AP Photo/Rodrigo Abd
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Opositores falam em transição que envolva chavistas e militares

Necessidade de plano B cresceu após fracasso da anistia e das poucas deserções da cúpula militar 

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

17 de fevereiro de 2019 | 04h00

Alguns líderes da oposição venezuelana já falam publicamente em uma transição que inclua autoridades chavistas e militares, depois de a oferta de anistia combinada com a pressão pela entrada de ajuda humanitária provocou poucas deserções na cúpula das Forças Armadas. Nos últimos dias, o vice-presidente do Parlamento, Stalin González, e o representante diplomático do líder opositor Juan Guaidó nos EUA, Carlos Vecchio, deram declarações nesse sentido. 

A pouca probabilidade de a Casa Branca recorrer a uma intervenção militar e o forte apoio ao chavista Nicolás Maduro de China e Rússia, que têm investimentos na Venezuela, assim como as ressalvas da União Europeia ao modo como os EUA têm articulado a mudança de regime, também contribuem para uma transição negociada, segundo analistas consultados pelo Estado.

Na quinta-feira, González, do partido Um Novo Tempo, disse ser a favor de o chavismo e os militares terem papel na transição. Para ele, a oposição deveria apresentar uma candidatura única em eleições democráticas monitoradas internacionalmente, com o chavismo entre as forças políticas habilitadas a disputá-las. 

Vecchio, um dos líderes do partido Voluntad Popular, ao qual pertencem Guaidó e seu padrinho político, Leopoldo López, disse que esse papel pode ser desempenhado pelos deputados chavistas eleitos para a Assembleia Nacional, de maioria opositora. 

“Temos de resgatar a convivência democrática”, disse Vecchio em debate promovido pela revista digital Efecto Cocuyo. “Os chavistas podem construir a transição a partir da Assembleia. A base chavista não pode pagar pela corrupção da elite madurista.”

A mudança de tom se explica pela pequena adesão da cúpula militar a Guaidó. Até agora, apenas um general e dois coronéis romperam com Maduro. Os mais de 2 mil generais comandam setores importantes da economia, como a PDVSA, a extração de ouro e a distribuição de alimentos. 

“Ficou claro que a oposição precisa de um plano B. É por isso que muitos já falam da necessidade de novas eleições, até mesmo com o reconhecimento por parte da oposição de que a transição terá de envolver o chavismo”, disse ao Estado Geoff Ramsey, especialista do Washington Office on Latin America. “Você tem de oferecer algo ao regime além da anistia. Por isso, é positivo que a oposição considere este cenário.”

Para Luis Vicente León, do Instituto Datanálisis, com a incapacidade da oposição em atrair apoio militar, as negociações, com objetivo de diminuir os custos para o chavismo de uma saída do poder são a melhor opção.  “A crise só se resolve politicamente. Mas enquanto parte da oposição tem ressalvas às negociações, porque já fracassaram outras vezes, qualquer estratégia crível passa exatamente por sentar-se à mesa e conversar”, afirma. “Não negociar é o pior cenário.”

Nos bastidores, apesar da retórica dura, governo americano também alterou sua estratégia com o regime chavista. Maduro revelou em entrevista à Associated Press, que seu chanceler, Jorge Arreazza, se reuniu por duas vezes neste mês, como o enviado do presidente Donald Trump para a Venezuela, Elliott Abrams.

Segundo fontes venezuelanas, os encontros foram organizados a pedido dos Estados Unidos. No primeiro, o tom foi mais agressivo, com ameaças de intervenção. No segundo, no começo desta semana, autoridades chavistas perceberam espaço para negociar com os americanos.

“Uma intervenção americana seria impopular tanto dentro quanto fora dos Estados Unidos”, acrescenta Ramsey. “E acredito que nas entrelinhas o governo priorize ainda a diplomacia.”

O respaldo chinês e russo a Maduro também é um complicador para a estratégia inicial americana de que Maduro deixasse o poder e o entregasse a Guaidó. Com respectivamente mais de US$ 50 e US$ 17 bilhões investidos na Venezuela, Pequim e Moscou já buscam nos bastidores contatos com representantes da oposição.

A União Europeia, preocupada com o precedente que o reconhecimento de um governo sem controle de território poderia ter em separatismos de seus países-membros, procura respaldar uma saída eleitoral verificada pela comunidade internacional.

“A solução oferecida pelos europeus é a única que pode preservar a representatividade das bases chavistas”, escreveu David Smilde, também do Wola, em artigo no New York Times.

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