Os americanos casam-se cada vez menos

Casados estão prestes a se tornar minoria nos EUA

É REPÓRTER, CAROL, MORELLO, THE WASHINGTON POST, É REPÓRTER, CAROL, MORELLO, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h04

A proporção de adultos casados nos EUA caiu consideravelmente e atingiu baixas recordes porque é cada vez maior o número de pessoas que decidem viver juntas agora e casar mais tarde. Esse é o resultado da evolução das atitudes em relação ao papel do casamento na sociedade americana nas últimas décadas.

Somente 51% dos adultos acima de 18 anos estão casados nos EUA, ou seja, um grupo prestes a se tornar minoria, conforme mostra uma análise das estatísticas do censo realizada pelo Pew Research. Trata-se de uma queda profunda em comparação aos 57% de cidadãos americanos casados em 2000.

O Estado de Maryland está um pouco abaixo da média nacional, com 50%, enquanto Virginia está um pouco acima, com 54%, e ambas as porcentagens estão em declínio. No entanto, na capital Washington, que registrou a chegada de jovens adultos na década passada, apenas um em cada quatro está casado, enquanto mais da metade nunca se casou.

As estatísticas oferecem apenas uma imagem instantânea no tempo, o que não significa que os não casados devam permanecer assim. Eles são a consequência de um persistente aumento da idade média em que as pessoas casam pela primeira vez, que, atualmente, é a mais alta de todos os tempos: acima dos 26 anos para as mulheres e quase 29 anos para os homens.

"Não conheço ninguém que não queira se casar algum dia", disse Kate Shorr, de 30 anos, advogada e lobista que até recentemente escrevia um blog sobre sua vida social em Washington chamado A Single Girl Doing Single Things (Uma garota solteira que faz coisas de solteira, em tradução livre). "Todos nós queremos encontrar aquela pessoa especial e casar, mas sem pressa. Principalmente em uma sociedade em que a carreira é o principal objetivo de todos. As pessoas não vão para Washington para se casarem, ao contrário, mudam para cá por causa da carreira."

Mudança. O padrão do casamento mudou completamente em relação ao de meados do século 20, quando a porcentagem de pessoas que nunca tinham casado era muito pequena. Em 1960, por exemplo, quando a maior parte da geração nascida depois da guerra era criança, 72% dos adultos estavam casados. A idade média das noivas mal chegava aos 20 anos e os noivos tinham talvez dois anos a mais.

"Na década de 50, se você não fosse casado, as pessoas o consideravam doente mental", disse Andrew Cherlin, sociólogo da Universidade Johns Hopkins, que estuda as famílias. "O casamento era obrigatório. Agora, é uma opção cultural." O declínio dos casamentos ocorreu entre as pessoas de todas as idades e grupos étnicos, mas é mais acentuado entre os jovens.

Uma pesquisa realizada pelo Pew, no ano passado, determinou que mais de quatro entre dez americanos com menos de 30 anos consideram o casamento uma coisa ultrapassada.

"Eles o veem como uma contingência social obsoleta", disse D'Vera Cohn, um pesquisador do instituto e coautor da análise. "As pessoas afirmam que querem se casar, mas hoje é muito menos provável que os americanos se casem do que no passado."

A queda dos casamentos se acentuou com a crise econômica. Rose Kreider, demógrafa do Departamento do Censo especializada em estatística das famílias, observou, no ano passado, que 7,5 milhões de casais conviviam sem ter casado, um salto de 13% em apenas um ano.

Muitas pessoas tinham um parceiro que perdera o emprego ou não podiam manter duas casas. A maioria dos jovens de nível universitário acabará casando. Cerca de duas em cada três pessoas desse nível agora estão casadas, em comparação com menos da metade dos que completaram o ensino médio.

"Eles podem contar com duas rendas, casar e ter uma vida boa", disse Cherlin. "As pessoas que não têm nível universitário estão tendo dificuldade para arranjar emprego e relutam em casar."

Educação. Bradford Wilcox, diretor do National Marriage Project, da Universidade de Virginia, disse que o casamento está desaparecendo mais rapidamente nas comunidades cujos habitantes têm um grau de instrução menor.

"A metade dos nascimentos de mães com formação de nível médio ocorre fora do casamento", disse. "Nesse grupo, chegamos a um ponto decisivo. O casamento está perdendo terreno entre os americanos médios. Eles viviam bem até a década passada, mas agora enfrentam dificuldades. As pessoas de nível universitário é que estão vivendo muito bem."

Matt Statler é uma dessas pessoas. Aos 29 anos, tem a idade média com a qual os homens se casam. "Gostaria de me casar algum dia", disse o contador, que trabalha como DJ à noite em bares, clubes e casamentos na região de Washington. "Mas não tenho pressa nenhuma."

Nessa fase da vida, ele afirmou que quer cuidar de sua carreira, aperfeiçoar-se em fotografia, conhecer o mundo e não acha que deveria dedicar seu tempo a um compromisso duradouro. "É mais fácil sair com uma pessoa e não investir emocionalmente em alguém porque, nesse momento, meus objetivos são outros."

Statler voltou para casa, no Estado de Virginia Ocidental, para o feriado de Ação de Graças. Seus pais, que se casaram quando tinham pouco mais de 20 anos, não o pressionam a casar - embora sua mãe venha falando em casamentos e filhos com sua irmã, que recentemente passou a morar com o namorado. "Morar junto é um primeiro passo mais seguro", afirmou.

Os que pertencem à geração nascida em uma época em que a taxa dos divórcios aumentou consideravelmente, nos anos 70 e 80, dizem que ver os pais se separarem os convenceu a não ter pressa.

"Meus pais se divorciaram, assim como a maioria dos pais dos meus amigos", disse a advogada Kate Schorr, cujo pai a aconselhou a ficar solteira até pelo menos 35 anos. "O importante é não entrar em uma relação irrefletidamente e cometer um erro. Muitos de nós viram os pais cometerem erros. Nós preferimos ir devagar, para termos a certeza de que não cometeremos os mesmos erros." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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