Os contratempos do poder inteligente

No Afeganistão, a violência não decorre da pobreza, mas de ressentimentos, de dinâmicas tribais e do fanatismo religioso

David Brooks, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2011 | 00h00

Por enquanto, poucos políticos aderiram a meu plano para um "Imposto Plano Marshal". A ideia é que toda vez que um colunista ou senador aposentado pedir um novo Plano Marshall ou uma iniciativa semelhante para resolver um problema social, ele pagaria US$ 50. Dentro de poucos meses, teríamos dinheiro suficiente para financiar um outro Plano Marshall.

O problema da minha proposta é o seguinte: será que um Plano Marshall funcionaria? Se os EUA mobilizassem intelectuais e bilhões de dólares para resolver algum problema social complicado, poderíamos de fato fazê-lo?

Bem, os americano se engajaram em um novo Plano Marshall durante boa parte da última década. Entre 2002 e 2010, os EUA gastaram US$ 19 bilhões para promover o desenvolvimento do Afeganistão. Outros países também enviaram trabalhadores humanitários e bilhões de dólares.

Em algumas esferas, os resultados foram bons. Dois terços dos afegãos agora têm acesso a serviços básicos de saúde, 9% a mais do que na década passada. Sob o regime do Taleban, apenas 900 mil meninos - nenhuma menina - frequentavam escolas. Agora, mais de 7 milhões estudam, sendo 35% meninas,

Com relação a crescimento econômico e estabilidade, porém, os resultados foram decepcionantes. Stuart Gordon, da Chatham House, estudou os esforços de ajuda na Província de Helmand e concluiu que, onde o Estado é fraco e há insegurança, a ajuda estrangeira "pode ter efeitos negativos inesperados".

Após dois anos de avaliação de esforços de ajuda dos EUA no Afeganistão, a Comissão de Relações Exteriores do Senado enfatizou que "as consequências inesperadas de injetar grandes somas de dinheiro numa zona de guerra não podem ser subestimadas." Boa parte da ajuda teve como base o pressuposto de que o desenvolvimento promove estabilidade. Jovens empregados não plantariam bombas à beira de estradas. Comunidades prósperas rejeitariam o Taleban. A base de tudo é o preconceito de que o mau comportamento tem raízes materiais. Dê dinheiro e emprego às pessoas e melhorará seu comportamento.

No Afeganistão, esse pressuposto não vale. Uma conferência de especialistas realizada em 2010, na Grã-Bretanha, concluiu que há "poucas evidências" de que a ajuda promove estabilidade e segurança no Afeganistão. A violência não decorre da pobreza, mas de ressentimentos, dinâmicas tribais e fanatismo religioso - nenhum dos quais pode ser melhorado com a construção de novas estradas. As partes mais pobres do país não são as mais violentas.

Por outro lado, em muitos casos, a ajuda criou dependência, alimentou a corrupção, contribuiu para a insegurança e reduziu a capacidade de o governo supervisionar programas sustentáveis. Além disso, muitos avanços podem ser insustentáveis. Uma torrente de dinheiro verteu sobre o Afeganistão e muitos advertem sobre o que ocorrerá quando ela secar em alguns anos.

O triste é que não somos calouros em ajuda. Levamos anos para aprender com o passado e, porém, os resultados são ruins. Quando tornou-se secretária de Estado, Hillary Clinton esboçou uma visão de política externa muito atraente, que usaria "todo o leque de ferramentas à nossa disposição": diplomáticas, econômicas, militares, políticas e culturais" - o chamado "poder inteligente".

O desenvolvimento cultural e econômico, porém, opera em ritmo diferente da política externa tradicional. O cronograma de paz e segurança é medido em anos ou décadas. O desenvolvimento, se vier, é medido em gerações. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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