Hector Retamal/AFP
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Origem do coronavírus: OMS e críticos de relatório chinês buscam outras formas de avaliação

Missão científica enviada à China propôs estudos mais aprofundados sobre uma série de questões

James Gorman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 20h00
Atualizado 09 de abril de 2021 | 20h54

GENEBRA - A missão internacional e chinesa organizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para investigar as origens da covid-19 divulgou seu relatório na semana passada, sugerindo que são necessários mais estudos sobre quase todos os tópicos cobertos. A questão é: que tipo de estudo será e quem o fará?

O relatório sugere várias linhas de investigação, com foco na provável origem do coronavírus em morcegos. O texto final concluiu que a rota mais plausível para os humanos foi por meio de um animal intermediário, talvez em uma fazenda de animais selvagens. Entre os futuros esforços podem estar pesquisas de bancos de sangue para procurar casos que poderiam ter surgido antes de dezembro de 2019 e rastrear potenciais fontes animais do vírus em fazendas de vida selvagem, propôs a equipe.

Mas os críticos do relatório querem mais consideração sobre a possibilidade de que um incidente de laboratório em Wuhan possa ter levado à primeira infecção humana. Um grupo pouco organizado de cientistas e outros envolvidos que têm se reunido virtualmente para discutir a possibilidade de um vazamento de laboratório divulgou uma carta aberta esta semana, detalhando várias maneiras de conduzir uma investigação completa. O grupo pediu mais ações, argumentando que “permanecem inacessíveis registros cruciais e amostras biológicas que poderiam fornecer informações essenciais sobre as origens da pandemia”.

Grande parte da carta ecoa um comunicado anterior do mesmo grupo, detalhando o que viu como fracassos da missão da OMS. Esta segunda carta é mais específica no tipo de investigações futuras que propõe.

O grupo está buscando um novo inquérito que inclua especialistas em biossegurança, o qual poderia envolver a OMS ou um esforço multinacional independente para estabelecer um processo diferente para explorar os primórdios da pandemia e suas origens na China.

Jamie Metzl - autor, membro sênior do Atlantic Council, um grupo de estudo de política internacional, e signatário da carta dos cientistas - disse que os renovados apelos por uma investigação mais completa refletem a necessidade de maior monitoramento e restrições sobre quais vírus podem ser estudados em laboratórios em todo o mundo.

“Não se trata de juntar um bando para atacar a China”, disse Metzl.

O grupo de Metzl estava entre os decepcionados com o relatório divulgado na semana passada, pois este descartou de imediato a possibilidade de um vazamento do Instituto de Virologia de Wuhan, qualificando-o de extremamente improvável.

O diretor da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse mais tarde que a missão não perseguiu a hipótese de um possível vazamento de laboratório “por tempo suficiente”.

Ele continuou: “Embora a equipe tenha concluído que um vazamento de laboratório é a hipótese menos provável, isso requer uma investigação mais aprofundada, potencialmente com missões adicionais envolvendo cientistas especializados, as quais estou pronto para organizar”.

Desde o início, a tarefa da missão nunca foi investigar a segurança ou os procedimentos no laboratório de Wuhan, onde foram feitas muitas pesquisas sobre coronavírus em morcegos nos últimos anos, ou em qualquer outro laboratório na China.

O que os países membros da OMS autorizaram foi um esforço científico colaborativo de um grupo de especialistas internacionais e seus colegas chineses para estudar as origens da pandemia.

A equipe de cientistas internacionais não tinha poder ou mandato para agir independentemente de seus colegas chineses. Conforme estabelecido pelas nações-membro, cada palavra do relatório precisava ser aprovada tanto pelos chineses quanto pelo grupo internacional. Eles passaram 28 dias na China, duas semanas das quais fazendo quarentena em um hotel.

O resultado, que inclui uma extensa revisão da literatura científica existente, reúne evidências em favor da hipótese dominante das origens do vírus: que um coronavírus de morcego provavelmente se transmitiu para outro animal e, em seguida, para humanos. Foi o que aconteceu com as epidemias anteriores de coronavírus da síndrome respiratória aguda grave (SARS) e da síndrome respiratória do Oriente Médio (MERS).

Vírus semelhantes foram encontrados em morcegos e pangolins, embora não perto o suficiente para se disseminarem entre os humanos. A suspeita de um vazamento laboratorial se baseia na noção de que os laboratórios na China coletam e estudam esses vírus e que os cientistas chineses estão mentindo sobre as pesquisas que fazem ou não sabem o que acontece em suas instituições.

Shi Zhengli, diretor do Instituto de Virologia de Wuhan, e outros cientistas chineses conhecidos internacionalmente disseram que o SARS-CoV-2 não estava presente em nenhum laboratório chinês, nem havia nenhum vírus próximo o suficiente para atingir as pessoas.

