Orçamento da Venezuela para 2015 só cobre gasto do país até abril, diz jornal

O orçamento do governo da Venezuela para 2015, aprovado na terça-feira pela Assembleia Nacional, de maioria chavista, ficará muito abaixo do necessário para cobrir os gastos de Caracas no ano que vem - e deverá durar somente até abril. O cálculo foi feito por especialistas consultados pelo jornal venezuelano El Nacional, de orientação crítica ao chavismo.

CARACAS, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2014 | 02h02

O orçamento aprovado, de 741,7 bilhões de bolívares (US$ 117,7 bilhões, na cotação oficial mais baixa da moeda americana na Venezuela, de 6,30 bolívares por US$ 1), elevou-se em 34,7% em relação ao montante previsto para 2014:550,6 bilhões de bolívares (US$ 87,5 bi). De acordo com o Nacional, porém, este ano, o governo venezuelano gastará 1,12 trilhão de bolívares, somando-se o orçamento a créditos adicionais do governo - e o gasto de 2015 tende a se elevar.

O jornal ressalta que, enquanto Caracas prevê um déficit fiscal equivalente a 3% do PIB, as projeções extraoficiais para os gastos que extrapolam a receita venezuelana chegam a 25%.

O economista Luis Oliveros disse ao Nacional que o fato de o preço do barril do petróleo poder se manter abaixo dos US$ 60, valor previsto pelo governo no orçamento, compromete "o financiamento via créditos adicionais" - que são alimentados pelo excedente da produção petrolífera venezuelana.

A Venezuela tem uma das maiores reservas de petróleo do mundo. É o terceiro maior exportador da commodity para os EUA e nono maior exportador do insumo no planeta. Estima-se que 96% da receita do país sul-americano venha da exportação de petróleo.

A baixa no preço do produto tem feito o barril valer pouco mais de US$ 60, em média - e a Venezuela tem tentado fazer com que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), da qual é membro, diminua a produção do insumo para tentar elevar o valor do barril por meio da diminuição da oferta. Nações do Golfo, porém, não têm mostrado interesse em aumentar o preço do petróleo, para manter seu produto competitivo com o óleo de xisto betuminoso, produzido principalmente pelos EUA.

Otimismo chavista. O orçamento de 2015 da Venezuela conta com um crescimento de 3% no PIB do país e situa sua taxa de inflação entre 25% e 30%. O Fundo Monetário Internacional (FMI), porém, prevê uma contração de 1% no ano que vem e inflação de 63,9%. Em 2014, o FMI afirma que a economia venezuelana diminuiu 3% - prevendo uma inflação de 64,3%.

O deputado Ricardo Sanguino, do governista Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), declarou no dia da aprovação do orçamento que 38% dos gastos oficiais serão destinados para programas sociais - a principal bandeira do chavismo - e educação.

Já o deputado opositor Enrique Márquez, do partido Um Novo Tempo, criticou o fato de o orçamento prever um preço de petróleo tão próximo ao negociado atualmente, diante da constante queda no valor da commodity. "Aparentemente, os altos preços do petróleo não regressarão no curto prazo, por isso, o orçamento é preocupantemente deficitário."

Escassez. O presidente da Federação Farmacêutica Venezuelana, Freddy Ceballos, afirmou ontem à Unión Radio que seu setor encerrará 2014 registrando escassez de 60% dos produtos que comercializa. Desde agosto, entidades de representação de farmacêuticos e médicos denunciam uma grave falta de medicamentos e insumos hospitalares básicos em todo o país, pedindo ao governo uma "política de emergência".

A falta dos itens é atribuída à não concessão, por parte do governo, dos dólares de que os importadores precisam para comprar as mercadorias no exterior e honrar suas dívidas com os fornecedores.

"Temos um grande Estado importador. As pessoas buscam seringas nas farmácias e nem isso conseguem. Fechamos 2014 com 60% de escassez nos produtos do setor", disse Ceballos, afirmando que a concessão de dólares ocorrida entre novembro e dezembro não conseguiu pôr fim à escassez. "O problema não é que não sejam suficientes, mas que não podemos continuar esperando que o Estado conceda as divisas quando tenha vontade." A escassez também atinge alimentos e outros itens básicos. Ontem, o presidente Nicolás Maduro anunciou 111 milhões de bolívares (US$ 17,5 milhões) para uma "revolução alimentar e produtiva nas escolas". O objetivo, inicialmente, é instalar 3 mil hortas em estabelecimentos de ensino venezuelanos. / EFE

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