Zack Wittman/NYT
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Os céticos da vacina contra a covid que mudaram de ideia nos EUA; entenda os motivos

Parte dos americanos apreensivos está disposta a reconsiderar suas posições, se suas preocupações forem consideradas por pessoas de confiança

Dan Diamond, The Washington Post

05 de maio de 2021 | 05h00

Kim Simmons, de 61 anos, dona de um pequeno negócio em Illinois, recorda-se vividamente do momento em que passou de uma pessoa cética em relação à vacina contra o coronavírus para uma pessoa pronta para se imunizar: ela assistia a um médico da Universidade Johns Hopkins no canal de televisão C-SPAN explicar por que as vacinas são seguras.

Para Lauren Bergner, dona de casa de Nova Jersey, de 39 anos, a mudança veio quando ela percebeu que a vacinação possibilitaria que ela fosse com a família aos jogos dos New York Yankees, após o time anunciar que os fãs precisariam apresentar um teste negativo para a covid-19 ou serem vacinados para poderem entrar no estádio.

E para Elizabeth Greenaway, consultora de comunicação da Pensilvânia, 34 anos, o estalo veio num medo súbito de que, se ficasse doente, não teria quem cuidasse de sua filha de 2 anos, que padece de uma rara condição de saúde.

“Pensando a respeito da imunidade de rebanho, pensando a respeito da minha filha, pensando a respeito disso tudo, me dei conta: vacinar-se faz parte de algo maior do que a gente”, afirmou Elizabeth, que teve de reduzir sua carga de trabalho para poder cuidar da filha durante a pandemia.

Kim, Lauren e Elizabeth estão entre um crescente número de ex-céticos em relação à vacina contra covid-19 que se tornaram americanos vacinados, um sinal de esperança em meio a um ritmo de vacinação cada vez mais vagaroso no país. Quase a metade de todos os adultos do país ainda não tomou a primeira dose da vacina, apesar de se qualificarem agora, e a taxa de aplicação de novas doses caiu ao nível mais baixo desde meados de março.

O surgimento das pessoas que mudaram de ideia sugere que pelo menos uma parte dos americanos apreensivos em relação às vacinas está disposta a reconsiderar suas posições, se suas preocupações forem consideradas por pessoas de confiança.

Essas conversões - juntamente com as de 16 ex-céticos que entraram em um grupo de referência na semana passada - atraíram grande interesse das autoridades da Casa Branca e de especialistas em saúde pública, que esperam recriar esses momentos de transformação para as dezenas de milhões de americanos que ainda dizem “não” às vacinas. Especialistas temem que fracassar em atingir índices elevados de imunidade na população poderia prolongar a pandemia nos Estados Unidos, especialmente se pessoas não vacinadas continuarem a ser infectadas e o vírus continuar a sofrer mutações à medida que se espalha.

“Acho que todos temos de olhar para a Índia - e não devemos ser arrogantes ao ponto de achar que aquilo não pode acontecer por aqui”, afirmou Brian Castrucci, presidente da Fundação de Beaumont, entidade de defesa da saúde pública que ajudou a reunir o grupo de referência na semana passada e em várias outras ocasiões anteriores.

Lições tiradas de grupos de referência e pesquisas que os acompanham também forneceram informações para uma nova série de anúncios  produzida pela Fundação de Beaumont dando voz a médicos republicanos no Congresso, que devem ser divulgados na próxima segunda-feira, 9. Enquanto alguns céticos em relação à vacina vociferaram contra recomendações de políticos - incluindo importantes anúncios do governo que incluíram os ex-presidentes Barack Obama, George W. Bush e Bill Clinton - congressistas do Partido Republicano afirmam que seus apelos terão ressonância entre uma base conservadora que é desproporcionalmente resistente à imunização. Cerca de um quarto dos adultos afirma que não tem planos de se vacinar, assim como 40% dos americanos que simpatizam com o Partido Republicano, de acordo com uma pesquisa encomendada pelo Washington Post e pela ABC News divulgada na semana passada.

“O que nos diferencia em relação aos ex-presidentes é que todos nós somos médicos e trabalhadores da área de saúde pública”, afirmou o deputado federal Brad Wenstrup, republicano de Ohio, presidente da Bancada de Médicos Republicanos, cujos integrantes participam das chamadas. “Por isso, usamos jalecos brancos nos anúncios, porque as pessoas confiam nessa imagem.”

