Os americanos e os genocídios

Combater crimes contra a humanidade não é de interesse primordial para a segurança interna dos EUA

DRUVA, JAINSHANKAR, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2014 | 02h04

Ed Henry, da emissora Fox News, fez recentemente uma pergunta ao porta-voz da Casa Branca, Josh Earnest, sobre a decisão do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, de autorizar o uso da força contra o Estado Islâmico. "Evitar um genocídio é de interesse primordial para os EUA?"

A pergunta teve grande repercussão no fim daquele dia, quando Obama justificou a ação militar no Iraque "para impedir um ato potencial de genocídio", quando o grupo radical mantinha sitiados milhares de membros da etnia yazidi no Iraque.

Earnest fez uma pausa. Muito incoerente, ele afirmou, sem muita convicção, evocando um dos mais persistentes truísmos da política externa americana: "Naturalmente, os EUA têm sido e continuarão sendo um exemplo de liberdade e de respeito aos direitos humanos fundamentais para todo o globo. E esse é um princípio primordial desse país. Um princípio que homens e mulheres lutaram e morreram para proteger."

Para a atual geração, impedir o genocídio no mundo é e sempre foi de interesse dos EUA. Dos apelos por uma intervenção na Síria, ao ativismo em torno do Salve Darfur, até a atenção voltada para a violência muçulmana em Mianmar, observamos uma crença generalizada de que os EUA devem intervir nas regiões problemáticas.

Washington, contudo, sempre manteve um péssimo histórico tratando-se de impedir genocídios e limpezas étnicas e isso não deve mudar. Com algumas exceções, a resposta americana a crises graves, desde que surgiu como uma grande potência, nos anos 1870, variou de um apoio e indiferença tácitos a uma condenação após o fato ocorrer.

O primeiro exemplo disso foi, provavelmente, nos anos 1880, quando o então presidente Chester A. Arthur reconheceu e apoiou a reivindicação da República Democrática do Congo (antigo Zaire) contra o rei Leopoldo, da Bélgica. O governo brutal do rei belga, a violência indiscriminada contra as populações locais, as mutilações e punições coletivas, foram responsáveis pela morte de alguns milhões de congoleses.

Apesar de décadas de pressão para que os EUA assumissem uma posição mais dura contra o rei belga, Washington relutou. Teddy Roosevelt, presidente de 1901 a 1909, declarou que "era uma impossibilidade física interferir" e qualificou como "imbecil" a ideia de uma campanha em favor da intervenção.

Nas décadas subsequentes, presidentes americanos mais isolacionistas do que Roosevelt recusaram-se a interferir para refrear as atrocidades japonesas na Ásia Oriental, o genocídio dos armênios pela Turquia ou o assassinato em massa de civis pelos colonizadores europeus em regiões como o Sudeste Asiático.

A deportação forçada ordenada por Joseph Stalin de 6 milhões de integrante de minorias na União Soviética, na década de 30 - uma limpeza étnica, na verdade -, não diminuiu a admiração que muitos membros do alto escalão do governo americano nutriam por ele, incluindo o vice-presidente de Roosevelt, Henry Wallace (que mais tarde tentou se redimir publicando um artigo intitulado Where I Was Wrong; "em que eu errei", em tradução livre).

E quanto ao Holocausto? Os esforços de guerra dos EUA seguramente contribuíram para a derrota da Alemanha nazista e para pôr fim ao mais terrível genocídio industrializado da história. No entanto, o que o conhecimento popular americano não alcança com frequência é que, em 11 de dezembro de 1941, foi Adolf Hitler que declarou guerra aos EUA - e não o contrário. As intenções humanitárias dos EUA, apesar do conhecimento de Auschwitz e de outros campos de concentração - foram muito tardias.

