AP Photo/Damian Dovarganes
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Organização conservadora cancela convite a Trump por ofensas a jornalista

Na noite de sexta-feira, durante entrevista à CNN, Trump fez ataques a Megyn Kelly, que durante o debate entre os pré-candidatos republicanos havia questionado o empresário sobre seu histórico de atitudes misóginas

O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 16h01

WASHINGTON - Donald Trump, um dos pré-candidatos do Partido Republicano para a eleição presidencial dos EUA em 2016, teve cancelado, neste sábado, 8, o convite para participar de um evento político de uma organização conservadora depois de fazer comentários ofensivos à jornalista Megyn Kelly, uma das moderadoras do debate promovido pela Fox News na quinta-feira.

O influente blogueiro conservador Erick Erickson, organizador do RedState Gathering, cancelou formalmente o convite para que Trump participasse do evento anual. "Embora eu goste pessoalmente de Donald Trump, seus comentários sobre Megyn Kelly na CNN foram demais para mim", diz o comunicado divulgado por Erickson.

Na noite de sexta-feira, durante entrevista à CNN, Trump fez ataques a Kelly, que durante o debate entre os pré-candidatos republicanos, na quinta-feira, havia questionado o empresário sobre seu histórico de atitudes misóginas. Ele afirmou que "você podia ver que havia sangue saindo dos olhos dela. Sangue saindo de sua ... qualquer lugar".

O comentário provocou um debate frenético no Twitter sobre o que ele queria dizer ao falar em "qualquer lugar"; muitos especularam que Trump estaria se referindo à menstruação. "Acho que não há outra maneira de interpretar a declaração do sr. Trump. Em uma tentativa de esclarecimento, a equipe do sr. Trump me disse que ele queria dizer ''qualquer coisa'', e não ''qualquer lugar''", escreveu Erickson.

O cancelamento do convite para que Trump participasse do evento deste sábado é a primeira tentativa de republicanos influentes para adotar uma atitude de censura a ele.

Também no Twitter, Carly Fiorina, a ex-executiva-chefe da Hewlett-Packard que é a única mulher entre os 17 pré-candidatos republicanos, criticou a misoginia de Trump. "Estou do lado de Megyn Kelly", escreveu Fiorina; em seguida, ela postou "Mr. Trump. Não. Há. Desculpas."

Outros dois pré-candidatos republicanos, o senador Lindsay Graham (Carolina do Sul) e o governador do Wisconsin, Scott Walker, também emitiram comunicados e publicaram textos no Twitter em apoio a Kelly. Graham escreveu que "estamos em uma encruzilhada com o sr. Trump. Como partido, é melhor arriscar perder sem Donald Trump do que tentar vencer com ele".

Na abertura do RedState Gathering, Erickson recebeu muitos aplausos e algumas vaias ao anunciar o cancelamento do convite a Trump. "Dei muita latitude a Donald Trump porque ele não é um político profissional. Entrei em contato com a campanha de Donald Trump ontem à noite e perguntei se o sr. Trump estaria disposto a pedir desculpas ou a esclarecer que não estava sugerindo que uma repórter nacional que lhe fez uma pergunta dura estava menstruada", disse Erickson.

Uma porta-voz da campanha de Trump atacou Erickson por sua decisão. "Este é mais um exemplo de debilidade por meio do ''politicamente correto''. Para todas as pessoas que queriam ver o sr. Trump, nós lamentamos. A culpa é de Erick Erickson, seu líder fraco e patético", disse a porta-voz.

No Twitter, Trump disse que estava se referindo a um sangramento do nariz de Megyn Kelly e que "apenas um depravado pensaria outra coisa". Ele afirmou que havia 900 pessoas esperando encontrá-lo no RedState Gathering e acusou Erickson de ser politicamente correto. "Não apenas Erick é um perdedor total, ele tem um histórico de apoiar perdedores do establishment em campanhas derrotadas. Portanto, é uma honra ser desconvidado desse evento", diz uma mensagem.

Até agora, Kelly não se manifestou sobre a controvérsia. Segundo uma porta-voz da Fox News, a jornalista deve aparecer no programa MediaBuzz na manhã deste domingo, mas o programa foi gravado antes das declarações ofensivas de Trump.

O caso é apenas mais um em uma longa série de declarações inflamatórias feitas por Trump desde que ele lançou sua candidatura à presidência, em meados de junho. Ao começar o debate da quinta-feira, ele liderava as pesquisas de intenção de voto entre eleitores republicanos, apesar de suas declarações ofensivas sobre imigrantes mexicanos, sobre seus concorrentes no partido e também sobre o histórico militar do candidato republicano de 2008, o senador John McCain (Arizona), que havia passado seis anos como prisioneiro de guerra durante o conflito do Vietnã.

Aquelas declarações aparentemente não provocaram preocupação entre a maioria dos republicanos, já que ele se manteve na liderança das pesquisas. Mas ele enfureceu muitos republicanos durante o debate de quinta-feira, ao dizer que se reserva o direito de não apoiar o candidato do partido, caso não seja ele mesmo, e ao defender doações anteriores que fez no passado à principal pré-candidata do Partido Democrata, a ex-secretária de Estado e ex-primeira-dama Hillary Clinton. Hillary é a favorita entre os pré-candidatos democratas. 

Para o ex-governador do Texas Rick Perry (republicano), "Donald Trump provou mais uma vez que não tem temperamento para chegar ao posto mais elevado da nação. Atacar veteranos, hispânicos e mulheres demonstra falta de decência e uma falha de caráter séria, e suas declarações nos distraem dos assuntos sérios que nosso país enfrenta", disse Perry.

O diálogo entre Trump e Kelly durante o debate de quinta-feira já havia provocado muitas discussões nas redes sociais. Kelly perguntou a Trump sobre as declarações ofensivas que ele havia feito anteriormente sobre mulheres de quem não gostava, entre elas uma ocasião em que ele chamou uma mulher de "porca gorda". Trump respondeu: "Eu tenho sido muito gentil com você, mas eu provavelmente poderia não ser, com base na maneira como você me tratou."

Na entrevista de sexta-feira à CNN, Trump disse que Kelly é uma jornalista "peso leve" e criticou a âncora da emissora por ter audiência menor do que sua colega e concorrente da Fox. "Você deveria se envergonhar", acrescentou. / DOW JONES NEWSWIRES 


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