Organização da Nigéria adota 'estilo' taleban

O Boko Haram, que defende a instalação de um regime islâmico no país, tem lançado série de atentados bem organizados após a morte de seu fundador

ADRIANA CARRANCA, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2011 | 03h03

O grupo radical islâmico Boko Haram, da Nigéria, tornou-se foco das agências internacionais de contraterrorismo após uma série de atentados quase simultâneos, com 150 mortos, há uma semana, no norte do país. O temor é que os rebeldes estejam sendo financiados pela Al-Qaeda.

A TV Al-Arabiya informou ontem que o governo da Argélia tem informações de inteligência vinculando o Boko Haram à Al-Qaeda do Magreb Islâmico. "Embora a ligação do Boko Haram com a Al-Qaeda não seja clara, o grupo trouxe para a Nigéria o 'estilo' da organização árabe, como assimilado pelo Taleban. Ataques suicidas eram antes desconhecidos aqui", diz o jornalista nigeriano Godwin Nanna, que investiga a organização. "Os rebeldes do Delta do Níger (que lutavam pela emancipação da região e contra empresas estrangeiras de petróleo no país) nunca usaram esse tipo de atentado."

Outra suspeita é que os militantes sejam financiados pela elite política do norte, região muçulmana, onde pelos menos 12 Estados - dos 36 em que a Nigéria se divide - adotaram a lei islâmica. Seus líderes dominaram a política nas mais de três décadas da ditadura que sucedeu à independência em 1960. Mas, desde que o país voltou a ser uma democracia, em 1999, só estiveram no poder por 2 dos 12 anos sob domínio de cristãos do sul.

A eleição do presidente Goodluck Jonathan, que assumira o poder um ano antes após a morte de seu antecessor, Umaru Yar'Adua, provocou protestos que deixaram 800 mortos em três dias de confronto com a polícia - pesquisas de boca de urna davam vitória ao candidato muçulmano, do norte, Muhammadu Buhari.

Desde então, foram registrados mais de 70 atentados terroristas atribuídos ao Boko Haram - em agosto, o grupo assumiu a autoria do atentado contra a sede da ONU, em Abuja, que deixou 24 mortos. O que impressionou nos atentados da semana passada foi a capacidade da organização, até há pouco desconhecida, de articular ações contra alvos em diferentes cidades.

O grupo defende a instalação de um regime islâmico e o ensino religioso nas escolas - Boko Haram significa "educação ocidental é pecado" no idioma hausa. Desde 2000, os rebeldes aterrorizam comunidades cristãs, mas só se tornaram um problema nacional após a morte do seu fundador e líder espiritual, Mohammad Yusuf, em uma ação da polícia nigeriana contra a base do grupo em Borno, em 2009.

A última guerra civil (1967- 1970) deixou entre 500 mil e 2 milhões de mortos. O país é o maior produtor de petróleo da África e um dos 15 do mundo, mas se estima que apenas 1% dos lucros da exploração, controlada pelo governo, chegue à população. Ao menos 92% dos nigerianos vivem com menos de US$ 2 por dia. E é na miséria que redes terroristas recrutam militantes. "Cada vez mais jovens analfabetos e desempregados encontram refúgio na organização", ressalta Nanna.

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