'Os americanos estão certos sobre a Síria'

Especialista fala sobre perda de influência dos EUA no Oriente Médio e diz que intervenção militar na Síria é uma péssima ideia

Entrevista com

ROBERTO SIMON, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h06

Foi com alívio que Steven Walt, professor de Harvard, recebeu a notícia da abertura diplomática da Rússia que evitou uma intervenção militar na Síria. O problema, diz Walt, é que Barack Obama não sabe o que quer - eliminar o arsenal químico sírio ou derrubar o regime de Bashar Assad? Os americanos, porém, entendem que dizer quem manda em Damasco não é do interesse dos EUA e, portanto, não justifica uma nova intervenção. Walt esteve na semana passada em São Paulo, onde conversou com o Estado.

Um acordo para eliminar as armas químicas de Assad lhe inspira otimismo?

Não sei se estou otimista, mas certamente é uma grande oportunidade. É uma chance de o governo Obama sair de uma posição complicada na qual se meteu. Mas não será fácil articular um acordo que envolva todas as armas químicas da Síria, muito menos fazer isso rapidamente. A principal questão é se os EUA centrarão o foco apenas nas armas químicas, tomando o tempo que for necessário para submetê-las a um controle externo e eliminá-las, ou se nosso verdadeiro objetivo é tirar Assad do poder. A resposta à essa pergunta eu não sei e, provavelmente, teremos ela em breve.

O problema, então, é mais político do que técnico?

É tanto político quanto técnico, pois livrar a Síria de armas químicas exige um grande esforço. Assad tem muitas dessas armas e elas estão escondidas em vários lugares. Ter certeza de que todas foram descobertas leva tempo, é preciso preparar o trabalho das pessoas que entrarão para fazer essas inspeções e devem ser inspetores em quem confiamos. São detalhes técnicos. Mas há ainda questões políticas. Mesmo se conseguirmos uma solução completa para o problema das armas químicas, haverá ainda uma guerra civil em curso. A primeira questão não muda em nada a segunda. Mil pessoas morreram com armas químicas. Outras 100 mil foram mortas com armas convencionais.

Por que o sr. discorda do argumento de Obama de que é preciso punir Assad pelo uso de armas químicas ou a credibilidade dos EUA estará comprometida?

O fato de recorrermos às armas em uma situação assim, que não é do interesse nacional, não diz nada sobre o que faremos diante de questões que são realmente importantes. Se escolhermos não usar a força na Síria, porque entendemos que é uma má ideia, não significa que deixaremos de recorrer a meios militares quando nossos interesses estiverem em jogo. E há um segundo elemento: os EUA lutaram cinco guerras desde 1990, usam drones e outros instrumentos militares em vários países, mataram Osama bin Laden. É improvável que alguém questione a credibilidade dos EUA. A ideia de que temos de continuar a atacar outros países para mantê-la é pouco inteligente.

E em relação ao argumento do "excepcionalismo" americano?

Discordo da ideia de que os EUA têm o direito de fazer certas coisas porque são "especiais". Muitas das grandes potências ao longo da história acreditavam ser "especiais": a Grã-Bretanha, por exemplo, via seu papel no mundo como excepcional. Os EUA são diferentes porque nunca na história um país teve tanto poder. Mas isso não significa que ele tem o direito ou a obrigação de agir sempre. O perigo de ver os EUA como especiais é que começamos a pensar que somos mais inteligentes ou que conhecemos melhor nossos objetivos ou temos uma nobre missão. Isso nos leva a situações desastrosas, como a guerra no Iraque, onde deixamos trilhões de dólares, perdemos milhares de soldados e causamos imenso sofrimento aos iraquianos.

Pesquisas mostram que a maioria nos EUA é contra a intervenção. É o legado do Iraque?

O sofrimento humano cria empatia e um desejo de fazer algo. Mas isso é só o começo. A segunda etapa é uma avaliação cautelosa sobre qual é o melhor caminho a ser seguido, de modo a alcançar objetivos. No caso sírio, os americanos estão dizendo duas coisas: primeiro, determinar quem deve governar a Síria não é do nosso interesse. Segundo, o argumento moral não faz tanto sentido, pois é possível que uma intervenção piore ainda mais a situação. A visão dos americanos é muito clara e positiva - e melhor do que a de muita gente em Washington.

A instabilidade provocada pela Primavera Árabe acelerou a perda de influência dos EUA na região. Isso é inevitável?

A capacidade dos EUA em determinar tendências sociais e políticas no Oriente Médio nunca foi grande. Nem mesmo no após a 2ª Guerra ou nos anos 90. O que fomos capazes de fazer foi manter relações com governos específicos, de modo que, sob certos aspectos, eles cooperassem em troca de apoio. Portanto, havia uma relação próxima com o governo Hosni Mubarak. A Arábia Saudita é outro exemplo. Mas isso não significa que éramos capazes de controlar a evolução política dentro desses países. Com a Primavera Árabe, quando houve uma explosão política, ficou ainda mais difícil para os EUA tentar gerenciar a situação.

E o que isso significa?

Há uma notícia boa para nós: não precisamos ter o controle da região e estaremos muito bem independentemente de como esses lugares evoluírem. Os EUA não precisam controlar o Oriente Médio para estarem seguros. Temos apenas de tomar cuidado para que nenhum outro país, hostil aos EUA, consiga, sozinho, controlar toda a região. Mas isso é fácil, pois ninguém está perto disso. Nem o Irã, nem a China - a URSS tampouco pôde.

Sobre a espionagem dos EUA no Brasil, se o sr. fosse assessor da presidente Dilma Rousseff, aconselharia ela a cancelar a visita a Obama?

Não sei se os EUA estavam deliberadamente mirando empresas como a Petrobrás ou se foi um caso em que a Agência Nacional de Segurança agiu fora de controle, coletando uma quantidade imensa de informações sobre tudo e isso atingiu também alvos brasileiros. Não ficaria surpreso em descobrir que foi o segundo cenário. Será que valeria o risco de ser pego espionando brasileiros dessa forma e colocar em xeque a relação? Foi uma trapalhada americana. Sobre meu conselho, diria a ela para ir a Washington e transformar essa questão num tema da agenda internacional.

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