Os confidentes de Manning

O que teria mudado se os segredos revelados pelo soldado americano tivessem chegado antes ao 'New York Times'?

É COLUNISTA, BILL, KELLER, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, BILL, KELLER, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h06

Em 2010, o soldado Bradley Manning metodicamente carregou documentos secretos diplomáticos e militares dos EUA para os insurgentes do WikiLeaks. Como todos sabem, esses arquivos foram colocados pelo WikiLeaks à disposição de alguns jornais importantes, incluindo o New York Times. Muitas histórias esclarecedoras e inquietantes foram publicadas e Washington, desde então, vem rangendo os dentes.

Manning, de 25 anos, compareceu a audiências preliminares do seu julgamento em Fort Mead, Maryland. E se declarou culpado por crimes que poderão levá-lo a 20 anos de prisão, tendo o governo acrescentado novas acusações, incluindo a violação do artigo 104 do código militar, sobre "ajudar o inimigo", que pode resultar em prisão perpétua sem direito a condicional.

Em seu depoimento ao tribunal militar, Manning declarou que, antes de se unir com os guerrilheiros do WikiLeaks, tentou entregar sua valiosa coleção de documentos roubados para o Washington Post e o New York Times. No Post, ele desistiu quando uma jornalista lhe disse que antes de ela se comprometer com alguma coisa teria de falar com seu editor. E, no Times, ele deixou uma mensagem no correio de voz, mas jamais obteve resposta.

Mas e se tivesse? E se tivesse conseguido entregar os documentos roubados para o Times? O que tornaria a situação diferente, para ele e para nós? Em primeiro lugar, posso dizer com segurança que o Times teria feito exatamente o que fez com o arquivo quando foi nos fornecido pelo WikiLeaks: jornalistas foram designados para selecionar o material que fosse de autêntico interesse público e trabalharam para omitir informações que pudessem fazer com que soldados em campo de batalha ou informantes inocentes fossem mortos.

Se Manning tivesse entrado em contato com o Times, nós teríamos nos relacionado com um soldado do Exército jovem, perturbado, nervoso, que oferecia não tanto uma grande documentação sobre um escândalo particular do governo, mas a chance de penetrarmos num mar de segredos.

Como jamais encontrei Manning (ele estava sob custódia à época em que obtivemos os documentos do WikiLeaks), só posso imaginar como seria o relacionamento. Complicado. Provavelmente, tenso. Naturalmente, teríamos honrado nosso acordo para proteger sua identidade, embora ele não tenha sido capaz de ocultar seu próprio rastro (ele divulgou o vazamento em longos bate-papos com um ex-hacker, que o entregou).

Quando foi preso, seguramente teríamos feito um editorial condenando a brutalidade da sua prisão em solitária - como jornal, na verdade, fez - e, talvez, protestado contra o preocupante exagero da acusação, invocando o artigo 104 do código militar sobre "ajuda ao inimigo".

Além disso, nos certificaríamos antecipadamente de que Manning estava agindo por conta própria, como fizemos com o último responsável por vazamentos dessa envergadura, Daniel Ellsberg, responsável pela divulgação dos Papéis do Pentágono (sobre o Vietnã) em 1971.

Em Fort Mead, Manning ofereceu uma explicação mais coerente sobre seus motivos. Chocado pelos danos colaterais humanos do contraterrorismo e da contrainsurgência, ele se propôs a "documentar o real custo das guerras no Iraque e no Afeganistão".

Perplexo com a leitura dos telegramas do Departamento do Estado, sentiu necessidade de dar aos contribuintes conhecimento dos "acordos a portas fechadas e das atividades aparentemente criminosas" que constituem o lado oculto e sombrio da diplomacia.

Foi esse o sentido da missão desde o início ou isto foi imaginado depois, diante das expectativas dos entusiastas do movimento Liberdade para Bradley Manning? A resposta, provavelmente, não terá influência no tribunal, mas pode ajudar a determinar o veredicto da história. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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