REUTERS/Carlos Garcia Rawlins
REUTERS/Carlos Garcia Rawlins

Opositores e chavistas protestam na Venezuela

O líder opositor Juan Guaidó convocou marchas contra Nicolás Maduro; em resposta, o chavismo mobilizou a população e também ocupou as ruas

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2019 | 17h49

Milhares de pessoas tomaram as ruas da Venezuela neste sábado, 6, para protestar contra o governo de Nicolás Maduro e pedir o fim dos apagões que mantém às escuras e sem água parte do país. Mobilizados pelo líder opositor e autoproclamado presidente interino, Juan Guaidó, os manifestantes pedem a saída do chavista, alvo de novas sanções dos Estados Unidos em pressão ao regime bolivariano. Pelo menos dois deputados foram detidos na marcha, e liberados cerca de uma hora depois.

Em reação, os chavistas também convocaram protestos contra o “usurpador” Juan Guaidó e contra o que eles chamam de ameaças “imperialistas” contra a soberania venezuelana. Milhares de chavistas se reuniram em Caracas, liderados pelo presidente da Assembleia Constituinte, Diosdado Cabello. 

A Venezuela sofre com a hiperinflação, a recessão econômica, o desabastecimento de alimentos e medicamentos, além das interrupções de serviços básicos, centrais também nos protestos que se espalharam por vários outros pontos do país. Os apagões redobraram a pressão popular contra o governo e a oposição em meio à disputa de poder que divide a sociedade venezuelana e a comunidade internacional.

O chefe do Parlamento, Juan Guaidó, convocou os cidadãos do país a saírem às ruas neste sábado no que considerou serem manifestação "definitivas" para pressionar Maduro a deixar o cargo. Alguns manifestantes bateram panelas e outros carregaram cartazes com palavras de ordem contra o Palácio de Miraflores.

“Queremos sair desta ditadura que nos deixa sem luz, sem água, sem alimentos, e não podemos ir à fronteira buscar nada”, reclamou Ana Iris Sánchez, de 64 anos, que levava consigo no protesto um boneco de pano com os dizeres “usurpador”, no oeste de Caracas, em referência ao poder de Maduro.

Desde março, a Venezuela sofre com extensos apagões, que o governo atribui a uma suposta “sabotagem” de grupos contrários a ele. Especialistas destacam, porém, que as falhas são causadas por falta de manutenção e investimento em infraestrutura.

Ainda que o governo tenha anunciado cortes elétricos programados de três horas na semana em todo o país, à exceção de Caracas, em vários estados o apagão é mais prolongado. Na capital há problemas no fornecimento de água.

Em Maracaibo, capital do estado petroleiro de Zulia, um dos mais afetados pelos cortes de luz, a polícia tentou dispersar os manifestantes com gás lacrimogêneo, logo no início da mobilização. A Assembleia Nacional, de maioria opositora, destacou pelo Twitter que dois de seus deputados foram detidos.

“Quero denunciar que em Maracaibo foi detido o deputado Renzo Prieto, ao lado do cidadão Gregory Sanabria e de Andrés Roballo pela Guarda Nacional. Também foi detida a deputada Nora Bracho”, afirmou a parlamentar Adriana Pichardo em um áudio divulgado pela equipe de comunicação de Guaidó.

Pichardo afirmou que a imunidade parlamentar dos dois políticos foi violada. Eles foram liberados horas depois. Na última semana, a Assembleia Nacional Constituinte, controlada pelo chavismo, retirou o foro de Guaidó e autorizou o prosseguimento de um processo judicial contra o líder opositor. Segundo ela, outras pessoas ficaram feridas por disparos de bala de borracha.

“A repressão foi brutal, do helicóptero lançaram bombas de gás lacrimogêneo, enviaram tanques da Guarda e depois que os militares reprimiram chegaram os coletivos (civis chavistas armados)”, disse à AFP a deputada Elimar Díaz, que estava em Maracaibo.

A parlamentar afirmou que na região em que os militares reprimiam as pessoas não havia energia elétrica.

Resposta dos chavistas

Em respaldo a Maduro, centenas de governistas saíram às ruas do oeste ao centro de Caracas com tambores e palavras de ordem em favor do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). A multidão marchou em direção ao palácio presidencial.

Maduro voltou a destacar que Guaidó é um "fantoche" e acusou Washington de querer derrubá-lo para se apoderar do petróleo venezuelano por meio de uma guerra econômica e "ataques eletromagnéticos" à infraestrutura elétrica.

“Os apagões nos afetaram, mas não é por isso que vou ficar contra o meu presidente”, explicou Maribel Ríos, uma funcionária de limpeza de 65 anos, à AFP. “Haja o que houver, eu sigo lutando pela minha pátria e pelo meu presidente Nicolás Maduro. Daremos a vida, se necessário, mas é meu presidente e aqui vai ficar”.

Washington anunciou na sexta-feira, 5, mais sanções contra o setor petroleiro da Venezuela, a principal fonte de recursos do país, para arrochar a pressão financeira contra Maduro. O aperto às finanças de Caracas é tido como prioridade, no momento, na estratégia de críticos do regime chavista. O enviado especial dos Estados Unidos para a Venezuela disse na quinta-feira que ainda não é hora para intervenção militar no território.

No sábado, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) anunciou uma visita à Venezuela de seu presidente, Peter Maurer, na próxima semana. A instituição prometeu enviar assistência humanitária para os hospitais do país./ AFP e REUTERS

 

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