Os 50 anos de profecia que não se cumpriu

Cinquentenário de 'Dr. Fantástico', de Kubrick, coincide com escândalo nuclear na era Obama

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2014 | 02h04

Há exatos 50 anos, o mundo assistia a uma guerra nuclear entre EUA e URSS, com ogivas espocando no céu na forma de monstruosos cogumelos atômicos. O holocausto global do início de 1964 foi, claro, no universo da ficção: era a cena final de Dr. Fantástico, que projetava pela primeira vez nas telas de cinema o apocalipse com a trilha sonora de We'll meet again, na doce voz de Vera Lynn.

Uma curiosa ironia está marcando o cinquentenário da estreia do clássico de Stanley Kubrick, em que a guerra total é deflagrada involuntariamente após um general americano ("Jack D. Ripper", interpretado por Sterling Hayden) entrar em um surto psicótico anticomunista. Os EUA de Barack Obama estão às voltas com uma série de trapalhadas envolvendo a segurança de seu arsenal de mísseis nucleares, escândalo que tem recebido pouca atenção da imprensa estrangeira, embora possa ter grandes implicações globais.

Os problemas nucleares na versão 2014 começaram a vir à tona após uma investigação do Pentágono sobre consumo de drogas em bases da Força Aérea americana que abrigam Mísseis Balísticos Intercontinentais (ICBMs, na sigla em inglês), capazes de transportar ogivas nucleares ao redor do globo. O inquérito concluiu que era frequente não só o uso de entorpecentes, como também sexo dentro das bases e trapaças em provas de segurança para operar as armas de destruição em massa.

Esta última suspeita atingiria 20% dos oficiais responsáveis pela força balística dos EUA em terra. Na base aérea de Malstorm, em Montana, que guarda 150 ICBMs Minuteman 3, metade dos 183 soldados cuja missão é apertar o botão vermelho teria "colado" nas provas.

Antes, em dezembro, o brigadeiro Michael Carey - que comandava a força de 450 ICBMs dos EUA - foi afastado do cargo por "má conduta" em uma viagem à Rússia. Segundo um relatório secreto vazado para a imprensa, Carey teria passado a maior parte do tempo em Moscou bêbado, ofendido os anfitriões aos berros de "prendam Eric (sic) Snowden" e "se relacionado com mulheres estrangeiras" em uma boate de reputação duvidosa - uma "grave vulnerabilidade de segurança", de acordo com a investigação.

A secretária da Força Aérea, Deborah Lee James, nega que os desvios nas bases tenham colocado em perigo o arsenal dos EUA. Mas, sob pressão, o secretário de Defesa, Chuck Hagel, ordenou uma nova investigação sobre a segurança dos ICBMs. A conclusão será divulgada em até 60 dias.

"Diante da série de escândalos que abalaram a estrutura do comando nuclear dos EUA, Hagel teve de agir. Mas temo que essa investigação recém-lançada não será abrangente o suficiente", disse ao Estado Joseph Cirincione, presidente do centro de pesquisas estratégicas Ploughshares Fund e um dos principais especialistas no poder nuclear americano.

"Se a revisão se limitar a mudar o treinamento de oficiais e endurecer a disciplina, ela será um mero band-aid para um problema muito maior. Esses soldados são altamente qualificadas e ficam dentro de silos de aço debaixo da terra, em lugares remotos dos EUA, treinando 24 horas como apertar um botão que eles sabem que nunca apertarão - ou, se o fizerem, aniquilarão milhões de vidas. É uma missão insana", afirma Cirincione. Para ele, passadas duas décadas do fim da Guerra Fria, chegou a hora de Washington abrir mão de todos os ICBMs, concentrando seu poder nuclear em submarinos e aviões bombardeiros.

O fim dos mísseis intercontinentais casaria com a decisão do governo Obama de reduzir o orçamento da Defesa, afirma o analista. Estima-se que os EUA tenham 450 ICBMs e cada unidade custa cerca de US$7 bilhões, sem contar custos de manutenção, proteção e treinamento nas instalações.

Olho de Moscou. Outra coincidência curiosa marcou os 50 anos de Dr. Fantástico. Na quinta-feira, o New York Times revelou que Moscou pode ter violado um histórico acordo firmado com Washington que proíbe o desenvolvimento de mísseis nucleares de médio alcance. Assinado em 1987 pelo presidente Ronald Reagan e pelo secretário-geral soviético Mikhail Gorbachev, o tratado é visto hoje por historiadores como um passo decisivo para a saída pacífica da Guerra Fria.

"Se Moscou tiver realmente violado o acordo, será muito difícil convencer funcionários do governo e congressistas americanos de que é possível confiar no presidente Vladimir Putin e acertar com ele compromissos de longo prazo", disse ao Estado Lawrence Korb, que foi secretário-assistente de Defesa no governo Reagan. "No mundo das armas nucleares, confiança é a moeda de troca. E não há margem para erros."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.