Oriente Médio atravanca debates na Conferência

A questão do Oriente Médio está emperrando as negociações na Conferência Mundial contra o Racismo, porque se chega a um impasse, em todos os grupos, cada vez que a palavra palestino aparece no texto. Sob forte pressão dos países árabes, o Estado de Israel sofre insistente bombardeio no plenário, onde seu governo é acusado de promover extermínios nos territórios ocupados. "Israel sofreu o Holocausto durante a Segunda Guerra e agora a Palestina também está sofrendo, com execuções, confisco de terras e toque de recolher", acusou o representante do Líbano, Zouheir Hamdan, apoiando o discurso do delegado da Organização da Conferência Islâmica, Abdelouahed Belkeziz, que classificou a política do governo israelense como genocídio institucionalizado.Embora as normas estabelecidas para os debates proíbam a citação de nomes de países envolvidos em denúncias de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância, a questão palestina acaba sempre levando a referências a Israel. "A ação de Israel contra os palestinos compara-se ao apartheid que discriminava a população negra neste país (África do Sul)", disse o representante de Belize, Assad Shoman.ProtestoEnquanto os ataques se repetiam no plenário, um grupo de rabinos ortodoxos norte-americanos, da organização Neturei Karta International, levantava cartazes contra Israel em frente à sala de imprensa do Centro de Convenções de Durban. "Somos anti-sionistas e estamos aqui para deixar claro que Israel não representa os judeus", disse o rabino Yisroel Dovid Weiss, um dos participantes. "Essa é uma manifestação marginal de rabinos, que nem são rabinos, porque nenhum rabino pode questionar o Holocausto", reagiu o rabino Henry Sobel, presidente do Rabinato da Congregação Israelita Paulista, ao chegar à sede da Conferência contra o Racismo como delegado do Brasil.Para Sobel, não existem holocaustos no plural, mas um único Holocausto, com H maiúsculo, que foi o genocídio de seis milhões de judeus sob o regime nazista. Sobel desembarcou em Durban com um recado do presidente Fernando Henrique Cardoso para a delegação: "O presidente me mandou dizer em nome dele que sionismo não é racismo". Nada a acrescentar, pois já era essa a posição que os negociadores brasileiros vinham defendendo.Ontem de manhã, o Brasil insistiu também que Holocausto se escreve com inicial maiúscula, porque a expressão refere-se a um fato concreto. Outras pendências que dificultam as negociações relacionam-se com a lista de vítimas de discriminação e com as reparações devidas aos herdeiros daqueles que foram discriminados. É consenso que a lista de vítimas deva incluir povos indígenas, ciganos e deficientes mentais, mas há resistência quando se fala de homossexuais.RetrataçãoTentando aparentemente vencer essa barreira, a delegada da Suécia, Mona Sahlin, informou que seu país aprovou em fevereiro um plano nacional contra o racismo e a homofobia. "O racismo e a discriminação tomam formas cada vez mais agressivas na Suécia, especialmente em relação aos imigrantes, ciganos e homossexuais", lamentou a ministra. Há muita discussão também sobre o tipo de compensações ou reparações que, nisso quase todos estão de acordo, as vítimas de discriminação devem receber.Os representantes da Alemanha, da Itália e do Japão, os países do Eixo na Segunda Guerra, afirmaram que seus governos estão dispostos a lutar contra o racismo e a fazer o possível para que não se repita "o desastre" de 50 anos atrás. "Nós, alemães, estamos consternados e sentimos vergonha ao ver que a violência e o ódio contra os estrangeiros estejam crescendo de novo em nosso país", afirmou no plenário o ministro do Exterior da Alemanha, Joschka Fischer. "O crime mais odioso do século 20 foi cometido em meu país, com o genocídio de seis milhões de judeus e ciganos", afirmou Fischer, acrescentando que "a memória desse ato e a responsabilidade dele decorrente marcarão para sempre a política alemã".NegrosO movimento negro brasileiro, cujos militantes compareceram em massa à Conferência Mundial contra o Racismo, demonstram interesse especial na discussão sobre as reparações. "Não se fala em dinheiro, mas em compensação para os descendentes de escravos que até hoje sofrem as conseqüências da escravidão", adverte o professor Hélio Santos, das Universidades Santana e São Marcos, em São Paulo. Santos defende oportunidades para a população negra, com a adoção de uma política "focalista" que ataque pontos críticos, como o acesso à universidade e ao emprego."Não sou a favor do sistema de cotas para a universidade, pois essa é uma proposta antipática e injusta até com os negros", disse o professor, dando como exemplo a Bahia. "Como estabelecer cota de 10% para os baianos negros, que são maioria em seu Estado?". Ele sugere a criação de curso preparatório ao vestibular para os alunos vindos de escolas públicas.

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