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Myitkyina News Journal via AFP
Myitkyina News Journal via AFP

Os 100 dias que levaram Mianmar ao caos

Na madrugada de 1 de fevereiro, generais derrubaram o governo de Aung San Suu Kyi e encerraram um período democrático de 10 anos; desde então, país tem repressão violenta, economia paralisada e combates entre exército e grupos insurgentes

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2021 | 05h00

NAIPIDAU - A ponto de completar 100 dias desde o golpe de Estado militar, Mianmar continua imerso em um cenário de caos, com uma revolta popular reprimida de maneira extremamente violenta, uma economia paralisada por uma greve geral e combates intensos entre o exército e grupos insurgentes. "É uma guerra civil (...) o exército perdeu toda a confiança da população", resume o analista Khin Zaw Win.

Na madrugada de 1 de fevereiro, os generais birmaneses derrubaram o governo de Aung San Suu Kyi e encerraram de forma abrupta um período democrático de 10 anos.

Na terça-feira, o golpe de Estado completará 100 dias. A junta militar estabeleceu um cerco judicial à vencedora do Nobel da Paz de 1991.

Sob prisão domiciliar na capital, Naipidau, a ex-governante civil, de 75 anos, é objeto de várias acusações e não tem permissão para encontrar seus advogados. Um deles, Khin Maung Zaw, afirmou à Agência France-Presse que ela comparecerá pessoalmente pela primeira vez a um tribunal em 24 de maio.

De acordo com Zaw, Suu Kyi parece estar "com boa saúde", mas ele ainda não pôde se reunir com sua cliente. "Não temos certeza de que a polícia nos permitirá falar com ela em particular antes da audiência", afirmou.

A ex-líder do governo foi acusada seis vezes desde sua detenção. As acusações incluem descumprimento de restrições pela pandemia, importação ilegal de walkie-talkies, incitação à desordem pública e violação de uma lei de segredos de Estado da época colonial.

Ela permanece à margem da agitação e da violência no país, tanto nas grandes cidades como na área rural. 

Os protestos são liderados por uma juventude sedenta por liberdade e adepta das redes sociais e das novas tecnologias.

E milhares de grevistas continuam bloqueando grande parte do país: bancos, hospitais, portos e prédios públicos.

Quase 800 mortos

Ao menos 780 civis morreram nos últimos três meses, segundo a Associação de Ajuda aos Presos Políticos (AAPP).

O exército alega que o balanço é bem menor e atribui a violência aos "agitadores que cometem atos de terrorismo".

As detenções não param de aumentar no país.

Mais de 3.800 pessoas estão presas, muitas delas em locais não revelados, segundo a AAPP, que denuncia violência contra as mulheres, execuções extrajudiciais e torturas - como no caso do poeta Khet Thi, detido no último sábado, 8, e morto sob custódia 24 horas depois.

"As pessoas vivem com medo e estão desesperadas. Algumas pensam em cometer suicídio", diz a freira Ann Rose Nu Twang.

A religiosa se tornou um símbolo de resistência quando, durante um protesto reprimido com violência no início de março, se ajoelhou diante dos militares, com os braços cruzados, suplicando que "não atirassem".

Agora trabalha em uma clínica do Estado de Kachin, no norte do país, cuidando de opositores feridos que "sacrificam a vida por seu futuro".

"Do lado certo da história"

Apesar da violência, a mobilização continua. "Queremos estar do lado certo da história", afirma um dissidente.

Para manter a pressão sobre a junta militar e evitar ao máximo as represálias, os birmaneses organizam manifestações relâmpago, com menos pessoas, uma tática que apresenta resultados, pois a repressão foi menor nos últimos dias.

A resistência também se organiza politicamente.

Milhares de opositores se refugiaram em territórios controlados por grupos rebeldes, no norte e leste do país, e deputados depostos, que passaram à clandestinidade, formaram um "governo de união nacional".

No momento, o grupo tem dificuldades para exercer grande influência. O desejo de estabelecer um "exército federal" antijunta reunindo dissidentes e combatentes rebeldes não entusiasma as muitas facções étnicas do país.

Muitos desconfiam da Liga Nacional para a Democracia (LND) de Aung San Suu Kyi, partido em que predominam os bamar, grupo étnico majoritário budista.

Porém, indignados com o banho de sangue contra os civis, os insurgentes pegaram em armas.

A União Nacional Karen (KNU), com milhares de homens na região leste do país, ataca bases militares e o exército responde com bombardeios aéreos, pela primeira vez em mais de 20 anos nesta área do país. 

Também acontecem confrontos e ataques aéreos intensos no estado de Kachin, onde os rebeldes derrubaram um helicóptero do exército na semana passada.

A violência deixou dezenas de milhares de deslocados civis, segundo a ONU.

A pobreza dispara

Quanto tempo o país, um dos mais pobres da Ásia, resistirá?

Com a pandemia e a crise política, metade da população pode ficar abaixo do limite da pobreza em 2022, um retrocesso de 16 anos, advertiu o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

E o Banco Mundial prevê uma contração de 10% da economia em 2021, depois de um crescimento de quase 7% em 2019.

O caos econômico e político não abala os generais, que ignoram as condenações internacionais e as sanções decretadas por Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido.

Mais de 200 ONGs pediram ao Conselho de Segurança da ONU que aprove um embargo internacional sobre a venda de armas, mas China e Rússia, aliados tradicionais dos militares birmaneses, são veemente contrários. /AFP

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