REUTERS/Jonathan Ernst
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Orçamento de Trump derruba gastos com meio ambiente, ciência e pobreza

Plano do presidente americano para 2018 também retira recursos de programas de ajuda internacional e indica aposta no fim do ‘soft power’ que marcou a era Obama

Claudia Trevisan, Correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

16 de março de 2017 | 23h59

Programas de ajuda internacional, o combate ao aquecimento global e iniciativas que beneficiam americanos pobres são as principais vítimas da proposta orçamentária apresentada nesta quinta-feira pelo presidente Donald Trump, que dá prioridade ao aumento de gastos militares e de segurança interna. 

“Nós não vamos mais gastar dinheiro nisso”, disse o chefe do Gabinete de Gestão e Orçamento da Casa Branca, Mick Mulvaney, em relação às mudanças climáticas. “Achamos que isso é um desperdício de dinheiro.” A principal decisão nessa área é o fim das contribuições dos EUA para o Fundo Verde para o Clima, criado pelo Acordo de Paris com o objetivo de financiar iniciativas de mitigação e adaptação de países em desenvolvimento aos efeitos do aquecimento global.

Os EUA haviam se comprometido com uma contribuição de US$ 3 bilhões, dos quais desembolsaram US$ 1 bilhão. Metade desse valor foi pago pela gestão de Barack Obama poucos dias antes da posse de Trump. Além de anunciar que não tem intenção de entregar os US$ 2 bilhões restantes, o presidente decidiu acabar com a Iniciativa de Mudança Climática, um programa de US$ 350 milhões conduzido pelo Departamento de Estado para financiar investimentos em energia renovável em outros países.

“Temos o único chefe de Estado em todo o mundo que nega o aquecimento global”, disse John Coequyt, diretor do Programa Global de Clima do Sierra Club, uma das principais entidades ambientais americanas. Ele acredita que os EUA permanecerão no Acordo de Paris, mas perderão a liderança global na área. “China, Índia, União Europeia e outros países estão se movendo rapidamente para assumir esse papel.”

Coequyt ressaltou que o projeto orçamentário precisa do aval do Congresso, onde muitos dos cortes em programas de ajuda internacional enfrentam resistência. Mas a rejeição de Trump ao Fundo Verde para o Clima é um indício de que as contribuições dos EUA serão eliminadas, avaliou.

No plano doméstico, a Agência de Proteção Ambiental (EPA) sofrerá corte de 31% de seu orçamento, a redução mais profunda entre todos os órgãos do governo. O projeto elimina contribuições para programas de geração de energia limpa, corta recursos para pesquisa e desenvolvimento, acaba com várias iniciativas de conservação ambiental e reduz em um terço o financiamento do fundo responsável pelo manejo de substâncias perigosas.

Mulvaney disse que a proposta reflete o princípio da “América em Primeiro Lugar” que embalou a campanha de Trump. Segundo ele, o projeto também mostra que a administração dará ênfase ao “hard power” da força militar em detrimento do “soft power” da assistência diplomática internacional.

Defesa. O orçamento militar terá aumento de 10% (US$ 54 bilhões), na maior expansão do investimento no setor desde o período posterior aos atentados do 11 de Setembro. Em compensação, o Departamento de Estado verá um corte de 28% de seus recursos, que atingirá principalmente os programas de ajuda internacional. 

A redução ocorre no momento em que 20 milhões de pessoas em quatro países da África e do Oriente Médio correm o risco de morrer de fome. No anúncio da proposta orçamentária, Mulvaney disse que os cortes na assistência internacional não deveriam surpreender. “Na campanha, o presidente disse centenas de vezes que gastaria menos com pessoas no exterior e mais com pessoas em casa.”

Mas programas voltados a populações mais vulneráveis nos EUA também sofrerão cortes. Trump quer eliminar a contribuição de US$ 3 bilhões para uma iniciativa que repassa recursos a cidades para ações sociais, entre as quais a alimentação de idosos. Alguns dos programas que proveem alimentação a estudantes também estão na mira do governo. Mulvaney afirmou que não há evidência de que oferecer refeições a estudantes pobres depois das aulas ajude seu rendimento escolar.

 

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