Os cenários da guerra que Obama travará no Afeganistão

Artigo

Peter Bergen Katherine Tiedemann*, THE WASHINGTON POST, O Estadao de S.Paulo

18 de fevereiro de 2009 | 00h00

A guerra no Iraque pertencia a George W. Bush, mas o conflito que agora engloba Paquistão e Afeganistão vai provavelmente se tornar a guerra de Barack Obama. Será que os soldados que ele enviará ao Afeganistão serão tragados para dentro do "cemitério dos impérios", como aconteceu com os britânicos e soviéticos que os antecederam? Ou será que a guerra de Obama pode, afinal, trazer paz e estabilidade à região? Eis aqui algumas das tendências mais importantes para a determinação da resposta.ECONOMIA DE FORÇASDesde a queda do Taleban, o Afeganistão foi tratado como uma operação de "economia de forças" (nas palavras do almirante Michael Mullen, presidente do Estado-Maior Conjunto). Recebemos em troca aquilo pelo que pagamos: a insegurança aumentou conforme o número de soldados continuou insuficiente. Mas, atualmente, a quantidade de soldados americanos e da Otan é a maior jamais registrada no Afeganistão. AUMENTO DA VIOLÊNCIAEnquanto isso, tanto a polícia quanto o Exército afegãos estão crescendo, após um início extremamente lento. Ainda assim, o país está menos seguro, conforme indica o aumento no número de ataques suicidas realizados pelo Taleban e pela Al-Qaeda. A violência jihadista também aumentou muito no Paquistão, onde os atentados suicidas apresentaram um verdadeiro surto nos últimos dois anos. Muitos americanos menosprezaram os esforços paquistaneses no combate ao Taleban, mas vale destacar que 1.347 soldados paquistaneses morreram combatendo o grupo entre 2001 e 2008. E cerca de 100 mil soldados paquistaneses vigiam a fronteira com o Afeganistão. REDUÇÃO DE APOIOO apoio dos afegãos aos esforços americanos em seu país está diminuindo, mas a desilusão com os EUA não significa uma afeição pelo Taleban. Uma recente pesquisa indicou que apenas 7% dos afegãos apoiam os combatentes islâmicos.O Paquistão continua sendo um dos países mais antiamericanos do mundo: a aprovação dos EUA entre os paquistaneses é de 15%, enquanto Osama bin Laden se mostra um pouco mais popular.AUXÍLIOO auxílio americano para a reconstrução do Afeganistão e ajuda humanitária atingiu uma média de US$ 1 bilhão anual desde 2001, mas os gastos do Exército americano na região são 20 vezes maiores. Desde os ataques de 11 de setembro de 2001, Washington deu ao Paquistão cerca de US$ 11 bilhões em auxílio militar.ATAQUES AÉREOSNo início de 2008, os EUA se cansaram da relutância ou incapacidade do Paquistão em combater os jihadistas na região tribal. Assim, foram intensificados os bombardeios aéreos contra a região. Vários destes ataques mataram líderes da Al-Qaeda, mas também provocaram a indignação dos paquistaneses por causa das elevadas mortes de civis. Parece provável que esses ataques prossigam: o governo Obama já autorizou pelo menos dois bombardeios aéreos.ÓPIOO cultivo da papoula é o eixo central da economia afegã. O comércio de drogas emprega cerca de 2 milhões de pessoas e é responsável por cerca de um terço do PIB do país, mas também ajuda a financiar o Taleban e abastece a difusa máquina da corrupção afegã. O grupo de observadores Transparência Internacional considera o Afeganistão um dos países mais corruptos do mundo. ETNIAA maioria dos combates no Afeganistão ocorreu nas áreas dominadas pelo grupo étnico pashtun. Com uma população de cerca de 40 milhões, trata-se de um dos maiores grupos étnicos sem país próprio de todo o mundo. Cada vez mais os pashtuns enxergam o Taleban como o grupo que melhor defende seus direitos. Há quase o dobro de pashtuns no Paquistão do que no Afeganistão - outro motivo pelo qual Obama terá de lidar com ambos os lados da fronteira para ganhar esta guerra. *Bergen, autor de "O Osama bin Laden que conheço", é bolsista da Fundação Nova América. Tiedemann é associada da Fundação Nova América.

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