Os candidatos britânicos e a saga de debates na TV

A estratégia de cada um dos três e as dez perguntas que até agora ninguém fez para o premiê Gordon Brown, para o conservador David Cameron e para o liberal Nick Clegg

Timothy Garton Ash, The Guardian, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2010 | 00h00

Os olhos captam tudo. O nariz, os gestos das mãos, a linguagem corporal, a maneira de olhar para a câmera, a percepção de um recém-chegado pouco conhecido pelo público, que desafia os "velhos partidos". Tudo, enfim, salvo os detalhes de seu programa de governo. Foi por esse motivo, dizem, que Nick Clegg ganhou o primeiro debate televisivo e trouxe nova vida à disputa eleitoral na Grã-Bretanha.

Isto ficou ainda mais claro no debate da noite de quinta-feira, porque as divergências entre os três candidatos - Clegg, o premiê Gordon Brown e o conservador David Cameron -, em questões internacionais são pequenas.

Na realidade, trabalhistas e conservadores foram favoráveis à Guerra no Iraque, os liberais democratas foram contra. Isto continua sendo muito importante. Conservadores e trabalhistas se comprometeram a substituir os submarinos nucleares Trident por outros semelhantes, mas os liberais democratas foram contra.

Portanto, nos discursos de campanha, os liberais democratas serão acusados de querer "abandonar nossa arma de dissuasão nuclear", embora, na realidade, eles estejam dispostos a prolongar a vida do Trident, colocando-o na mesa das discussões multilaterais sobre desarmamento nuclear de Barack Obama.

Quatro ex-comandantes de alta patente do Exército britânico acabam de afirmar que o futuro no nosso sistema de dissuasão nuclear deve fazer parte da revisão de defesa estratégica. Clegg e Brown podem tentar derrotar Cameron usando suas declarações pouco diplomáticas a respeito da ascensão da China, como um dos motivos pelos quais a Grã-Bretanha precisa manter suas armas nucleares.

Cameron e Clegg podem alinhar-se para derrotar Brown em sua possível cumplicidade com o MI5 (serviço de inteligência britânico) nas torturas e no fornecimento de equipamentos inadequados para nossas tropas. Talvez haja entre os três, contudo, alguma indecisão quanto a cronogramas de saída do Afeganistão.

Liberais. As verdadeiras divergências em matéria de política são muito menores do que os candidatos fingem que são. Muita tempestade está sendo feita em copo d"água. O manifesto dos conservadores fala até de "uma política externa liberal conservadora". "Nós sempre apoiaremos os valores liberais", dizem os conservadores, defendendo os direitos humanos universais, a democracia e uma ajuda ao desenvolvimento equivalente a 0,7% da renda nacional. Na Grã-Bretanha, agora somos todos liberais.

Menos quando se trata da Europa. Neste caso, Cameron terá de fazer uma escolha tática ardilosa. Claramente, ele está desesperado para atrair de volta os liberais conservadores indecisos que pensam em apoiar os liberais democratas. Suas três cartas principais nessa estratégia são a imigração, a Europa e o medo de um Parlamento sem maioria.

A imigração é o ás. A Europa é o rei, mas também, possivelmente, o curinga. Sim, provavelmente, Cameron poderá vencer Clegg e Brown descrevendo-os como eurófilos sem espinha dorsal. Ou como "macacos comedores de queijo", xingamento referente aos franceses. Ou ainda, como nas palavras de Boris Johnson, "fetichistas amantes do euro". Indubitavelmente, é possível que certas citações embaraçosas de Clegg sobre o euro sejam tiradas da manga de Cameron. O que poderá trazer de volta ao ninho alguns conservadores fujões.

No entanto, falar demais da Europa traz todos os riscos que levaram os conservadores a minimizar a questão até o momento. Seus discursos bombásticos sobre o bloco fizeram com que eles perdessem eleições no passado. Isto lembra aos eleitores, mesmo que de maneira subliminar, os dias amargos de Margareth Thatcher e Norman Tebbitt. É o oposto da mensagem de "mudança" que querem transmitir.

Não se deve esquecer de uma pesquisa de opinião, divulgada no ano passado, que aponta que 43% dos candidatos conservadores foram favoráveis à retirada do país da UE. A pergunta que Cameron e William Hague, outro líder conservador, acham tão difícil responder é: Se a UE é tão ruim, por que vocês querem continuar nela? Portanto, durante os debates que estão sendo transmitidos pela TV, é preciso perguntas inteligentes para mostrar as verdadeiras divergências entre os partidos e as questões concretas para o futuro papel da Grã-Bretanha no mundo. Imaginei dez perguntas para eles escolherem.

1 - Se vocês soubessem naquela época o que sabem agora, teriam ido para a guerra no Iraque? David Miliband respondeu "não" a essa inteligente pergunta de Andrew Neill em um dos debates da BBC entre os três candidatos a ministro das Relações Exteriores. Seria bom ter uma resposta clara de Brown e de Cameron.

2 - Deveria haver uma investigação judicial independente sobre a possível cumplicidade nas torturas dos serviços de inteligência e de segurança da Grã-Bretanha? Sim.

3 - Por quantos dias deveria ser permitido deter pessoas sem processo? A questão tem a ver com as liberdades civis e com a segurança. Permitiria que os três líderes dissessem como combateriam o terrorismo.

4 - Será do interesse nacional da Grã-Bretanha continuar na União Europeia como está hoje? Cameron também quer explorar essa questão. As últimas três palavras são vitais, porque "como está hoje" significa com o Tratado de Lisboa. Os conservadores dizem que querem de volta os poderes que cederam à UE sobre justiça penal e social e legislação trabalhista, bem como assegurar as "garantias" referentes à Carta de Direitos Fundamentais.

5 - Para Cameron: Como o sr. combateria o terrorismo, o crime e a imigração ilegal se optasse por sair da Europol, da Eurojust e de todas as outras quase 90 formas de cooperação europeia nessa área? Os conservadores admitem que esse é um problema. Depois dos ataques de 7 de julho em Londres, os investigadores da Europol deixaram que os bombeiros da capital procurassem conexões. Um dos conspiradores foi trazido de volta da Itália com um mandado de prisão europeu.

6 - Sobre que questão europeia deveríamos realizar um referendo? Boa oportunidade para todos se manifestarem, até mesmo os conservadores, que defendem um "bloqueio de referendos".

7 - A Grã-Bretanha deveria aderir ao euro?

8 - A Grã-Bretanha teria se mostrado servil demais em seu relacionamento com os EUA na década passada? Essa pergunta permitiria aos líderes dar a sua opinião sobre nossa aliança com Washington.

9 - Poderia caracterizar, em uma única frase, qual deveria ser o papel da Grã-Bretanha no mundo? "Um centro global de irradiação", respondeu Miliband, quando fiz a mesma pergunta aos três candidatos a ministro das Relações Exteriores. William Hague se saiu com essa: "Estou procurando uma palavra melhor para centro." "Adulador", respondeu o liberal democrata Ed Davey.

10 - Por fim, o sr. conseguiria soletrar Eyjafjallajökull? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É HISTORIADOR E ESCRITOR

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