Os cossacos estão voltando ao cenário mundial

ANÁLISE: Joshua Keating* / Slate

O Estado de S. Paulo,

16 de abril de 2014 | 23h57

Muitos dos militantes favoráveis à Rússia que ocupam edifícios do governo no leste da Ucrânia estão sendo chamados na imprensa - ou pelo menos eles se definem - de cossacos. Este fato e o papel que desempenharam no policiamento das Olimpíadas de Sochi, principalmente a agressão filmada contra integrantes do grupo ativista Pussy Riot, os indicaram como protagonistas de um retorno bastante dramático ao cenário mundial. Para quem não é russo, parece um conceito antiquado, como se "janízaros" ou "hussardos" de repente exercessem uma função importante na guerra moderna. Mas as raízes do renascimento dos cossacos hoje são bastante visíveis.

Não como grupo étnico ou linguístico - ainda que quase todos eles sejam cristãos ortodoxos -, mas mais do que apenas uma unidade militar, os cossacos se consideram originários de grupos nômades, ou escravos fugidos ou descendentes de tribos tártaras, dependendo do ponto de vista, que se espalharam por todo o sudoeste da Rússia e da Ucrânia nos séculos 15 e 16.

Embora em épocas anteriores se rebelassem contra o governo czarista, acabaram se integrando nas forças russas e tiveram um papel de fundamental importância na segurança da fronteira russa, "pacificando" as tribos muçulmanas do Cáucaso, e forçando a retirada das forças de Napoleão. Na cultura russa, eles se equivalem aos cowboys dos EUA e foram temas de escritores como Gogol, Tolstoi e Pushkin.

Fora da Rússia, tornaram-se mais conhecidos por liderarem os pogroms antissemitas da era czarista. Por terem lutado na maior parte ao lado do Exército Branco antibolchevista durante a guerra civil russa, os cossacos foram tratados brutalmente na União Soviética - dezenas de milhares deles foram mortos ou deportados na campanha de "descossaquização" - entretanto, retornaram, no sentido cultural e político, na era pós-soviética.

Tudo começou quando Boris Yeltsin assinou vários decretos reconhecendo a grupos cossacos direitos especiais, incluindo o de carregar armas, mas seu reaparecimento acelerou no governo de Vladimir Putin, que os tornou uma espécie de símbolo de sua ideologia nacionalista conservadora. Em 2005, Putin sancionou uma lei que permite a organizações cossacas selecionar membros de unidades especiais no Exército russo e concedeu a si mesmo o direito de nomear generais cossacos.

Foram criadas academias militares para cossacos. Patrulhas de cossacos policiam cidades envergando seu uniforme militar do século 19, incluindo Moscou. Em Krasnodar, onde se localiza Sochi, mil cossacos foram colocados na folha de pagamento do governo antes das Olimpíadas de Inverno. Além disso, eles atuam por vezes como autoridades culturais conservadoras, policiando minorias étnicas do sul da Rússia e liderando campanhas contra expressões artísticas como o Pussy Riot.

Putin promoveu o emprego dos cossacos como força policial, considerando-os frequentemente mais eficientes do que a polícia comum. Os críticos os acusam de serem menos responsáveis do que a polícia, de serem hostis a grupos étnicos não russos e de não terem muito a ver com os guerreiros míticos do passado.

Seja como for, algumas pessoas abraçaram com entusiasmo sua identidade. Em 2010, os cossacos foram considerados pela primeira vez uma etnia separada, e cerca de 650 mil russos declararam integrar o grupo. Segundo seus líderes, existem aproximadamente 2,5 milhões de cossacos em todo o mundo. Mas nem todos os governos se mostraram tão entusiastas com o seu renascimento quanto o da Rússia. Como Simon Shuster, da Time, escreveu recentemente, na Ucrânia a situação é um pouco diferente.

Vários líderes ucranianos, sejam eles favoráveis à Rússia ou não, trataram muitas vezes os cossacos da Crimeia com enorme desconfiança. Na Crimeia, seus comandantes espalharam noções de unidade eslava entre os jovens cadetes. Tudo isso atraiu nos últimos anos investigações dos serviços de segurança da Ucrânia. No governo de Viktor Yanukovich, os expoentes do grupo na Crimeia foram investigados por treinarem grupos paramilitares e por se manifestarem a favor do separatismo, ambas as coisas ilegais na Ucrânia. Alguns campos de treinamento cossacos foram invadidos pela polícia à procura de armas.

Cossacos foram deportados para a Rússia, acusados de incitarem o ódio étnico. Agora, a anexação da Crimeia oferece aos cossacos locais a oportunidade de obterem o status favorecido do qual desfrutam na Rússia há vários anos. Os grupos que se identificaram como cossacos e participaram da invasão da Ucrânia talvez esperem o mesmo.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

JOSHUA KEATING É JORNALISTA

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