Organismo da ONU acusa Venezuela de fazer mais de 3 mil prisões políticas

Mensagem dura. Novo responsável pelo Alto-Comissariado das Nações Unidas para Direitos Humanos, o príncipe jordaniano Zeid Ra'ad al-Hussein, firma comunicado exigindo 'libertação imediata' de detidos, como a de um dos líderes opositores, Leopoldo López

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2014 | 02h00

O Alto-Comissariado da ONU para Direitos Humanos acusou o governo da Venezuela de prender pelo menos 3,3 mil pessoas desde o início dos protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro, em fevereiro, e pediu a libertação de pelo menos 69 cidadãos presos "de forma arbitrária", entre eles o líder de oposição Leopoldo López.

Em um comunicado emitido contra o governo do país sul-americano, o novo alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, o príncipe jordaniano Zeid Ra'ad al-Hussein, expressou sua "extrema preocupação" diante da manutenção na prisão de López, "assim como a de dezenas de pessoas presas durante as manifestações públicas que aconteceram durante vários meses na Venezuela".

"A detenção prolongada e arbitrária de opositores políticos e manifestantes está causando cada vez mais preocupação internacional", alertou. "Essa situação apenas exacerba a tensão no país", disse.

Hussein acabou de assumir o cargo na ONU - tomou posse em setembro - e, segundo apurou o Estado, decidiu mandar um recado "inequívoco" a Maduro e à região.

A decisão ocorreu também depois que seus conselheiros sentiram que a América do Sul havia optado por abafar o assunto, na esperança de tirar a polêmica dos radares.

Em fevereiro, no auge dos protestos, a presidente Dilma Rousseff declarou na Europa que "não cabe ao Brasil discutir a história da Venezuela, nem o que ela deve fazer, pois iria contra o que defendemos em termos de política externa".

"É muito importante que se olhe sempre a Venezuela do ponto de vista dos efetivos ganhos que eles tiveram nesse processo em termos de educação e saúde para o seu povo", afirmou Dilma.

Na sexta-feira passada, porém, a ONU decidiu tomar uma posição. Hussein se reuniu pela primeira vez com Lilian Tintori, mulher de López. No encontro, ele "deplorou" as intimidações e ataques e pediu que os defensores de direitos humanos sejam autorizados a continuar seu trabalho "sem temer por sua segurança".

Segundo o comunicado de ontem, a ONU recebeu informações de que "mais de 3,3 mil pessoas, incluindo menores de idade, foram detidas por períodos breves entre fevereiro e junho".

"Assim mesmo, mais de 150 casos de maus-tratos, entre eles vários de tortura, foram registrados", alertou.

Segundo a ONU, pelo menos 43 pessoas morreram durante os protestos, entre eles 1 promotor e 9 integrantes das forças de segurança. "Jornalistas e defensores de direitos humanos também denunciaram ameaças, ataques e intimidação", constatou a ONU.

Em setembro, a ONU declarou que as prisões de Leopoldo López e de Daniel Ceballos - ex-prefeito de San Cristóbal - foram arbitrárias.

"Conclamo as autoridades venezuelanas a libertar imediatamente López e Ceballos, além de todos aqueles detidos por exercer seu legítimo direito a expressar-se e protestar pacificamente", apelou Zeid.

"Também peço às autoridades que assegurem o devido processo em todos os casos na Justiça, em conformidade com os padrões internacionais", pediu o representante da ONU.

Segundo o governo venezuelano, López - ex-prefeito de Chacao - foi o responsável pela violência registrada nas manifestações contra Maduro. Ele é apontado também como articulador do movimento "A Saída", que exigia a retirada do presidente do poder e é considerado golpista pelo governo.

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