Órfã de guerra da Serra Leoa estreia como bailarina

Michaela DePrince viveu em orfanato, presenciou morte de professora e foi adotada por mulher americana.

William Kremer, BBC

22 de outubro de 2012 | 15h39

Uma bailarina de Serra Leoa fez sua estreia profissional em uma recente turnê pela África do Sul, marcando o fim de sua jornada como órfã de guerra.

Michaela DePrince nasceu no país africano em 1995. Os pais dela a batizaram com o nome de Mabinty mas, depois que os dois morreram na guerra civil de Serra Leoa, ela foi enviada a um orfanato onde era conhecida apenas como um número.

"Eles nos chamavam de um a 27. Um era a criança favorita do orfanato e 27 era a menos favorita", contou a bailarina à BBC.

Michaela era a criança número 27, pois sofre de vitiligo, um problema de saúde no qual partes da pele perdem a pigmentação. Para as "titias" que dirigiam o orfanato, a doença era prova de que um espírito do mal estava na criança.

Na época, Michaela estava com três anos de idade, mas ela ainda se lembra de como era hostilizada.

"Elas pensavam que eu era uma criança demônio. Me falavam todos os dias que eu não seria adotada, pois ninguém iria querer uma criança demônio", disse.

A única amiga de Michaela era a criança número 26, também chamada Mabinty, e que era hostilizada no orfanato pelo fato de ser canhota.

Atrocidades

Uma professora se interessou por Michaela e costumava ficar depois das aulas para ajudá-la com o dever de casa.

Ela acompanhava a criança de volta ao orfanato todas as noites até que, em uma ocasião, foram vistas por três soldados rebeldes quando se despediam.

"Dois deles estavam bêbados, o terceiro era um menino mais jovem. Minha professora estava do lado de fora do portão e eu estava dentro. Os dois soldados rebeldes chegaram e viram que ela estava grávida", disse.

Mulheres grávidas eram vítimas frequentes de atrocidades durante a guerra civil de Serra Leoa, que durou mais de uma década e terminou oficialmente em 2002. Os soldados costumavam abrir a barriga das mulheres para verificar o sexo do feto.

"Se eles encontravam um menino, eles deixavam a mulher ir embora ou matavam a mãe e salvavam a criança. Mas, quando eles abriram a barriga da minha professora, encontraram uma menina, então eles cortaram os braços e pernas dela", afirmou Michaela.

O soldado mais jovem avançou para cima dela com um facão. Ela desmaiou e foi salva quando a única amiga do orfanato alertou os responsáveis.

Revista velha

As memórias de infância de Michaela são fragmentadas e ela acredita que logo após testemunhar a morte da professora, ela encontrou algo que mudaria sua vida: uma revista velha.

"Tinha uma mulher (retratada) nela, ela estava na ponta dos pés, usando um tutu lindo, rosa. Nunca tinha visto isto, uma fantasia com muito brilho, tanta beleza. Eu via apenas a beleza naquela pessoa e a esperança e o amor e tudo o que eu não tive. Então eu pensei: 'Uau! É isto que eu quero ser'."

Ela arrancou a foto da revista e, na falta de um lugar melhor para esconder, guardou a foto em sua roupa de baixo.

Um dia, o orfanato recebeu um alerta de que seria bombardeado e as crianças foram levadas para um campo de refugiados. No campo, Michaela ficou sabendo que ela e sua amiga seriam adotadas.

Uma mulher americana chamada Elaine DePrince tinha vindo ao campo para adotar a criança número 26, que recebeu o nome de Mia.

Por um momento, Michaela pensou que todas as crianças seriam adotadas e apenas ela seria deixada no campo. Mas, quando as responsáveis pelo orfanato disseram que Michaela provavelmente não seria adotada, Elaine resolveu adotá-la também.

Obssessão

Michaela se lembra de tentar entender o que estava acontecendo, do fascínio com o cabelo loiro da mulher americana mas também se lembra de olhar para os pés das pessoas em Nova Jersey, onde foi morar.

"Eu olhava para os pés das pessoas pois pensava; 'Todo mundo precisa ter sapatilhas de ponta, de balé, eles precisam ter estes sapatos pois são pessoas dos Estados Unidos!'."

Michaela não encontrou nenhuma sapatilha de balé com Elaine, mas a americana notou a obssessão da menina com o balé.

"Encontramos um vídeo do 'Quebra Nozes' e eu assisti umas 150 vezes", afirmou Michaela.

Quando elas finalmente foram assistir à apresentação ao vivo, ela conseguiu indicar para a mãe os momentos em que os bailarinos tinham errado os passos.

Elaine matriculou a menina de cinco anos em uma escola de dança na Filadélfia, fazendo diariamente a viagem de 45 minutos de Nova Jersey até a escola.

Timidez e desafio

No entanto, Michaela continuava tímida, devido ao vitiligo e até se cobria com blusas para esconder o problema.

Ao perguntar para a professora se o vitiligo iria prejudicar a carreira, Michaela teve uma boa surpresa. A professora não tinha notado o vitiligo, pois apenas prestava atenção aos passos da aluna.

Mas, mesmo nos Estados Unidos, ser uma bailarina negra ainda é problemático pois, entre as bailarinas que não são solistas, as meninas geralmente são parecidas.

"É um desafio. Se você olhar as companhias (de balé), você não vai ver meninas negras. Você pode ver uma menina mestiça, mas há apenas um ou dois solistas negros nos Estados Unidos."

Mas, agora com 17 anos, Michaela completou recentemente uma turnê com a companhia Dance Theatre do Harlem, onde muitos dos bailarinos são afro-americanos ou mestiços.

"Saí de um lugar terrível. Não fazia ideia de que eu estaria aqui, estou vivendo meu sonho a cada dia", disse. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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