Os BRICs e o segundo mandato de Obama

Análise: Oliver Stuenkel

É PROFESSOR-ASSISTENTE DE RELAÇÕES , INTERNACIONAIS DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h09

A ascensão dos BRICs diante do declínio relativo das potências estabelecidas foi o fenômeno internacional mais marcante durante o primeiro mandado de Barack Obama. O grupo de países com poderes para influir nas relações internacionais tem se tornado menos ocidental, mais ideologicamente diverso e com menos interesses comuns.

O presidente precisa, no segundo mandato, adaptar a política externa americana a um cenário geopolítico pouco semelhante ao de 2009, ano em que ele assumiu a presidência.

A análise dos últimos quatro anos nos proporciona uma maior consciência da dimensão das transformações geopolíticas recentes. Em 2008, quando Obama foi eleito, poucos previram a escala da crise econômica que viria impactar as economias mais avançadas do mundo. Em junho de 2009, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, da Rússia, Dimitri Medvedev, da China, Hu Jintao e o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, reuniram-se para a primeira Cúpula de Líderes dos BRICs na Rússia. Apenas alguns meses depois, no que foi a evolução mais profunda de governança econômica global em quase duas décadas, o G-20 estabeleceu-se como a principal plataforma de discussão da economia global.

Em 2010, o Conselho Diretor do FMI aprovou uma histórica reforma de cotas, que fez com que os BRICs adquirissem um grau de influência sem precedentes, que melhor reflete a distribuição global de poder econômico. Em 2012, na reunião dos líderes do G-20 em Los Cabos no México, os BRICs concordaram em contribuir com mais de US$ 70 bilhões com o FMI, evidenciando sua relevância no sistema econômico.

'Revolução participativa'. Juntos, a emergência da Cúpula dos BRICs, o G-20 e as reformas do FMI levaram a uma "revolução participativa" nas relações internacionais, algo que teria sido impensável em 2008. Em 2011, todos os BRICs estavam presentes no Conselho de Segurança da ONU, o que implicou envolvimento crescente em questões geopolíticas, tal como a crise na Líbia.

No ano anterior, o Brasil surpreendeu muitos e irritou alguns ao intermediar, juntamente com a Turquia, um acordo nuclear com o Irã, um passo visto como a emergência definitiva do Brasil como ator global. Em contrapartida, os EUA, mergulhados na crise econômica, focaram em retirar-se de dois custosos envolvimentos militares no Iraque e no Afeganistão, pondo fim a uma "década perdida" na qual gastaram demasiada atenção na guerra ao terror em vez de focar na ascensão da China e de outras potências emergentes.

O presidente Obama demonstra ser muito mais consciente desta situação do que era seu oponente republicano, Mitt Romney, que insistia que o excepcionalismo americano deveria continuar sendo o princípio orientador da política externa dos EUA.

Ainda assim, mesmo Barack Obama pode fracassar em convencer o governo americano a responder a essa nova situação de forma adequada. Por exemplo, temendo um retrocesso doméstico antes das eleições presidenciais e legislativas, a administração de Obama relutou até agora em colocar as reformas do FMI em votação, impedindo sua implementação. Isso enfraqueceu a legitimidade das instituições Bretton Woods, um pilar-chave do sistema internacional.

A relutância e a hesitação dos Estados Unidos demonstram notável falta de visão: embora insistir no status quo produza benefícios no curto prazo para o país, essa atitude aumenta o déficit de confiança entre o "Norte Global" e os BRICs, o que fortalece a tese daqueles em Pequim, em Nova Déli e Brasília que argumentam que as instituições existentes são demasiadamente rígidas e, portanto, precisam ser questionadas. Como consequência, a maioria das elites políticas nas capitais das potências emergentes não acredita que os Estados Unidos realmente aceitem a maior participação dos BRICs.

Ainda que o processo de multipolarização seja inevitável, existe a possibilidade de uma desaceleração nos próximos anos.

O crescimento econômico dos BRICs, mesmo no Brasil, será mais baixo do que nos últimos quatro anos, reduzindo seu dinamismo e sua capacidade de fortalecer sua presença internacional.

Além disso, a recente experiência brasileira como membro não permanente do Conselho de Segurança foi turbulenta, e o levou a repensar sua estratégia assertiva.

Uma paralisação política na Índia e na África do Sul, um declínio demográfico na Rússia e uma complexa transição de poder na China farão com que o foco dos líderes do mundo emergente seja principalmente no plano doméstico.

Ainda assim, Barack Obama terá que exercer a liderança no plano doméstico e convencer seu eleitorado de que envolver os BRICs é a única maneira de assegurar que as instituições internacionais permaneçam funcionais. Nas próximas décadas, reformas muito mais profundas das estruturas internacionais terão que ser implementadas para que estas possam manter sua legitimidade e eficiência no século 21. O difícil processo de adaptação a uma nova realidade apenas começou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.