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Oriente Médio agitado

No dia seguinte à assinatura do acordo, depois de 12 anos de negociações a respeito do programa nuclear iraniano, um único país esbravejou. Com a voz inflamada de Binyamin Netanyahu, Israel explicou que Barack Obama, os europeus e a Rússia cometeram uma grande besteira, até mesmo "um erro histórico". O que não surpreende. Israel tem o mérito da constância. Nesse acordo, o país sempre viu uma "poção venenosa".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2015 | 02h04

Ao contrário, os países árabes do Golfo mostraram-se prudentes. Os emirados do Golfo e o Kuwait felicitaram o Irã. A Arábia Saudita - milagre! - também se alegrou. Inútil dizer que essas mensagens não significam nada. A Arábia Saudita espuma de raiva. Teme o pior. Nada mais lógico. Iranianos e sauditas são as duas grandes potências inimigas no Oriente Médio. A Arábia Saudita é um país preponderantemente sunita, enquanto o Irã é xiita.

Há mil anos, e principalmente há dez anos, toda a geopolítica da região se organiza ao redor da rivalidade e mesmo do ódio mortal entre xiitas e sunitas. Há alguns anos, depois que o Irã, em consequência dos delírios do aiatolá Khomeini, se colocou numa espécie de ostracismo em relação à esfera ocidental, a Arábia Saudita tornou-se a única grande potência do Oriente Médio. Isso ocorreu principalmente pelo fato de o país ser respaldado com unhas e dentes pelos Estados Unidos em razão de um velho acordo entre Franklin Roosevelt e os príncipes sauditas, no fim da 2.ª Guerra. E também em razão do petróleo.

É claro que o Ocidente sabia muito bem que a Arábia Saudita financiava secretamente o terrorismo salafista árabe, mas os governos ocidentais tinham descoberto também uma maneira de se defender contra esse perigo. O Ocidente, e principalmente os EUA, fechavam energicamente os olhos. Portanto, desde ontem, Riad talvez deva temer, com razão, que o equilíbrio da região seja alterado em favor dos xiitas.

Eles reencontram seu líder, o Irã, que conferirá coesão ao arco xiita que se estende do Mediterrâneo (do Líbano) até o Golfo Pérsico (Iraque). Pode-se imaginar que Washington, graças à lua de mel com o Irã, reduza as pressões contra a ajuda econômica de Teerã às milícias xiitas que combatem o Estado Islâmico no Iraque.

Os americanos provavelmente também atenuarão suas críticas ao apoio de Teerã ao presidente sírio, Bashar Assad. E a seu aliado, o Hezbollah libanês. O acordo de Viena, embora necessário e importante em termos globais, comporta alguns graves riscos.

Os membros do Hezbollah libanês, e Israel tem uma longa experiência nisso, não são cordeiros. Outro temor: na Faixa de Gaza, os extremistas do Hamas estão no poder e também são protegidos pelo Irã.

Washington, evidentemente, está a par dessas chamas que o acordo ameaça reavivar, de uma extremidade à outra da região. Por isso, os EUA tomam o cuidado de tranquilizar a Arábia Saudita e os países do Golfo Pérsico, que continuarão sendo armados pelos americanos, particularmente o Iêmen, que luta contra o avanço das milícias houthis, também xiitas apoiadas pelo Irã.

Moscou cumpriu seu papel no acordo de Viena. Vladimir Putin se congratulou. Konstantin Kosachev, o presidente do Comitê de Assuntos Internacionais da Federação Russa, gostaria que o Irã, finalmente livre das sanções, passasse a fazer parte dos projetos euro-asiáticos de Moscou. Ele chega até a dizer que o Irã deveria integrar o grupo Brics, ao lado de Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul.

Putin espera, além disso, que seu bom comportamento melhore sua imagem no concerto das nações. Para o Kremlin, o desafio vale a pena e compensa em ganhos diplomáticos os danos que o crescimento da indústria do petróleo no Irã pode acarretar para as companhias de gás e petróleo da Rússia. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É CORRESPONDENTE EM PARIS

GILLES

LAPOUGE

 

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