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Os árabes contra Assad

Se for adotada em dezembro, resolução da ONU não terá valor coercitivo

É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, É CORRESPONDENTE EM PARISGILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2011 | 03h04

PARIS - No oitavo mês de massacres cometidos pelo governo de Bashar Assad contra seus cidadãos rebelados, os europeus tentam erigir uma barreira contra o sangue que corre no país - 3.500 pessoas foram mortas pelos soldados de Damasco.

 

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A pedido de França, Grã-Bretanha, Alemanha e outros países, a ONU voltou a debater a tragédia síria. Desta vez, porém, não foi no Conselho de Segurança - pois o provável veto de China e Rússia bloquearia o escrutínio -, mas sim na Assembleia-Geral, na qual reuniu uma ampla maioria contra a Síria. Mas sabe-se que uma resolução, no caso de ser adotada em meados de dezembro, não terá valor coercitivo.

No entanto, há algo mais crucial na tragédia síria: o fato é que a crise redistribuiu as cartas no Oriente Médio. Há apenas nove meses, as alianças nessa região agitada eram complexas, intrincadas, instáveis e duvidosas. Hoje estão claras, com dois blocos opondo-se: de um lado, o eixo constituído pelo Irã, xiita, dos aiatolás e do presidente Mahmoud Ahmadinejad, e pela Síria de Assad. De outro, um novo bloco que se estruturou: o dos países árabes levados contra a Síria e o Irã pela Arábia Saudita e o Catar - ambos sunitas. A Turquia, embora não seja um país árabe, também assumiu posição contra o eixo Irã-Síria.

Fazendo uma retrospectiva: em 1980 foi formada a aliança entre sírios e iranianos, de modo a proporcionar ao Irã, xiita, a possibilidade de entrar no conflito entre israelenses e árabes e colocar um pé no Líbano, financiando o Hezbollah - uma milícia e, ao mesmo tempo, um movimento político xiita. Eis a razão pela qual, desde o início das rebeliões na Síria, o Irã jamais mediu seu apoio a Assad. Os revolucionários sírios que enfrentam as tropas de Assad asseguram que a Guarda Revolucionária do Irã está ajudando o Exército sírio a manter a ordem.

A Arábia Saudita é a principal potência do mundo sunita e aliada privilegiada, nessa zona, dos Estados Unidos. Há muito tempo estava acomodada com o regime sírio, pois a Síria era a "ponta de lança" da frente que rejeita Israel. Mas hoje, inquietos com as ambições hegemônicas do Irã, os sauditas estão decididos a eliminar o eixo Damasco-Teerã. Assim, no âmbito da Liga Árabe, Riad, com apoio do Catar, defendeu uma posição dura contra a Síria: a adoção de sanções e a retirada do embaixador da Arábia Saudita em Damasco.

A Turquia também participa da ofensiva contra a Síria, mas por outras razões. Embora há alguns anos os dois países estivessem muito próximos, agora Ancara se distancia de Damasco. Por quê? O governo islâmico moderado de Ancara denuncia a repressão cega da Síria contra os rebelados.

É bom não esquecer que a Turquia apoia uma parte da oposição síria no exílio - especialmente a Irmandade Muçulmana. E, sobretudo, Ancara teme a explosão de uma guerra civil nas proximidades de sua fronteira.

É por isso que a Turquia está disposta a adotar sanções econômicas contra aquele país. E pretende estabelecer uma "zona-tampão" no norte da Síria cuja finalidade seria acolher refugiados sírios fugindo da repressão selvagem de Assad.

Assim, os problemas que afligem a Síria há oito meses deverão ter um efeito capital: preparar um confronto, esperado há anos, entre a Arábia Saudita sunita e o Irã xiita. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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