Ortega enfrenta irritação sandinista

Dissidência e fracasso nas eleições municipais levam líder esquerdista a relativizar antigos princípios

Renata Miranda, O Estadao de S.Paulo

04 de maio de 2009 | 00h00

Trinta anos após comandar a revolução que derrubou a ditadura da família Somoza (1936-1979) na Nicarágua, o presidente Daniel Ortega trava mais uma batalha pelo poder. Enfraquecido pelas dissidências de seu partido e assombrado pelo fracasso das eleições municipais de novembro, o líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) busca agora formar alianças com ex-rivais para ganhar apoio na Assembleia Nacional, passando por cima de antigos ideais."O presidente está se distanciando cada vez mais dos princípios sandinistas e por isso a dissidência na FSLN está crescendo", disse ao Estado o analista político nicaraguense Carlos Tunnermann. "A obsessão de Ortega pelo controle das instituições lembra o acúmulo de poder da época de Somoza."O mais recente episódio da busca de Ortega pelo domínio das instituições do país, segundo especialistas, foram as eleições municipais de 9 de novembro. Quase seis meses após a votação, o Conselho Supremo Eleitoral (CSE) ainda não divulgou os resultados finais. Os números mais recentes disponíveis no site do CSE datam de 21 de janeiro e mostram um total de 38,7% de urnas apuradas.Mesmo sem os resultados, os vencedores em 146 dos 153 municípios do país foram proclamados e empossados, causando revolta na população. Em Manágua, violentos confrontos entre sandinistas e opositores deixaram dois mortos. Para controlar os manifestantes, Ortega criou patrulhas que não andam identificadas. Além dos protestos, diversas denúncias de fraude foram feitas. O CSE também foi atacado por ter proibido a presença de observadores durante a votação."O processo eleitoral foi injusto, sem transparência e não estava de acordo com a vontade popular", afirmou o jurista Alejandro Serrano Caldera. "Pensávamos que Ortega, que já havia governado entre 1985 e 1990, aproveitaria sua segunda chance para fazer um governo de consenso, mas essas eleições só evidenciaram a divisão do país que ele está fazendo."Com o fracasso da votação, os EUA suspenderam parte de um pacote de ajuda à Nicarágua de US$ 175 milhões, condicionando a liberação do dinheiro a uma revisão eleitoral. A União Europeia também disse que reavaliaria o auxílio que envia anualmente - cerca de 40% do total de ajuda externa que a Nicarágua recebe.CONTROLE DE DANOSPara reverter os danos, o governo divulgou em 27 de fevereiro um relatório intitulado "Livro Branco - A realidade do processo eleitoral municipal de 2008 na Nicarágua", no qual busca explicar a investidores externos sua versão. O documento tem como objetivo legitimar as eleições e negar acusações de fraude.Opositores qualificaram o relatório de "tentativa infantil" para justificar a confusão feita pelo CSE durante o processo eleitoral.A queda no preço do petróleo também é um problema para Ortega, já que a Venezuela de seu amigo Hugo Chávez é um dos principais parceiros de seu governo.Ameaçado pela redução do auxílio vindo de fora, Ortega recorreu ao Kremlin - além da Rússia, a Nicarágua foi o único país a reconhecer a independência das regiões georgianas Ossétia do Sul e Abkházia. "Com a crise, a Rússia não pode investir como outros parceiros", disse Tunnermann.O analista político argentino José Natanson explica que o principal interesse de Ortega era consolidar seu governo com os resultados das eleições - nas quais seu partido obteve mais de 90 prefeituras. "Ortega fez da votação um grande plebiscito a favor de seu governo. Ao sair vitorioso, ele tem mais chances de seguir com força."Caldera, porém, alerta: a votação de novembro foi apenas o começo da estratégia de Ortega para formar sua base e aumentar seu controle sobre as instituições nicaraguenses."O presidente quer ter uma plataforma sólida para se promover e, quem sabe, buscar uma reforma da Constituição para aprovar um projeto de reeleição como o de Chávez."

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