Opositores receberão anistia

Chávez promete indultar participantes de golpe de 2002

Ruth Costas, Caracas, O Estadao de S.Paulo

02 de janeiro de 2008 | 00h00

Aproveitando os holofotes da imprensa internacional, o presidente venezuelano, Hugo Chávez, anunciou na noite de segunda-feira uma anistia para os opositores que participaram de uma tentativa frustrada de golpe contra seu governo em 2002. "Precisamos virar essa página", disse Chávez, em uma declaração que destoa dos discursos combativos feitos nos últimos anos. "Queremos o caminho da paz. Que haja um forte debate ideológico e político, mas em paz." Segundo Chávez, mais de 60 opositores presos e processados poderiam ser beneficiados pela anistia, cujos termos são definidos em um decreto que será publicado dentro de dois dias. Além daqueles que apoiaram a tentativa de golpe, também serão indultados trabalhadores da estatal petrolífera PDVSA que participaram de uma greve com o objetivo de desestabilizar o governo. "Não incluiremos os acusados de homicídio ou tentativa de magnicídio comprovada", explicou o presidente, excluindo também os opositores que estão foragidos da justiça. O anúncio foi feito um mês após a vitória do "não" no referendo sobre a reforma constitucional proposta por Chávez - a primeira vitória eleitoral da oposição venezuelana em mais de uma década. Na época, Chávez qualificou o resultado da consulta popular como "uma vitória de merda" dos opositores. Já os grupos críticos ao governo fizeram um chamado à conciliação, que incluía o indulto ao que esses grupos classificam de "presos políticos". Segundo analistas, o aceno de Chávez à proposta é um sinal de que o referendo funcionou como um choque de realidade para o presidente, até então confiante no apoio incondicional da população. "Ele mostrou ao governo que os venezuelanos têm uma forte aversão a iniciativas que possam ferir princípios democráticos importantes como a pluralidade de posições políticas", disse ao Estado o cientista político José Molina. O recente fracasso da operação de resgate dos reféns das Farc também pode ter adiantado o anúncio do decreto. O golpe de 2002 foi planejado por empresários e políticos opositores e chegou a afastar Chávez do poder por 48 horas, até o presidente ser restituído por simpatizantes. A oposição acusa Chávez de promover uma caça às bruxas, impedindo quem não o apóia de ter acesso a cargos públicos ou a programas sociais promovidos pelo governo. O presidente nega as acusações, mas, pelo menos até agora, o discurso oficial era de constante confronto.

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