Alice Chen, consultora sênior da Made to Save, uma organização que advoga por equidade na distribuição de vacinas, elogiou a onda de esforços para conquistar esses redutos, afirmando que seus efeitos cumulativos abriram caminho para transformações.

“Os anúncios na TV, as postagens no site dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças, conversar com seu amigo que é enfermeiro - acho que será uma combinação de todos esses elementos que vai ajudar, particularmente entre as pessoas mais hesitantes”, afirmou Alice.

Especialista em clínica médica que tem ajudado a vacinar pessoas em um hospital na Flórida, Alice afirmou que também aplicou doses em ex-céticos confessos.

“Quase todos mudaram de ideia porque alguém que amavam os aconselhou nesse sentido, porque viram pessoas de seu entorno serem vacinadas”, afirmou Alice. “Acho que essa campanha é muito mais importante do que tinha me dado conta quando o trabalho começou.”

Wenstrup, Alice e outros políticos e autoridades de saúde pública estudaram as reações das pessoas em grupos de referência realizados no Zoom por Frank Luntz, especialista em pesquisas veterano do Partido Republicano, para entender por que alguns americanos hesitam em ser vacinados e quais as mensagens capazes de alcançá-los. Participantes dos grupos foram identificados pelo primeiro nome e o Estado em que residem, apesar de muitos terem compartilhado detalhes adicionais a respeito de convicções políticas, trabalho e outras informações biográficas.

A série de reuniões durou tempo suficiente para que quatro eleitores de Trump que participaram do primeiro grupo de referência de Luntz, em março, afirmando que não tinham planos de se vacinar, voltassem a participar de uma sessão, na quinta-feira, para relatar sua mudança de opinião. Todos atribuíram a Tom Frieden, que dirigiu os Centros de Controle e Prevenção de Doenças no governo Obama, a ajuda que precisavam para mudar seu entendimento a respeito das vacinas.

O momento da conversão foi “quando participei do último grupo de referência com vocês, e vocês colocaram para falar um médico dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças”, afirmou uma mulher que se identificou como Marie, de Nova York. “Ele explicou as coisas muito melhor do que o (imunologista Anthony) Fauci, ou qualquer um deles já tinha explicado."

Outros participantes detalharam mais momentos que mudaram sua cabeça, enquanto membros da equipe de resposta ao coronavírus da Casa Branca e especialistas em saúde pública assistiam em silêncio.

Por exemplo, um homem identificado como Anderson, de Nova York, elogiou um programa veiculado em 19 de março na rádio pública WNYC no qual o apresentador,  Brian Lehrer, discutia as possíveis consequências a longo prazo da infecção por coronavírus.

“Dois sujeitos que tinham sequelas da covid-19 há muito tempo afirmaram no programa que, logo depois de tomar a vacina, os sintomas desapareceram. Foi quando me convenci a tomar a minha dose”, afirmou Anderson.

Os participantes também compartilharam os momentos em que perceberam que a vacina permitiria que eles viajassem, voltassem ao trabalho ou retomassem outras atividades da vida pré-pandemia. Eles elogiaram mais médicos e outros trabalhadores locais de saúde que, segundo afirmaram, os ajudaram a se acalmar.

“Meu médico prescreve qualquer coisa, mas é o farmacêutico que dedica tempo para me falar a respeito dos efeitos colaterais”, afirmou uma mulher chamada Gail, de Washington, que disse ter ficado “tão alucinada” para tomar a vacina contra o coronavírus que marcou vários horários, para receber vacinas de diferentes fabricantes, para ter mais mais opções. Gail afirmou que, por fim, escolheu a dose única da vacina da Johnson & Johnson.

Kim, uma democrata, disse ao Post que era assombrada pelo filme de horror de 2007 Eu sou a lenda, estrelado pelo ator Will Smith. O filme conta a história de uma falsa cura do câncer que mata a maioria das pessoas e transforma os sobreviventes em monstros - e Kim afirmou que essas imagens invadiam sua mente no ano passado quando ela era informada a respeito do rápido desenvolvimento das vacinas contra o coronavírus.

“Adoro aquele filme por várias razões. Mas o que estava acontecendo era meio assustador. Não quero virar zumbi”, afirmou Kim.