E piorou. Os EUA conseguiram vencer a Guerra Fria contra a União Soviética e preservar sua instância moral elevada. No entanto, essa fase pode ter caracterizado o nível mais baixo dos EUA sobre genocídios e limpeza étnica. Como disse o professor de Princeton, Gary J. Bass, em seu livro de 2013, The Blood Telegram (O Telegrama Sangrento), Richard Nixon e Henry Kissinger tacitamente apoiaram a limpeza étnica empreendida pelo Exército paquistanês do Paquistão Oriental (hoje Bangladesh), na década de 70, quando pelo menos 300 mil pessoas morreram. Foi somente depois de uma intervenção oportunista da Índia, em 1971, que as Nações Unidas condenaram unanimemente e os assassinatos em massa cessaram.

Quando o Khmer Vermelho estabeleceu seu regime de terror no Camboja, de 1975 a 1979, com a morte de 25% de sua população de cerca de 7 milhões de pessoas - proporcionalmente, o maior genocídio do século 20 -, Washington manteve-se longe.

Em razão de seus interesses políticos em direção a uma abertura para a China e uma rejeição à União Soviética e ao Vietnã, Washington adotou o uma estratégia política de não intervenção, moralmente indefensável. Os EUA foram até críticos da invasão, em 1978-1979, do Camboja por um Vietnã pró-soviético que pôs fim ao reinado de Pol Pot.

Similarmente, quando Saddam Hussein usou armas químicas e convencionais para matar 100 mil curdos no Iraque, em 1988, Washington, que começou a se aproximar de Bagdá, país que combatia um adversário comum - o Irã -, não impôs nenhuma sanção, muito menos interferiu.

Foi a mesma estratégia de não envolvimento adotada no caso do genocídio em Ruanda, em 1994, quando a supremacia global dos EUA era incontestável. Muitos, incluindo a conselheira de Segurança Nacional, Susan Rice, então uma jovem funcionária do Conselho de Segurança Nacional, encarregada de forças de manutenção da paz e de organizações internacionais, achavam que Washington podia e devia ter impedido aquele genocídio, quando membros da etnia hutu assassinaram mais de meio milhões de tutsis em poucos meses.

Face a sua trajetória de um século em que preferiu a não intervenção, a campanha na Iugoslávia, em 1999, que os EUA lideraram para pôr fim à limpeza étnica dos albaneses do Kosovo pelos sérvios, foi uma anomalia. Mesmo nesse caso, alguns outros fatores foram levados em consideração por Washington: a decisão dos países europeus ocidentais de intervir, o antagonismo de Washington com relação ao presidente iugoslavo Slobodan Milosevic e a superioridade militar americana avassaladora - além do altruísmo.

Posteriormente, o fato de os EUA não conseguirem evitar a limpeza étnica em Darfur, no Sudão, na República Centro-Africana ou no Congo foi deprimente. Por que então tantos americanos se apegam à crença de que evitar o genocídio é ou deve ser de interesse interno primordial?

Ilusão. Parte dessa ilusão provém da imagem que o país tem de si próprio como uma superpotência moral, combinado com o sucesso inequívoco da campanha de bombardeios da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nos Bálcãs, em 1999. É difícil subestimar a influência de um livro de 2002, Genocídio, de Samantha Power - hoje embaixadora americana nas Nações Unidas - sobre a comunidade de política externa. O livro, que chama a atenção para o medíocre desempenho dos EUA no campo da prevenção de genocídios, resultou muito mais num revisionismo histórico do que em mudanças.

Nenhuma dessas histórias lamentáveis sugere que os EUA não têm princípios morais nas suas relações internacionais. Nem significa que Washington não deva ajudar os yazidis ou outros grupos minoritários vítimas da selvageria do Estado Islâmico. Trata-se de chamar os líderes americanos a levar em conta interesses, capacidades, custos e riscos para o seu país. No entanto, sejamos claros: acabar com um genocídio não é de interesse primordial para a segurança interna dos EUA e nunca foi. Entender isso seria melhor do que enviar falsas esperanças para minorias perseguidas ao redor do mundo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É MEMBRO DO GERMAN MARSHALL

FUND, DE WASHINGTON

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