Orçamento de Bush prevê déficit fiscal recorde

O presidente George W. Bush propôs hoje ao Congresso a adoção de um orçamento federal de US$ 2,23 trilhões, que destina US$ 399,1 bilhões (17,9% do total) ao Pentágono, ao novo Departamento da Segurança Interna e outros setores militares, aumenta um pouco os gastos com educação mas reduz, pela metade, a taxa de crescimento de todos os demais programas do governo. A grande novidade do orçamento de Bush é, no entanto, o rombo recorde de US$ 304 bilhões que ele abre nas contas federais, recolocando os Estados Unidos no caminho do endividamento maciço e continuado que o país começara a deixar na administração Clinton. Esse número não inclui o custo de uma provável guerra contra o Iraque, que diferentes funcionários da administração já estimaram ficar entre US$ 100 bilhões a US$ 200 bilhões.A proposta, que diz respeito apenas à administração federal, representa cerca de quatro vezes o Produto Interno Bruto do Brasil. Numa notícia de interesse para os exportadores brasileiros, o orçamento de Bush propõe ao Congresso a rejeição da emenda Byrd - do senador Robert Byrd, Democrata da Virginia Ocidental -, adotada há três anos e que prevê pagamentos anuais de US$ 230 milhões aos iniciadores de processos antidumping bem sucedidos. A emenda, que foi recentemente condenada pela Organização Mundial de Comércio, tem defensores entre democratas e republicanos.Nos cinco volumes de documentos que enviou ao Capitólio, Bush afirmou que os déficits são conseqüência "de uma recessão (iniciada nos meses finais do governo Clinton) e de uma guerra que nós não escolhemos".Segundo ele, a proposta foi montada tendo em mente "os três maiores desafios que os EUA enfrentam - ganhar a guerra contra o terrorismo, garantir a segurança do território e gerar crescimento econômico de longo prazo".Antecipando-se às críticas, o presidente procurou minimizar a importância relativa do déficit. "Comparado à dívida pública e à economia nacional de US$ 10,5 trilhões, nossa brecha orçamentária é pequena por padrões históricos", disse. A proposta de orçamento pressupõe que o PIB americano crescerá 2,9% este ano. Ela contempla, também, a aprovação de um novo projeto de lei de redução de impostos - o segundo do governo Bush - apresentado no mês passado, que elimina tributos sobre dividendos de ações. As projeções de crescimento do PIB usadas pelo Departamento de Orçamento e Gestão da Casa Branca são consideradas demasiadamente otimistas pelo consenso dos economistas. E a proposta de corte de impostos enfrenta fortes resistências entre vários senadores republicanos.Os democratas atacaram o orçamento de Bush como um plano de hipoteca financeira de gerações futuras. "Em lugar de oferecer à nação um plano de prosperidade econômica de longo prazo, o orçamento de Bush representa um fardo para nós e para nossos filhos, com trilhões de dólares de dívida nova", afirmou Kent Conrad, o principal Democrata na comissão de orçamento do Senado. "Essa proposta elevará a taxa de juros, retardará o crescimento e criará enormes problemas para a geração dos baby-boomers (os nascidos entre 1945 e 1964), que está prestes a começar a se aposentar". De fato, a proposta de Bush confirma a reversão das contas federais americanas para o vermelho. O saldo fiscal projetado de US$ 5,6 trilhões em dez anos, que Bush recebeu de herança de Clinton, foi transformado num déficit de mais de US$ 1 trilhão nos próximos cinco anos.No domingo, um grupo bipartidário de ex-ministros e ex-legisladores advertiu o país sobre as graves implicações do retorno da era dos déficits gigantes, num anúncio de página inteira publicado no ?New York Times? e outros grandes jornais americanos. "Estamos realmente reduzindo os impostos ou apenas aumentando os impostos para os nossos filhos?", perguntaram os signatários, que incluíam o ex-secretário do Tesouro, Robert Rubin, o ex-presidente do Federal Reserve Board, o banco central americano, Paul Volcker, e o ex-senador republicano de New Hampshire, Warrern Rudman.O documento lembra que o buraco real das contas públicas federais é bem mais grave do que o projetado na proposta orçamentária de Bush, quando se computam as obrigações de US$ 25 trilhões em dois dos maiores programas federais: o pagamento de pensões de aposentadoria e despesas médicas. Os autores do documento afirmaram que se o governo seguisse as normas de contabilidade usadas no setor privado, teria que fazer um provisionamento de capital de US$ 1,7 bilhão este ano para manter seus chefes fora da cadeia, e elevaria o déficit deste ano para US$ 2 trilhões, ou algo próximo ao tamanho do orçamento.

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