Os conservadores e o mito da igualdade de oportunidades

Análise: Paul Krugman / New York Times

É COLUNISTA, PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA DE 2008, O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2012 | 03h01

No mês passado, Barack Obama invocou o espírito de Teddy Roosevelt em defesa de ideais progressistas - e os republicanos não gostaram. Mitt Romney disse que Roosevelt acreditava que "o governo deveria preparar terreno para criar condições iguais para todos", enquanto Obama acredita que deveríamos ter uma sociedade na qual todos recebem uma remuneração igual, independentemente do esforço e dos riscos.

Como muitos ressaltaram, esse retrato do presidente é falso. O que nem todos observaram, porém, é que o retrato que Romney faz de si mesmo, como político que acredita na igualdade de oportunidades, também é ficção. Onde estão as provas de que ele ou seu partido preocupam-se com a igualdade de oportunidades? Os americanos acham que vivem em uma meritocracia, mas essa imagem que eles têm de si mesmos é uma fantasia. Segundo reportagem do New York Times da semana passada, os EUA são o país desenvolvido que dá mais valor à origem familiar e onde os que vêm de camadas inferiores têm menos chance de ascender ao topo.

Os EUA são assim porque seu governo fracassa na criação da igualdade de oportunidades. No país, os furos na rede de proteção social fazem com que mães de famílias de baixa renda e seus filhos sofram de desnutrição e tenham acesso a um sistema de saúde inadequado. A situação piora quando as crianças chegam à idade escolar. Os ricos mandam seus filhos para escolas boas com financiamentos polpudos, enquanto as crianças pobres têm acesso a uma educação inferior.

Quando se trata do ensino superior, poucos das classes baixas conseguem entrar em universidades. Em escolas mais seletivas, 74% dos jovens que ingressam vêm dos 25% de famílias ricas. Só 3% dos que chegam vêm dos 25% da parte de baixo da escala social. Se filhos de camadas inferiores ingressam na universidade, a falta de apoio financeiro faz com que eles sejam obrigados a deixá-la com mais frequência do que os filhos de ricos.

Um estudo do Departamento de Educação concluiu que estudantes com notas altas, mas com pais de baixa renda, tinham menos chance de concluir um curso superior do que estudantes com notas baixas, mas de pais ricos - ou seja, jovens inteligentes e pobres têm maior probabilidade de terminar os estudos do que jovens ricos e tapados.

Não surpreende que as histórias de Horatio Alger, sobre crianças pobres, mas bem-sucedidas, sejam pouco comuns. O que me traz de volta a pessoas como Romney, que diz acreditar na igualdade de oportunidades. Onde estão as provas? Aqueles que querem oportunidades iguais deveriam lutar por mais verbas para a alimentação de mães grávidas de baixa renda, procurar melhorar a qualidade das escolas públicas, aumentar o financiamento de estudantes universitários pobres e apoiar um sistema de saúde universal. Se Romney lutou por alguma dessas coisas, não fiquei sabendo.

E os republicanos parecem determinados a dificultar ainda mais a ascensão social. Por exemplo, eles defendem a redução dos programas destinados a mulheres, recém-nascidos, crianças e exigem cortes de bolsas de estudos. Evidentemente, repudiam a reforma do sistema de saúde que proporcionaria aos americanos a assistência que é direito inalienável em todos os outros países desenvolvidos.

Portanto, onde está a prova de que Romney e seu partido acreditam em oportunidades iguais? A julgar por suas ações, eles preferem uma sociedade na qual a situação econômica é determinada pelo status dos pais, na qual os filhos ricos herdarão propriedades com isenção de impostos. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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