Telespectadora assídua da C-SPAN, Kim afirmou que só ficou tranquila quando assistiu a um especialista da Universidade Johns Hopkins - o epidemiologista Chris Beyrer - falando a respeito do monitoramento de dezenas de milhares de voluntários dos testes clínicos e dos dados de segurança a longo prazo. (Beyrer respondia a um telespectador que tinha ligado para a emissora e sugeriu que ministrar uma vacina não testada em milhões de pessoas parecia uma história tirada do enredo de um filme de horror.) “Naquele momento, me senti bem segura. Acreditei nele”, afirmou Kim. Ela tomou a primeira dose da vacina da Moderna em março.

Elizabeth, uma republicana, disse que tinha ficado admirada com os médicos que haviam tratado de sua filha no Hospital Infantil da Filadélfia, então, quando viu o pediatra Paul Offit, que trabalha naquele mesmo hospital, defendendo as vacinas na TV diante de todo o país, ela estava pronta para escutá-lo.

“O rosto dele era familiar para mim”, afirmou Elizabeth. “Eu já tinha visto ele, durante uma pesquisa que fiz antes de optarmos pelo Hospital Infantil da Filadélfia. E senti que podia confiar nele.” Elizabeth afirmou que rezou bastante antes de se inscrever para tomar as duas doses da vacina da Pfizer, em abril.

Mesmo que alguns céticos mudem de ideia, outros dão sinais de que estão cada vez mais tacanhos, incluindo um grupo de referência de eleitores de Trump que no mês passado não se convenceram com os argumentos de Frieden e dos políticos republicanos. Em um outro grupo de referência, integrado por Luntz, na semana passada, 23 eleitores jovens e de diferentes orientações políticas levantaram suas preocupações a respeito da vacina, argumentando que tinham a impressão de que a imunização não é necessária porque eles correm menos risco de sofrer complicações graves em razão da covid-19. Alguns jovens negros afirmaram que se preocupam menos com o vírus do que com a brutalidade policial.

“Na minha visão, sinto que neste momento as pessoas negras têm maior chance de ser mortas pela polícia do que pela covid”, afirmou uma mulher que se identificou como Camille, da Flórida.

Os esforço de Luntz para aumentar a aceitação à vacina fizeram o apresentador Tucker Carlson, da Fox News, soltar fumaça na sexta-feira - afirmando que Luntz deveria revelar que trabalhou no passado para a fabricante de vacinas Pfizer. Luntz afirmou que a Pfizer o contratou para criar campanhas de mensagens publicitárias, mas que esse trabalho terminou em 2007. Progressistas também criticaram o envolvimento do marqueteiro com a empresa e ironizaram alguns dos participantes do encontro online, afirmando que tentar convencer republicanos hesitantes em relação à vacina é uma causa perdida.

Andy Slavitt, conselheiro sênior da equipe de resposta ao coronavírus da Casa Branca, contra-argumentou que o governo Biden aprova esforços para compartilhar “informações confiáveis” e ouvir as preocupações das pessoas.

“Não há motivo para apontar o dedo para ninguém. E não há evidência nenhuma de que humilhar as pessoas melhore as coisas”, afirmou Slavitt, acrescentando que autoridades da Casa Branca estão trabalhando para entender as razões específicas pelas quais muitos americanos ainda não estão convencidos de se vacinar contra o coronavírus, além de elogiar o “importante” trabalho que Luntz e a Fundação de Beaumont estão realizando.

Aproveitando as lições dos grupos de referência e acompanhando pesquisas, a Fundação de Beaumont trabalhou com a Bancada de Médicos Republicanos em uma série de anúncios digitais que se apoiam nas credenciais médicas dos congressistas e constituíram um esforço liderado pelo senador Roger Marshall, republicano do Kansas, na semana passada.

“Enquanto médica, tomei a decisão de me vacinar contra a covid-19. Eu conheço as evidências e penso que essa foi a escolha certa”, afirma em um dos anúncios a deputada federal Mariannette Miller-Meeks, republicana do Iowa e ex-diretora do Departamento de Saúde Pública do Iowa. “Além de médica, também sou uma congressista republicana e respeito completamente o fato de que isso é uma decisão individual. Fale com o seu médico. Obtenha toda a informação que precisar. E decida qual vacina é a melhor para você.”

Castrucci argumentou que anúncios ajudam a retirar a política do esforço de imunizar os EUA.

“Espero que os anúncios desses congressistas republicanos coloquem um fim ao debate partidário em torno das vacinas”, acrescentou ele. “Se alguém disser que um dos partidos políticos é contra as vacinas, tenho uns vídeos para lhe mostrar.” /Tradução de Augusto Calil

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