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Opositores sírios armam protestos simultâneos para desafiar Assad

Dissidentes e ativistas colocam na internet imagens de várias cidades em levante contra o regime sírio - que teria matado entre 15 e 30 pessoas ontem; governo exibe na TV oficial manifestações favoráveis a presidente e Forças Armadas denunciam milícias

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2011 | 00h00

CORRESPONDENTE / NOVA YORK

As divisões ampliaram-se na Síria em um dia de protestos contra e a favor do regime de Bashar Assad. Imagens e relatos de dissidentes em redes sociais na internet mostraram manifestações simultâneas de oposição ao regime nos subúrbios de Damasco e no interior do país - entre 15 e 30 opositores teriam sido mortos, segundo ativistas. As forças de segurança, por sua vez, dizem que milícias da oposição mataram três soldados e dois civis.

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Nos EUA, a secretária de Estado, Hillary Clinton, intensificou a pressão contra Assad e disse estar trabalhando para convencer outros países, como a Rússia, a parar de enviar armas para Assad e suspender a ajuda política e econômica. Em um outro sinal de isolamento do regime, o presidente da Turquia, Abdullah Gul, um dos maiores aliados de Damasco até meses atrás, enviou uma carta a Assad com uma dura advertência. "Não quero ver você, quando olhar para trás um dia e lamentar que fez muito pouco e tardiamente", afirmou o líder o turco.

As manifestações de ontem, segundo relatos de opositores, teriam se espalhado por outras partes do país atingindo até mesmo a cidade de Aleppo, o principal centro econômico da Síria, que se mantinha calma. Mil manifestantes teriam se reunido, número considerado elevado pela oposição.

Ao mesmo tempo, outros relatos, do governo e também de moradores da cidade, indicam que os atos contra o regime não foram pacíficos. Segundo a agência de notícias Sana, em um bairro de Aleppo, forças de segurança teriam sido atacadas por grupos armados. Além disso, descreveram uma gigantesca manifestação a favor de Assad na cidade. "Milhares se reuniram em Damasco, Aleppo, Latakia, Tartous e Jableh", informou o órgão oficial do governo sírio, que exibiu imagens dos eventos a favor do regime.

A oposição teria concentrado as manifestações nas cidades de Hama e Deir al-Zor, que têm sido o foco dos protestos e foram alvo de violenta repressão nas últimas semanas. Com as tropas se retirando, os moradores aproveitaram para iniciar protestos logo depois das orações de sexta-feira, dia sagrado para o islamismo, especialmente durante o mês do Ramadã.

Os opositores disseram que milhares participaram dos protestos. Mas o governo afirmou que eram apenas algumas centenas, em lugares isolados, e se dispersaram em alguns minutos. Protestos também ocorreram nos subúrbios de Damasco, confirmados até mesmo pelo governo. No entanto, as manifestações não atingiram a capital e relatos indicam que o número de membros das forças de segurança superava o de manifestantes. Seis pessoas teriam morrido em Douma, de acordo com a oposição

Segundo analistas, a chegada ou não de protestos a Damasco e Aleppo é decisiva para Assad manter-se no poder. Caso essas duas cidades se tornem alvo de protestos, o regime rapidamente tende a se deteriorar, segundo especialistas.

Até agora, os maiores protestos concentram-se em áreas com populações sunitas conservadoras, como Hama. Nas grandes metrópoles, onde além das minorias cristãs e alauitas existe uma classe média sunita secular, o apoio ao regime ainda é forte, de acordo com diplomatas consultados pelo Estado e consultorias de risco como a Eurasia e a Stratfor.

Esta visão de que o regime de Assad ainda conta com suporte reflete-se nas discussões internacionais sobre o futuro do país. Nações como Brasil, Rússia, Índia, África do Sul e China acreditam que o líder sírio, se interromper imediatamente a violência, tem condições de negociar uma transição para a democracia. "É um processo que leva tempo e não ocorrerá de uma hora para outra", disse um diplomata de um destes países no Conselho de Segurança da ONU. "Mas vamos esperar apenas alguns dias para que ele atue e encerre a violência", acrescentou. Caso contrário, disse o diplomata, novas medidas poderão ser tomadas.

O governo americano e os países da União Europeia querem aumentar a pressão sobre Assad imediatamente e já o consideram ilegítimo. "Os Estados Unidos continuarão trabalhando com seus parceiros para aumentar o consenso para isolar o regime de Assad", disse Hillary. Segundo a secretária de Estado, "os países precisam parar de comprar gás e petróleo da Síria". Hillary referia-se a Índia, China e Rússia.

Apesar de não ser um grande exportador, a Síria depende economicamente da venda desses produtos. A estratégia dos EUA é convencer as nações compradoras, incluindo algumas europeias, a buscar outros fornecedores para enfraquecer Assad. Mas esta opção tem a oposição de alguns aliados americanos que temem uma consequência negativa para a economia síria em uma era pós-Assad. / COM AP

PARA ENTENDER

Exército coeso e insuficiente

O Exército sírio mostra poucos sinais de divisões ou deserções. A seita alauita, da qual Assad faz parte, controla a cúpula das Forças Armadas. A massa dos soldados é composta por muçulmanos sunitas. Em certas unidades, sunitas e alauitas são intercalados no alto escalão para impedir todas as tentativas de subversão. Apesar de o Exército ser bem organizado, especialistas acreditam que Assad não tem tropas para atuar em vários locais ao mesmo tempo em caso de necessidade. Segundo Firas Abi Ali, analista da Exclusive Analysis, "se não houver unidades leais em número suficiente para controlar Hama, não haverá também em número suficiente para controlar cidades maiores, como Homs, Aleppo e Damasco". "Não acho que o Exército conte com unidades a ponto de conseguir promover uma repressão de grandes proporções contra várias cidades ao mesmo tempo", disse.

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