Oriente Médio condena "cruzada" dos EUA

Clérigos e fiéis em muitas mesquitas do Oriente Médio denunciaram hoje a declarada guerra dos Estados Unidos ao terrorismo como uma nova cruzada contra o Islã. O Iraque convocou em resposta uma nova jihad, ou guerra santa, contra os norte-americanos.Com as forças dos Estados Unidos sendo reforçadas no Golfo Pérsico para esperados ataques contra supostas bases terroristas, muçulmanos reuniram-se hoje para as orações de sexta-feira preocupados com a amplitude da campanha militar dos EUA que eles se sentem impotentes para parar.Na Arábia Saudita, um destacado aliado dos EUA na região e uma possível base de apoio para as tropas norte-americanas, ouviu-se algumas das poucas palavras de endosso público à esperada ofensiva - mas, mesmo assim, elas foram acompanhadas de pedidos para que tal ofensiva seja limitada."Justiça, não vingança""Busquem justiça, não vingança", pediu um jornal saudita aos Estados Unidos, ecoando a exortação por uma resposta comedida que têm feito o governo da Arábia Saudita e outros da região simpáticos à campanha antiterrorista norte-americana. Sauditas em mesquitas e em outros lugares expressaram o mesmo desejo, mas disseram que provavelmente não serão ouvidos. "Gostemos ou não, a América irá em frente e atacará, o que resultará na morte de milhares de pessoas inocentes", afirmou um saudita de 23 anos, que deu apenas seu primeiro nome, Moyad.A tensão na região vem crescendo com os Estados Unidos deslocando mais aviões de combate para o que se espera ser um ataque contra bases afegãs de Osama bin Laden, que os EUA responsabilizam pelos atentados de 11 de setembro.O Oriente Médio ainda não experimentou o tipo de violentos protestos públicos contra a retaliação norte-americana como tem ocorrido no Paquistão, onde milhares de pessoas marcham queimando bonecos do presidente dos EUA, George W. Bush. Mas o clima das mesquitas neste dia santo islâmico deixou claro que a revolta e a frustração são crescentes, mesmo antes de qualquer ataque norte-americano. CruzadaClérigos e fiéis nas orações desta sexta-feira lembraram que o presidente dos EUA descreveu num primeiro momento a guerra que se aproxima como uma "cruzada" - uma declaração pela qual a Casa Branca pediu desculpas, mas que não foi perdoada no Oriente Médio."Trata-se de uma guerra contra o Islã, mesmo com a Casa Branca se desculpando pela declaração de Bush de que seria uma cruzada", disse o clérigo xeque Maher Hammoud, na cidade sulista libanesa de Sidon. "Os americanos encobrem seus objetivos coloniais com slogans vazios como guerra contra o terrorismo... enquanto todos sabem que esses não são os verdadeiros motivos dos americanos".Em orações transmitidas pela tevê estatal iraquiana, o clérigo de Bagdá Bakir Abdul-Razak condenou "a nova guerra de cruzada com uma nova cobertura". "Com a ajuda de Deus, os americanos não nos controlarão", afirmou o clérigo. "Convocamos uma jihad (guerra santa), e desafiamos vocês, americanos"."É uma nova guerra de cruzada, mas desta vez ela é dirigida contra todos os muçulmanos", disse o empresário Ismail Bishtawi em Amã, Jordânia. "Os Estados Unidos não estão conseguindo prender aqueles terroristas e está responsabilizando o mundo muçulmano, todos os muçulmanos, por algo que não cometeram".EngolidosPor parte de clérigos fundamentalistas islâmicos, houve advertências de que a campanha dos EUA era uma tentativa de controlar o Oriente Médio e seus recursos e apelaram para que todos os muçulmanos fiquem unidos, ou serão engolidos.O líder dos acadêmicos religiosos do sul do Líbano, xeque Afif al-Naboulsi, disse que os EUA têm somente "um projeto de segurança, político e econômico que irá levar ao controle das ex-repúblicas soviéticas muçulmanas ricas em petróleo".No Egito, clérigos fundamentalistas da Frente Al-Azhar Ulama advertiram aos países árabes que se unirem à aliança antiterrorista que eles podem um dia ser também alvejados - se isso for do interesse dos países que a controlam."Mão de ferro"E uma organização até então desconhecida, o Exército Islâmico Quzeda - União da Península Arábica, afirmou num comunicado divulgado em Beirute que iria "atacar com mão de ferro" qualquer governo muçulmano que oferecer assistência aos Estados Unidos."A vingança crescerá contra os Estados Unidos se eles tomarem a iniciativa de qualquer ação", advertiu um clérigo na Grande Mesquita de Bahrain, em Manamá. "Os Estados Unidos não têm direito de agir antes de investigar a questão".Em Teerã, o líder das orações Mohammad Yazdi falou num tom mais moderado contra um dos maiores inimigos do Irã, dizendo apenas que qualquer tentativa dos EUA de "buscar vingança contra um país pobre e fraco não alcançará nada". "O terrorismo tem sido condenado e sempre será condenado, mas a luta contra o terrorismo não deve ser feita de forma apressada".

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