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(Cortesia de Wang Linfa via The New York Times)
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Origem do coronavírus: virologista chinesa diz ‘não ter nada a temer’

Em rara entrevista, Shi Zhengli, que está no centro da teoria do vazamento do coronavírus do laboratório de Wuham, diz que as especulações são infundadas

Amy Qin e Chris Buckley, do New York Times, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 20h00

PEQUIM — Para um coro crescente de políticos e cientistas dos EUA, ela é a chave para saber se o mundo algum dia irá descobrir se o vírus por trás da devastadora pandemia da covid-19 escapou de um laboratório chinês. 

Para o governo e a população chinesa, ela é uma heroína do sucesso do país na contenção da pandemia e uma vítima de teorias da conspiração maliciosas.

Shi Zhengli, uma importante virologista chinesa, está mais uma vez no centro das narrativas conflitantes sobre sua pesquisa do novo coronavírus em um laboratório estatal em Wuhan, a cidade onde o vírus foi identificado pela primeira vez.

A princípio, a ideia de que o vírus poderia ter escapado de um laboratório foi altamente rejeitada por cientistas, sendo considerada implausível — a maioria deles acredita que ele passou de um animal para um humano fora de um laborátório. No entanto, pedidos do governo Biden para investigar a teoria a fundo e apelos de cientistas proeminentes por mais transparência trouxeram-na de volta ao primeiro plano.

Em geral, cientistas concordam que não há evidências diretas que apoiem a teoria de que o vírus escapou do laboratório. No entanto, muitos deles agora dizem que a hipótese foi descartada com muita pressa, sem uma investigação completa, e apontam para uma série de questões preocupantes.

Alguns cientistas dizem que Shi conduziu experimentos arriscados, que não eram seguros o suficiente, com coronavírus de morcegos em laboratórios. Outros querem mais clareza nos relatórios, citando um documento da Inteligência dos EUA que sugere que funcionários do Instituto de Virologia de Wuhan podem ter contraído a covid-19 antes de Pequim relatar os primeiros casos da doença.

Shi negou essas acusações e agora defende a reputação de seu laboratório e, de maneira mais ampla, de seu país. Contatada por celular há duas semanas, ela disse a princípio que preferia não falar diretamente com repórteres, citando as políticas de seu instituto. No entanto, ela mal conseguia conter sua frustração. “Como posso fornecer evidências de algo que não tem evidências?”, disse ela.

"Não sei como o mundo chegou a isso, despejando imundície constantemente sobre uma cientista inocente”, escreveu Shi depois em uma mensagem de texto.

Em uma rara entrevista por e-mail, ela classificou as suspeitas como infundadas, incluindo as alegações de que vários de seus colegas podem ter adoecidos antes dos primeiros casos relatados. 

A especulação se reduz a uma questão central: o laboratório de Shi continha alguma fonte do novo coronavírus antes da erupção da pandemia? A resposta dela é um enfático não.

Mas a recusa da China em permitir uma investigação independente em seu laboratório, ou em compartilhar dados sobre sua pesquisa, dificulta a validação das afirmações de Shi e só alimentou as suspeitas sobre como a pandemia poderia ter se espalhado na mesma cidade que hospeda um instituto conhecido por seu trabalho com coronavírus de morcegos.

Aqueles que concordam com a hipótese da origem natural, no entanto, destacam a posição de Wuhan como um importante hub de transportes, além de um estudo recente que mostra que pouco antes da pandemia estourar, os mercados da cidade estavam vendendo muitas espécies de animais capazes de abrigar patógenos perigosos que poderiam saltar para humanos.

O governo chinês não deu sinais de que Shi esteja sob suspeita. Apesar do escrutínio internacional, ela aparentemente conseguiu seguir com suas pesquisas e palestras na China.

'Transparência importa'

Os defensores de uma investigação da teoria dizem que os pesquisadores do instituto de Shi podem ter coletado — ou contraído — o novo coronavírus da natureza, como em uma caverna com morcegos. 

Ou que os cientistas podem ter criado ele — por acidente ou intencionalmente. De qualquer forma, o vírus pode ter escapado do laboratório, talvez após infectar um funcionário.

Pequim concordou em autorizar que uma equipe de especialistas da Organização Mundial da Saúde (OMS) visitasse a China, mas limitou o acesso do grupo. 

Quando a equipe da OMS disse em um relatório em março que um vazamento de laboratório era extremamente improvável, a conclusão foi considerada precipitada. Até o chefe da organização, Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse: “Não acredito que esta avaliação tenha sido extensa o suficiente”.

No mês passado, Biden ordenou que agências de Inteligência investigassem a origem do vírus, incluindo a teoria do vazamento. No domingo, o G-7 instou a China a fazer parte de uma nova investigação sobre as origens do coronavírus. “A transparência é importante para todos”, disse Biden.

'Uma cientista estelar'

Shi já liderou expedições a cavernas para coletar amostras de morcegos e de guano, para aprender como os vírus saltam de animais para humanos. Em 2019, ela estava entre 109 cientistas eleitos para a Academia Americana de Microbiologia por suas contribuições para essa área de estudos.

“Ela é uma cientista estelar, extremamente cuidadosa, com uma ética de trabalho rigorosa”, disse Robert C. Gallo, diretor do Instituto de Virologia Humana da Escola de Medicina da Universidade de Maryland.

