Os americanos como costumam ser

Os EUA deveriam parar de tentar jogar xadrez no Oriente Médio e simplesmente cumprir as promessas feitas

David Brooks*, The New York Times

31 de janeiro de 2015 | 02h02

Em meados de 2013, os Estados Unidos começaram a apoiar rebeldes moderados em ação na Síria. Os Estados Unidos deram a eles apoio suficiente para traí-los.

Como Adam Entous escreveu num artigo publicado pelo Wall Street Journal, esta semana, os americanos prometeram apoio aos combatentes, mas posteriormente nunca se mostraram dispostos a ir até o fim com a promessa. A CIA forneceu aos rebeldes apenas entre 5 e 20% das armas que eles solicitaram.

Um comandante que merecia nossa confiança pediu mais de mil fuzis e recebeu 36. Outro comandante obteve o equivalente a 16 balas por mês por combatente. Os rebeldes capturaram dezenas de tanques, mas a CIA não forneceu os recursos necessários para a compra de combustível ou artilharia, de modo que os tanques não saíram do lugar.

Indecisão. Os rebeldes pediram munição à CIA para aproveitar de eventuais oportunidades, mas, em alguns casos, a CIA chegou a levar duas semanas para decidir se forneceria. Os EUA deram dinheiro aos rebeldes para o pagamento das tropas, mas cada combatente percebeu apenas US$ 100 ou US$ 150 por mês. O Estado Islâmico pagou o dobro a seus combatentes.

A CIA tinha pavor de que as armas fornecidas caíssem nas mãos do inimigo, por isso manteve um rigoroso controle do armamento sofisticado, paralisando qualquer avanço. Comandantes de confiança tinham de filmar os disparos de mísseis antitanque. E eram obrigados a entregar todos os lançadores disparados num ponto ao longo da fronteira para ter direito a novos suprimentos.

"Percorremos a Síria sob a bandeira americana, mas não dispomos de fuzis AK-47 para nos protegermos", afirmou um combatente a parlamentares americanos.

"Por que vocês nos deram esperança se não pretendiam fazer nada?", questionou outro. "Achávamos que indo com os americanos poderíamos dispor de armas potentes", declarou o combatente numa reunião. "Estávamos errados."

Todo o artigo do Wall Street Journal dá a impressão de que o Estado Islâmico não só é muito mais determinado do que os Estados Unidos e suas agências de inteligência, como sua liderança é mais ágil e competente.

O fato de os Estados Unidos terem traído os rebeldes em 2013 e 2014 não passa de uma pequena traição, em comparação com a traição dos valores que poderia ocorrer de maneira não intencional. Parece que os Estados Unidos começaram a desistir de se opor ao presidente sírio, Bashar Assad, o assassino de massas cujo regime bárbaro é uma das principais causas de instabilidade nesta parte do mundo.

No esforço dos Estados Unidos de contenção do Estado Islâmico, na esperança de melhorar as condições nas conversações sobre armas nucleares com o Irã, talvez o governo americano esteja inaugurando efetivamente uma aliança com Bashar Assad.

Agora, é óbvio que a Síria é um ninho de cobras numa região em que as escolhas costumam se dar entre o chocante e o horrendo. Mas há maneiras de abordar os problemas da região, e outras em que não é possível.

A questão do Oriente Médio não deve ser abordada partindo da ideia de que a região é um tabuleiro de xadrez no qual os senhores da política externa americana podem impor seus desígnios. Este excesso de confiança leva os responsáveis pelas decisões a desperdiçar sua autoridade moral prometendo, num mês, destruir Assad, e, no mês seguinte, dar todo o apoio a ele.

É um excesso de confiança que leva a regular de maneira excessivamente hábil o apoio dos Estados Unidos aos rebeldes moderados - fornecendo-lhes suporte suficiente para dar-lhes a ilusão de fazer algo real, enquanto, na realidade, Washington não dá o bastante para que façam algo relevante.

O Oriente Médio não é um tabuleiro que os americanos têm o direito de manipular. É um drama de gerações em que os Estados Unidos só podem exercer seu papel. É um drama de ideias, um confronto entre as forças do jihadismo e as forças do pluralismo. Os Estados Unidos não podem saber como este drama se resolverá, assim como não podem influir no resultado. O governo de Washington só pode promover o pluralismo - de maneira simples, persistente e coerente.

Permanecer firme nos valores implica manter uma posição simples de apoio a pessoas que os compartilham e uma simples posição de oposição aos que são contrários a eles. Implica oferecer pelo menos algum suporte financeiro confiável a combatentes e ativistas moderados, mesmo quando suas perspectivas parecerem sombrias. Implica evitar alianças cínicas, pelo menos na medida do possível. Implica usar bombardeios sistemáticos a fim de tentar evitar massacres.

Moderação. Se os Estados Unidos fizerem isso, fortalecerão um povo que desconhecem de maneiras que nem sequer imaginamos. No longo prazo, os EUA tornarão o Oriente Médio um pouco mais fértil para aceitar a moderação, a única influência de que Washington dispõe em termos mais realistas. As ideias impulsionam a história.

Neste momento, existe uma inconsequência bipartidária a respeito da eficiência do governo americano. Os republicanos acham que o governo é um instrumento desajeitado do ponto de vista interno, mas um magnífico instrumento lá fora.

Os democratas, por sua vez, acham que o governo é um magnífico instrumento do ponto de vista interno, mas desastrado lá fora. Na realidade, o governo é melhor quando opta pelas coisas regulares e simples em relação às coisas inteligentes e complexas. Quando não conhecemos o futuro e não podemos controlar os acontecimentos, devemos apostar nas pessoas. Apoiar os bons, e opor-se aos maus.

Compromissos realistas inacabados que enfraquecem os aliados dos Estados Unidos e jogos demasiado inteligentes que favorecem os inimigos do país equivalerão a um tiro pela culatra - e redundarão em traições que serão motivo de vergonha para o país. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*É COLUNISTA

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