AFP PHOTO / INTI OCON
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Onda de protestos na Nicarágua deixa mais de 20 mortos, incluindo um jornalista

Manifestantes protestam contra a reforma da previdência social; Ángel Gahona foi baleado enquanto cobria as marchas; EUA e União Europeia condenam a violência no país

O Estado de S.Paulo

22 Abril 2018 | 03h01
Atualizado 22 Abril 2018 | 17h36

MANÁGUA - Ao menos 24 pessoas, além de um jornalista, morreram na onda de protestos que agita a Nicarágua e coloca o presidente, Daniel Ortega, contra a parede, informaram neste domingo, 22, organismos de direitos humanos do país. Os manifestantes protestam contra a reforma da previdência social.

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O jornalista nicaraguense morreu no sábado com um tiro no litoral do país enquanto transmitia ao vivo os protestos contra o governo, segundo o jornal El Meridiano, para o qual a vítima trabalhava. Ele foi identificado como Ángel Gahona, da cidade de Bluefields, Região Autônoma Caribe Sul (RACS).

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No vídeo, pode-se ver Gahona narrando os acontecimentos enquanto caminha por trás de um grupo de agentes antidistúrbios, quando repentinamente ouve-se um disparo, a voz do jornalista desaparece, a imagem torna-se difusa e ouve-se gritos.

O Centro Nicaraguense de Direitos Humanos (Cenidh) divulgou um relatório com nome e sobrenome dos 24 mortos, e afirmou que o enviará a organismos internacionais de direitos humanos. "Nossas contas indicam que já passam de 20 mortos, mas estamos verificando porque há muita desinformação. A situação é verdadeiramente grave e excede nossas possibilidades de confirmar", disse a presidente do Cenidh, Vilma Núñez. 

Entre as vítimas, há estudantes que iniciaram o movimento, agentes de polícia e jovens simpatizantes da governante Frente Sandinista, acusados de atacar os manifestantes. A agência de notícias France-Presse consultou a polícia e o governo para confirmar o balanço de mortos, mas não obteve resposta.

Até sexta-feira, o governo reconhecia dez vítimas, entre eles um agente policial, 88 feridos (29 policiais), além de vários danos materiais em diversas cidades do país, e afirmou que não havia detidos.

Ortega culpou "pequenos grupos da oposição", cujo nome não especificou, de serem os causadores das revoltas. Em uma tentativa de controlar a tensão, o presidente pediu no sábado para dialogar com o setor privado para abordar a reforma do sistema, que aumenta as contribuições dos trabalhadores e dos empregadores para garantir a estabilidade financeira do Instituto Nacional de Previdência Social (INSS, na sigla em espanhol) da Nicarágua, que paga as aposentadorias.

No entanto, sua mensagem provocou revolta entre outros setores que se uniram espontaneamente aos protestos por se sentirem excluídos, piorando ainda mais os ânimos.

O autodenominado movimento OcupaINSS, um dos que iniciou os protestos, queixou-se que o diálogo "deveria incluir as vozes de todos os setores que pediram uma discussão ampla e inclusiva (...) sobre a forma autoritária e sem consultas com a qual as decisões vêm sendo tomadas". 

O grêmio empresarial também respondeu a Ortega que "não pode haver diálogo" se o governo "não interromper imediatamente a repressão policial" e respeitar a liberdade de manifestação e de imprensa.

Em meio ao clima tenso, a população lotou supermercados e lojas em busca de mantimentos. Foram registrados neste domingo roubos a diversos estabelecimentos comerciais. "Com essa greve é capaz que fiquemos sem nada para comer", alertou Inés Espinoza, carregando garrafas de água, enquanto seus filhos a seguiam com sacolas de comidas em Manágua. 

Os postos de gasolina tinham longas filas de carros e motos em busca de combustível, em meio a temores de desabastecimento. Na capital, as ruas estavam cheias de escombros deixados por manifestantes, enquanto vários se dirigiam à Universidade Politécnica, epicentro dos protestos, onde centenas de estudantes estão entrincheirados. 

Reações

O papa Francisco pediu o fim da violência na Nicarágua. "Estou muito preocupado com tudo o que está acontecendo nesses dias na Nicarágua. Expresso minha proximidade com a oração por este país amado e me uno aos bispos para pedir o fim de toda a violência, evitando um derramamento de sangue inútil, e que as questões abertas se resolvam pacificamente e com senso de responsabilidade", disse ele, após uma oração na praça de São Pedro do Vaticano nesta manhã.

O Departamento de Estado americano condenou as mortes no país e pediu para as autoridades julgarem os responsáveis. "Condenamos a violência e a força excessiva usada pela polícia e outros contra civis, que exercem seu direito constitucional de liberdade de expressão e reunião", afirma a nota.  

A União Europeia (UE) qualificou a violência como "inaceitável" e questionou os ataques à liberdade de expressão e de imprensa, com o bloqueio de veículos de comunicação e as agressões a jornalistas. "A UE está pronta para apoiar um diálogo amplo e inclusivo entre todos os setores da sociedade e o governo, e a fortalecer o império da lei na Nicarágua", segundo a declaração europeia. 

Líderes políticos acreditam que os protestos vão além do descontentamento com as reformas do sistema previdenciário e apontam para a necessidade de uma mudança na direção do país. "Aqui não há outra saída que não seja fazer eleições livres, transparentes (...) para evitar que haja um custo maior à população", disse a presidente do opositor Frente Ampla pela Democracia (FAD), Violeta Granera, cujo movimento foi excluído das eleições de 2016, quando Ortega foi reeleito.

A jornalista Cristiana Chamorro, ex-diretora do jornal La Prensa, considerou que o presidente tem apenas duas opções: sair pela via eleitoral, como em 1990, ou "ensanguentado", como o ex-ditador Anastasio Somoza, deposto em 1990 pela Revolução Sandinista. / AFP e EFE

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