O Instituto de Virologia de Wuhan emprega cerca de 300 pessoas e abriga um dos dois laboratórios chineses que foram designados com o nível de segurança mais alto: nível de biossegurança 4. Shi lidera o trabalho do instituto em doenças infecciosas emergentes e, ao longo dos anos, seu grupo coletou mais de 10 mil amostras de morcegos em toda a China.

Shi, de 57 anos, obteve seu doutorado na Universidade de Montpellier, na França, em 2000, e começou a estudar morcegos em 2004, após um surto de síndrome respiratória aguda grave, ou Sars, que matou mais de 700 pessoas em todo o mundo. 

Em 2011, descobriu morcegos em uma caverna no Sudoeste da China que carregavam coronavírus semelhantes ao vírus que causa a Sars.

“Em todo o trabalho que fazemos, se apenas uma vez você puder prevenir o surto de uma doença, então o que fizemos será muito significativo”, disse ela à CCTV, emissora estatal da China, em 2017.

Nos últimos anos, Shi começou a fazer experiências com coronavírus de morcegos, modificando-os geneticamente para ver como se comportavam. 

Em 2017, ela e seus colegas do laboratório de Wuhan publicaram um artigo sobre um experimento no qual criaram novos coronavírus híbridos de morcegos misturando e combinando partes de vários já existentes — incluindo pelo menos um que era quase transmissível a humanos — para estudar sua capacidade de infectar e se replicar em células humanas.

Os defensores desse tipo de pesquisa, chamada de ganho de função, dizem que ela ajuda a sociedade a se preparar para surtos futuros. Já os críticos argumentam que os riscos de criar novos patógenos perigosos podem superar os benefícios potenciais.

Shi, em respostas enviadas por e-mail, argumentou que seus experimentos diferiam da pesquisa de ganho de função porque eles não pretendiam tornar um vírus mais perigoso, mas entender como ele poderia se espalhar entre as espécies: “Meu laboratório nunca conduziu ou cooperou na realização de experimentos de ganho de função que aumentam a virulência dos vírus”.

'Especulação enraizada em uma desconfiança total'

As preocupações se concentraram não apenas nos experimentos que Shi conduziu, mas também nas condições em que eles foram realizados. Alguns dos estudos de Shi com vírus de morcegos foram feitos em laboratórios de biossegurança nível 2, onde a segurança é menor. Isso levantou dúvidas sobre a possibilidade de um patógeno perigoso ter escapado.

Ralph Baric, especialista em coronavírus da Universidade da Carolina do Norte e um dos 18 cientistas que assinaram em abril uma carta aberta na revista Science pedindo mais investigações da teoria do escape ocidental, disse que embora uma origem natural do vírus fosse provável, ele apoia uma revisão sobre quais foram os níveis de precaução tomados durante os estudos do coronavírus em morcegos no instituto de Wuhan.

Shi argumentou que os vírus de morcego na China poderiam ser estudados em laboratórios de biossegurança nível 2 porque não havia evidências de que infectassem humanos diretamente — opinião apoiada por alguns cientistas. 

Ela também rejeitou informações divulgadas recentemente sobre um relatório secreto americano segundo o qual três pesquisadores de seu instituto teriam procurado tratamento em um hospital em novembro de 2019 com sintomas semelhantes aos da gripe, antes que os primeiros casos de Covid-19 fossem relatados por Pequim.

“O Instituto de Virologia de Wuhan não encontrou esses casos”, escreveu ela. “Se possível, você pode fornecer os nomes dos três para nos ajudar a verificar?”

Em relação às amostras mantidas pelo laboratório, Shi afirmou que o vírus de morcego mais próximo que ela tinha no laboratório, que ela compartilhou publicamente, era apenas 96% idêntico ao Sars-CoV-2, o da Covid-19 — uma grande diferença para padrões genômicos. Ela negou as especulações de que seu laboratório tenha trabalhado secretamente com outros vírus.

Muitos cientistas e autoridades afirmam que a China deveria compartilhar os registros médicos dos funcionários do instituto e os registros dos experimentos, além do banco de dados de sequência viral para avaliar as alegações de Shi. A cientista afirma que tanto ela como o instituto estiveram abertos à OMS e à comunidade científica global.

“Isso não é mais uma questão de ciência”, disse ela no telefone. “É especulação enraizada em uma desconfiança total.”

'Não tenho nada a temer'

A pandemia foi um momento para o qual Shi e sua equipe haviam se preparado há muito tempo. Durante anos, ela alertou sobre os riscos de um surto de coronavírus, acumulando um estoque de conhecimento sobre esses patógenos.

Shi publicou alguns dos primeiros artigos mais importantes sobre a Sars-CoV-2, nos quais cientistas em todo o mundo confiaram. No entanto, logo as especulações sobre Shi e seu laboratório começaram a circular. Ela, que é conhecida entre os amigos por ser franca, ficava perplexa e irritada — e, às vezes, deixava isso transparecer.

Em uma entrevista à revista Science em julho, ela disse que Trump lhe devia um pedido de desculpas por alegar que o vírus veio de seu laboratório. Nas redes sociais, disse que as pessoas que levantaram questões semelhantes deveriam “calar suas bocas fedorentas”.

Shi disse que a politização da questão minou seu entusiasmo de investigar as origens do vírus. Em vez disso, ela se concentrou nas vacinas contra a Covid e nas características do novo vírus. Com o tempo, ela disse, se acalmou.

“Tenho certeza de que não fiz nada de errado”, escreveu ela. "Portanto, não tenho nada a temer."

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