Marvin Recinos / AFP
Marvin Recinos / AFP

Opositores tomam as ruas de Manágua para exigir renúncia de Ortega

Polícia expulsou de uma de suas sedes carcerárias dezenas de mães que perguntavam por seus filhos, que foram detidos ou desapareceram durante protestos contra o governo

O Estado de S.Paulo

21 Julho 2018 | 18h46

MANÁGUA - Um grande protesto contra o presidente Daniel Ortega tomou neste sábado, 21, as ruas da capital da Nicarágua, apesar do pedido do líder para manter ativos "os mecanismos de autodefesa" a fim de evitar "um golpe de Estado".

Centenas de nicaraguenses iniciaram uma manifestação em uma das principais vias do leste de Manágua para exigir a renúncia de Ortega, a quem responsabilizam pela morte de centenas pessoas em manifestações contra o governo.

"Povo, una-se!", "O povo unido jamais será vencido!" e "Liberdade para os presos políticos!", estavam entre as palavras de ordem dos manifestantes. Eles também levavam cartazes com frases como "Só o povo salva o povo" e "Não eram delinquentes, eram estudantes".

Há dois dias, na celebração do 39.° aniversário da revolução da Nicarágua, o presidente insistiu para que seus seguidores defendessem o governo. Ortega pediu aos seus simpatizantes para não baixarem a guarda, “a seguir defendendo nossos direitos, as nossas decisões".

Neste sábado, horas antes de uma manifestação governista, a polícia nicaraguense expulsou de uma de suas sedes carcerárias dezenas de mães que perguntavam por seus filhos, que foram detidos ou desapareceram durante manifestações contra Ortega. As famílias deixaram a entrada da Direção de Auxílio Judicial (DAJ) da polícia, conhecida como El Chipote, para evitar um confronto com partidários do governo.

"Há alguns dias vieram nos dizer para sairmos de El Chipote (...). Ficamos com medo de que façam algo conosco, por isso viemos para cá (Catedral de Manágua)", afirmou uma mulher que não quis se identificar.

"Disseram que com as balas eles nos expulsariam (...) e para proteger as nossas vidas decidimos sair", afirmou a mulher de um oficial militar reformado que estaria detido por se recusar a fazer parte de grupos paramilitares.

Localizada em uma elevação montanhosa no centro de Manágua, a prisão de El Chipote foi mencionada como um centro de vexação e tortura por organizações de direitos humanos que solicitaram seu fechamento.

O governo nicaraguense é acusado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (Acnudh) de "assassinatos, execuções extrajudiciais, maus-tratos, possíveis atos de tortura e detenções arbitrárias cometidas contra a população majoritariamente jovem do país". As autoridades da Nicarágua negaram reiteradamente as acusações.

Os protestos contra Ortega começaram no dia 18 de abril, em razão de uma reforma da previdência que finalmente foi cancelada, e se tornaram uma campanha dos que pedem a renúncia do presidente, depois de 11 anos no poder, com acusações de abuso e corrupção.

Vice-presidente

A vice-presidente e primeira-dama da Nicarágua, Rosario Murillo, disse na sexta-feira que os opositores se mataram durante os protestos para responsabilizar o governo de Ortega. "Eles mesmos tiraram suas vidas para culpar o governo", afirmou ela em mensagem por meio de veículos de imprensa oficiais, exaltando "o trabalho pela paz da Polícia Nacional".

Rosario afirmou que, após três meses do início da crise, "a culpa por essas mortes recai sobre o golpe terrorista e criminoso na Nicarágua".

Ela observou que "o povo está indignado", no entanto, afirmou que o governo não guarda "ódio ou desejo de vingança" contra os responsáveis pela violência, que atribuiu aos "golpistas".

"Sabemos que existem instituições que farão justiça a todas as vítimas do terrorismo golpista. Sabemos que há instituições que serão capazes de reconhecer os crimes daqueles que causaram tanta dor, tanta morte, tanto sofrimento, tantos crimes aberrantes, diabólicos em nossa Nicarágua, e confiamos na justiça", afirmou Rosario. / EFE e AFP

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