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