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Ortega inicia quarto mandato na Nicarágua com economia e poder ameaçados

Político da Frente Sandinista de Libertação Nacional foi reeleito em novembro - em disputa na qual a oposição teve seus principais candidatos impugnados - com 72,5% dos votos; poetisa Rosario Murillo, mulher de Ortega, será vice-presidente

O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2017 | 10h19

MANÁGUA - O presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, inicia nesta terça-feira, 10, seu quarto mandato junto a sua mulher Rosario Murillo como vice-presidente, com o controle do Parlamento, mas limitado economicamente pela ajuda cada vez menor da Venezuela.

Ortega e sua mulher, Rosário, governam a Nicarágua juntos há anos, mas a partir de agora será oficial. Os dois assumirão as rédeas de um dos países mais pobres da América Latina visando, segundo seus detratores, estabelecer um poder dinástico.

"É a primeira vez que um casal assume como presidente e vice-presidente na história da Nicarágua e o segundo caso que se conhece no continente depois de Juan Domingo Perón e sua mulher Isabelita na Argentina", afirmou o analista e ex-embaixador ante a OEA, Carlos Tünnermann.

Ortega, de 71 anos - que governou durante a revolução sandinista entre 1979 e 1990 e voltou ao poder em 2007 -, foi eleito em novembro para um terceiro período consecutivo com 72,5% dos votos, enquanto que seu partido - a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) - obteve 71 das 92 cadeiras no Parlamento unicameral.

O líder sandinista prestará juramento em um ato solene na Praça da Revolução, no centro antigo de Manágua, ante convidados estrangeiros, entre os quais a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen. Mas o panorama econômico é complicado para Ortega devido à redução da cooperação venezuelana e ameaça de legisladores dos Estados Unidos de impulsionar uma lei que condicionaria os empréstimos de organismos multilaterais ao fato de que Manágua realize mudanças políticas.

Entre 2007 e 2016, a cooperação venezuelana somou US$ 4,8 bilhões, em virtude de um acordo de fornecimento de petróleo em condições vantajosas para Manágua. Os fundos da generosa cooperação de Caracas permitiram a Ortega impulsionar programas sociais que reduziram a pobreza de 45 a 29% da população, segundo cifras oficiais confirmadas pelo Banco Mundial.

No entanto, depois da queda dos preços do petróleo, o fluxo dessa ajuda decaiu em mais de 50% nos últimos anos. Por outra parte, as denúncias da oposição sobre violações dos direitos humanos e uma suspeita de fraude nas eleições são muitas e preocupam a estabilidade de Ortega.

Incertezas. A posse de Donald Trump na Casa Branca poderá piorar a situação econômica da Nicarágua, considerando as medidas protecionistas do novo presidente dos EUA promete, disse o economista e consultor privado Adolfo Acevedo.

"Agora mesmo há uma grande preocupação na indústria na Nicarágua sobre o que vai acontecer na indústria automotiva do México como efeito das políticas protecionistas de Trump", destacou Acevedo. Na Nicarágua operam empresas estrangeiras sob o regime de zona franca, que fornecem peças às montadoras sediadas no México, algumas das quais já anunciaram a saída desse país.

Campo minado. Os grupos políticos de oposição, que foram excluídos do processo eleitoral por uma manobra legal, não reconheceram os resultados das eleições e alertam que manterão a pressão. "Vamos continuar exigindo que sejam feitas todas as reformas do sistema eleitoral e político para que se respeite o voto das pessoas e para que façamos novas eleições", declarou a dirigente da Frente Ampla pela Democracia (FAD), Violeta Granera.

A dirigente anunciou que a FAD vai intensificar a luta pacífica nas ruas e a denúncia internacional "para resgatar a democracia e o estado de direito". 

"Daniel Ortega está desacreditado dentro e fora da Nicarágua, mas a sociedade não está coesa para exigir que deixe o poder e não continue violando a Constituição", declarou o sociólogo e catedrático Cirilo Otero.

Os problemas econômicos não são percebidos de maneira clara pela população porque a situação é atenuada pelas remessas familiares, a migração para o exterior e os empréstimos internacionais, destacou Otero, integrante do chamado Grupo dos 27, formado por intelectuais, políticos e grupos civis.

"Nos últimos cinco anos houve protestos de camponeses que são contra a construção de um canal interoceânico, de mineiros contra a concessão a companhias estrangeiras, de taxistas, motoristas de ônibus, comerciantes etc, mas todos estes protestos não juntaram esforços como sociedade", alertou.

Neste estado de coisas, Ortega manterá seu governo enquanto favorecer o desenvolvimento dos militares, policiais e empresários para que fiquem satisfeitos, enfatizou o analista. Os que protestam serão neutralizados à força porque "este é um regime que gosta da confusão", afirma o especialista. "Daniel Ortega é um administrador do caos", conclui. / AFP

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