LM Otero/AP
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Organização de escoteiros apresenta pedido de falência após processos por abuso sexual

Com 110 anos de história e 2,2 milhões de integrantes com idades entre 5 e 21 anos, entidade foi acusada de acobertar abusos contra milhares de jovens por gerações e de não ter feito o suficiente para expulsar os pedófilos da organização

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2020 | 16h50

WILMINGTON, EUA - O grupo Boys Scouts of America (BSA), principal movimento de escoteiros dos Estados Unidos, apresentou um pedido de falência nesta terça-feira, 18, em um esforço para salvaguardar as indenizações às vítimas de abuso sexual, afirma um comunicado.

O procedimento de falência ajudará a "compensar de forma equitativa" as vítimas por meio da criação de um "fundo de compensação" e permitirá que a organização continue operando, indica o texto.

"A BSA se preocupa profundamente com todas as vítimas de abuso e pede sinceras desculpas a qualquer pessoa que tenha sido prejudicada durante sua permanência entre os escoteiros", afirmou o presidente-executivo Roger Mosby no comunicado.

Com 110 anos de história e 2,2 milhões de integrantes com idades entre 5 e 21 anos, a BSA foi acusada de acobertar abusos contra milhares de jovens durante gerações e de não ter feito o suficiente para expulsar os pedófilos da organização.

A organização foi abalada pelas centenas de queixas depois que vários Estados, incluindo Nova York, retiraram obstáculos legais que impediam as pessoas de abrir processos em reação a alegações antigas de abuso sexual.

As alterações na lei coincidiram com o movimento #MeToo e uma mudança na opinião pública, que passou a apoiar mais os acusadores. O resultado foi uma onda de ações civis contra líderes da Igreja, médicos e escolas, além dos Escoteiros.

Mais de 7 mil abusadores dentro da organização

Mais de 12 mil integrantes foram vítimas de abuso na entidade desde 1944, afirmou no ano passado o advogado Jeff Anderson, que citou mais de 7,8 mil abusadores dentro da organização.

A existência dos dados figura no que foi chamado de "arquivos da perversão", revelados pela primeira vez em um processo judicial de 2012.

Além disso, a organização admitiu que sua resposta aos escândalo foi "claramente insuficiente, inapropriada ou equivocada". Também indicou ter iniciado uma revisão de seus procedimentos para proteger os integrantes.

"A BSA tem hoje algumas das políticas mais sólidas de proteção aos jovens, com a assessoria de especialistas que podem ser encontrados em qualquer organização que serve aos jovens, incluindo uma capacitação obrigatória de proteção à juventude e a verificação de antecedentes para todos os voluntários e funcionários", afirma a organização no comunicado.

A organização calcula passivos de até US$ 1 bilhão, de acordo com documentos apresentados ao tribunal nesta terça-feira. 

O Conselho Nacional da BSA e os conselhos locais afiliados têm ativos que alcançam US$ 5 bilhões, incluindo imóveis, de acordo com uma reportagem do Wall Street Journal publicada no mês passado.

Os conselhos locais possuem quase dois terços dos ativos da organização, que, segundo o WSJ, poderiam ser protegidos dos credores durante o processo de falência, limitando sua exposição às ações de abuso sexual. 

O plano de falência foi discutido pela primeira vez em 2018, segundo o WSJ, em consequências dos problemas causados pela diminuição do número de membros e o aumento dos custos.

Abused in Scouting, uma rede de escritórios de advocacia que representa as vítimas, considerou que a declaração de falência poderia significar o fim do grupo BSA./AFP e Reuters 

 

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