Alguns especialistas que não assinaram nenhuma das cartas abertas criticando a OMS acham que é necessário um tipo diferente de investigação.

Daniel Lucey, especialista em doenças infecciosas da Universidade de Georgetown, disse que, a partir da genética do vírus e dos muitos precedentes estabelecidos de disseminação de doenças de animais para pessoas, pensa que o vírus se originou na natureza. Mas ele também disse que acha possível que pudesse estar presente em um laboratório de Wuhan e ter escapado para iniciar a pandemia, talvez porque alguém foi infectado acidentalmente.

Sobre a questão das origens do vírus, ele disse que, de maneira geral, não está convencido "de que tenha vindo de um laboratório, mas não há investigação suficiente”.

Ele disse acreditar que o relatório representou uma “grande jogada” para a China. O que a China quer, disse ele, “é criar dúvidas razoáveis de que o vírus de fato tenha começado na China”. E, segundo ele, o relatório sugere que é possível que o vírus tenha se originado em outros países do Sudeste Asiático e talvez até na Europa.

Peter Daszak, chefe da EcoHealth Alliance, que foi criticado por teóricos de vazamentos laboratoriais por seu estudo anterior sobre o Instituto de Virologia de Wuhan, disse que as descobertas até agora apontavam as fazendas de animais selvagens como os locais mais prováveis para o contágio de animais para pessoas.

Existem muitas dessas fazendas na China e no sudeste da Ásia, e os animais que vivem nelas, como cães-guaxinim e civetas de palmeira asiática, têm contato tanto com morcegos quanto com pessoas. Milhares de testes e amostras de animais na China, inclusive em mercados de frutos do mar e outros, não produziram evidências da presença de SARS-CoV-2, de acordo com o relatório da OMS.

O relatório também menciona que tanto os visons quanto os gatos se mostraram facilmente suscetíveis à infecção, presumivelmente de humanos, e são reservatórios potenciais do vírus. Não foi demonstrado que os gatos transmitam o vírus aos humanos, mas os visons o fizeram. A China tem uma próspera indústria de visons, mas não relatou nenhuma infecção em fazendas de visons à OMS.

Lucey disse que se referiu à falta de informação sobre as fazendas de visons da China como “O Silêncio do Vison”.

Quanto aos estudos em humanos, o relatório sugere que testar sangue em doações de banco de sangue feitas de setembro a dezembro de 2019 pode ser muito útil. O primeiro surto registrado ocorreu no Mercado Huanan, em Wuhan, em dezembro de 2019.

Marion Koopmans, especialista holandesa em vírus da Erasmus University em Rotterdam, Holanda, disse que a missão da OMS pediu ao sistema de banco de sangue de Wuhan que guardasse amostras do sangue doado naquele período. Isso foi acordado, disse ela, e agora os chineses estão pedindo permissão para testar o sangue em busca de anticorpos contra o vírus que poderiam ajudar a identificar exatamente quando o vírus apareceu pela primeira vez em humanos. Se tais estudos fossem estendidos, isso poderia ajudar também com a localização.

Koopmans disse esperar que os estudos sobre doações de sangue possam ser estendidos a outras províncias e regiões fora da China. “Meu desenho de estudo perfeito seria incluir regiões na Itália e na França onde havia possíveis indícios da presença do vírus antes de dezembro”, disse ela.

Ela disse que é preciso fazer testes padronizados em todas as regiões em questão. Isso, por sua vez, pode apontar para focos isolados de aparições iniciais do vírus. Testes de vida selvagem nessas áreas também seriam bastante produtivos.

Koopmans defendeu a missão da equipe da OMS, dizendo que seu objetivo sempre foi ser um estudo científico com colegas chineses. Se o objetivo for uma investigação, ela disse, “você precisa fazer inspeções e coisas desse tipo, mas isso não é um estudo científico”.

Nisso os críticos concordam. Uma das seções mais reveladoras da carta dos críticos da OMS fala sobre a composição de uma equipe para investigar os laboratórios chineses. Se as regras básicas para uma segunda missão forem reescritas, diz a carta, a OMS deve “garantir a incorporação de um conjunto mais amplo de habilidades na equipe de especialistas internacionais, incluindo especialistas em biossegurança, analistas de dados biológicos e investigadores forenses experientes”.

Quase no final do relatório, ao discutir o que deve ser feito para se descobrir mais sobre a probabilidade de um incidente de laboratório, o relatório recomenda “análises periódicas administrativas e internas dos laboratórios de biossegurança de alto nível em todo o mundo. Acompanhamento de novas evidências fornecidas a respeito de possíveis vazamentos laboratoriais”. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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