Órfãos do 11 de setembro precisam de tratamento de longo prazo

As crianças que ficaram órfãs após os ataques de 11 de Setembro "se tornam o foco das atenções" quando o assunto é um tratamento de longo prazo, segundo psicólogos clínicos responsáveis por cuidar dessas crianças na véspera do terceiro aniversário dos atentados. "Até recentemente, por exemplo, ninguém sabia exatamente quantas crianças perderam um dos pais nos ataques", disse Claude Chemtob, do programa de recuperação pós-traumas na Escola de Medicina Mount Sinai, em Nova York.Seu departamento calculou que cerca de 2.990 crianças de até 18 anos perderam um dos pais. Quase cem delas são bebês que nasceram de mães grávidas após os pais terem morrido nos ataques ao World Trade Center, em 2001."É extremamente importante observar cada criança, e cada família, e avaliar como está a recuperação de todos eles no momento. Só então teremos certeza de que cada um está recebendo o tratamento que precisa", disse Chemtob.IndenizaçãoMuitas famílias das vítimas do 11 de Setembro receberam centenas de milhares de dólares, e US$ 3 bilhões foram arrecadados internacionalmente para elas. Três anos depois, praticamente toda essa quantia já foi usada. "Essas famílias receberam bastante coisa", disse Chemtob. "Mas elas também sofreram muito. De certa forma, elas são vistas como vítimas civis de uma guerra, quase como veteranos."Em entrevista à imprensa para ressaltar os objetivos de um tratamento de longo prazo, viúvas se juntaram a psicólogos e a outros voluntários do Centro Familiar do World Trade Center, em Long Island, para mostrar um painel de pinturas que faz parte do programa de terapia dessas crianças.Descrito como um "porto seguro", o Centro Familiar trabalha com 400 famílias afetadas pelos ataques de 11 de Setembro. Dois terços dos bombeiros que morreram no dia moravam na vizinhança do Centro.TelevisãoSegundo Margie Miller, de 54 anos, cujo marido estava em uma das torres do World Trade Center, as mortes em Nova York aconteceram em frente às câmeras do mundo todo, e o incidente continua sendo assunto no dia-a-dia das pessoas."Morrer ao vivo na televisão não é normal. E ver as imagens todos os dias por três anos também não. Não há um dia em que você não ouça falar disso, ou veja as cenas. Por outro lado, não queremos que as pessoas esqueçam o que aconteceu. Mas isso machuca muito."Allison Hobbs, outra viúva cuja filha participou da pintura do painel, concorda com Miller. Para ela, a lembrança do acidente durante a Convenção Republicana foi difícil de enfrentar. "Eu estava assistindo com a minha filha, e o fato foi relembrado tantas vezes. Eu não me ofendi pelo fato de eles terem tratado do assunto, mas poderiam ter mostrado menos imagens."Ela defende que fundos federais de longo prazo deveriam existir para manter o funcionamento de centros como o Centro Familiar de Long Island. "Meus filhos são a coisa mais importante na minha vida", diz Hobbs. "Eu preciso saber que existe alguém para me ajudar e me guiar. Eu não sei se estou tomando a atitude certa, e o que eles sentem hoje é diferente do que sentiam há dois anos e do que vão sentir daqui a dois anos."AdultosNa comemoração oficial no Ground Zero, neste sábado, haverá uma ênfase nos adultos que ficaram "órfãos", diferente do evento de 2003, quando o centro foram as crianças, que inclusive leram os nomes dos mortos. "Eu acho que é bom. Eu vejo minha sogra, e meus pais que perderam o genro, e também é difícil para eles. Crianças e mulheres recebem muita atenção", diz Hobbs."Mesmo depois de três anos, parece que isso nunca vai acabar. Ainda existem funerais, ainda é necessário decidir o que fazer. E isso vai continuar no futuro", diz Miller. "No primeiro ano as pessoas estavam em transe, não conseguiam acreditar no que aconteceu. No segundo ano, a dor foi o mais forte, e agora é a realidade se estabelecendo. É isso o que está acontecendo na minha vida", acrescentou ela.

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