REUTERS/Oswaldo Rivas
REUTERS/Oswaldo Rivas

Ortega ignora pressão após massacres e faz festa na Nicarágua

Presidente amplia festividades patrióticas para provocar opositores, muitos dos quais estão escondidos e planejando os próximos protestos; OEA pede ao governo nicaraguense que fortaleça as instituições democráticas

O Estado de S.Paulo

18 Julho 2018 | 20h46

MANÁGUA - Em meio a uma crise generalizada, matança de opositores, condenação internacional à repressão e pedidos para antecipação das eleições presidenciais para o começo de 2019, o presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, dará início nesta quinta-feira, 19, às comemorações de 39 anos do triunfo da Revolução Sandinista que derrubou a ditadura de Anastasio Somoza. 

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Ortega estendeu as celebrações por uma semana – em outros anos durou apenas um dia – em uma tentativa de demonstrar força e provocar os opositores. Líderes de esquerda da América Latina devem comparecer ao evento, entre eles o chanceler de Cuba, Bruno Rodríguez, e representantes dos governos da Venezuela e da Bolívia. 

O governo da Nicarágua convocou “todos os cidadãos” para comparecer aos festejos e ao desfile que ocorrerão na capital, Manágua. Nesta quarta-feira, 18, o Centro dos Direitos Humanos da Nicarágua (Cenidh) alertou que os “funcionários públicos não devem ser manipulados ou forçados pelo governo a participar das atividades”. Segundo a entidade, o governo tem usado funcionários em atos de apoio a Ortega.

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A extensão da comemoração parece ser uma provocação aos opositores, que desde abril saem às ruas para pedir a renúncia de Ortega e de Rosario Murillo, primeira-dama e vice-presidente. A dura repressão do governo nicaraguense às manifestações deixou 285 mortos e 1.500 feridos, segundo a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). 

A Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou na quarta-feira, 18, uma resolução pedindo ao governo da Nicarágua que fortaleça as instituições democráticas e apoie eleições antecipadas. A Anistia Internacional exigiu que o governo ponha “um fim à repressão após três meses de assassinatos sem sentido”.

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Nesta quarta-feira,18, agências internacionais relataram que centenas de opositores de Ortega estão escondidos em casas seguras e planejando seus próximos passos e novas manifestações para forçar o presidente a renunciar. 

O recuo estratégico da oposição ocorreu um dia após paramilitares que apoiam o governo e a polícia da Nicarágua invadirem e retomarem o bairro indígena de Monimbó, em Masaya, que se tornou símbolo dos protestos contra o presidente. 

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Entre 1.500 e 2.000 pessoas armadas, entre Exército, polícia e paramilitares cercaram a cidade, a 35 quilômetros de Manágua. Após sete horas de cerco, o governo disse ter controlado a área. Pelo menos três pessoas morreram, incluindo um policial.

Falando de seus esconderijos, os líderes dos protestos disseram que estavam planejando manifestações e buscariam mais cooperação internacional para pressionar o governo. “Ninguém se rende aqui”, disse um dos líderes, que escapou na terça-feira de Monimbó, durante confrontos.” Isso é apenas uma pausa, mas vamos voltar”, disse o jovem.

Ortega é acusado de corrupção e de nepotismo por seus críticos, o que teria levado o país a uma grave crise econômica. O dissidente sandinista Julio López, amigo de Ortega desde que eram estudantes, disse estar “surpreso” com a forma pela qual o presidente tenta pôr fim aos protestos, com um uso desproporcional da força. A espiral de violência também deixou cerca 1.500 feridos e um número ainda impreciso de presos e de desaparecidos, segundo ONGs de defesa dos direitos humanos.

A oposição acusa o governo de instaurar uma ditadura e exige a convocação de eleições presidenciais previstas para 2021. A Igreja Católica denunciou a “falta de vontade política do governo” para dialogar. As negociações foram suspensas em 18 de junho e, desde então, os bispos tentaram sem sucesso organizar novos encontros. / AFP, REUTERS e EFE

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