Whitten Sabbatini/The New York Times
Whitten Sabbatini/The New York Times

Os desafios de ser um militar muçulmano nos Estados Unidos

Barreiras culturais, como a proibição de pelos faciais e a alimentação militar rica em carne de porco, banida pelo islamismo, além da baixa quantidade de bases com serviços de oração para muçulmanos estão entre os desafios dos 3.939 militares - cerca e 0,3% do total de membros da Forças Armadas - que listam o islã como sua fé

Dave Philipps / The New York Times, O Estado de S. Paulo

12 Agosto 2016 | 16h48

NOVA YORK - No outono, quando Donald Trump disse que poderia considerar a possibilidade de fazer com que os muçulmanos carregassem cartões especiais de identificação nos Estados Unidos, Tayyib Rashid publicou uma foto de sua identidade militar na internet afirmando: "Ei, @realDonaldTrump, sou um muçulmano americano e já carrego uma identidade especial. Onde está a sua?"

Agora, Rashid, que serviu por cinco anos na infantaria dos fuzileiros navais dos Estados Unidos e foi convocado três vezes, sentiu-se ultrajado por Trump novamente. Desta vez foi por causa dos comentários depreciativos do candidato republicano à presidência do país sobre Khizr e Ghazala Khan, os pais de um capitão do Exército americano morto por um carro bomba no Iraque em 2004, que criticaram, na Convenção Nacional Democrata, as leis propostas por Trump para os muçulmanos.

O episódio "fez lágrimas brotarem dos meus olhos. Essas pessoas sacrificaram seu próprio filho, seu próprio sangue", conta Rashid. Mas, diz ele, seu ódio é acalmado por sua própria experiência no serviço militar, onde as pessoas sempre o aceitaram e o apoiaram.

"Não experimentei nada além de amor e camaradagem dos fuzileiros navais com quem servi. Várias vezes, fui o primeiro muçulmano que eles conheceram, mas não havia racismo ou intolerância. Sua fé não importa muito: éramos fuzileiros em primeiro lugar", conta Rashid, que entrou para as forças armadas em 1997.

Ainda assim, como Rashid reconhece, os muçulmanos das forças armadas dos Estados Unidos precisam enfrentar vários desafios. Os 15 anos de guerra em países islâmicos transformaram o serviço militar em um campo minado cultural. Entre alguns dos soldados americanos não muçulmanos, o próprio islamismo - e não o extremismo - é frequentemente visto como um problema.

Em entrevistas, todos os soldados americanos muçulmanos dizem que já viram algumas vezes o que chamam de comentários idiotas equiparando-os a terroristas. As coisas ficaram piores depois que 13 pessoas foram mortas em Forte Hood em 2009 por um psiquiatra muçulmano do Exército que disse que as guerras americanas no Iraque e no Afeganistão eram contra todos os islâmicos.

Outros problemas vêm de barreiras culturais, como a proibição de pelos faciais e a necessidade de lidar com a alimentação militar que normalmente tem muita carne de porco, banida pelo islamismo. Poucas bases possuem serviços de oração para os muçulmanos, e apenas 5 dos cerca de 2,9 mil capelães do Exército americano são imãs.

"Pode ser desafiador. A natureza do serviço militar não é muito propícia para a prática de nossa fé, mas o islã é flexível", afirma Rashid, cuja família se mudou do Paquistão para os Estados Unidos quando ele tinha 10 anos. "Estou aqui como americano. Eu me beneficio da liberdade e das oportunidades deste país e é minha obrigação servir esta nação de alguma maneira."

Milhares de muçulmanos servem as forças armadas dos Estados Unidos desde pelo menos a Guerra Civil, mas em um número desproporcionalmente pequeno. Só 3.939 militares atualmente listam o islã como sua fé, segundo informações do Pentágono. Eles somam apenas 0,3% dos militares; estima-se que os islâmicos sejam cerca de 1% da população civil. Seus números são tão pequenos que alguns passam a carreira toda sem encontrar outro muçulmano usando uniforme.

Na Europa, alguns países tomaram medidas para encorajar os muçulmanos a se alistar. Dois anos atrás, o Exército britânico, que tem uma participação igualmente baixa de muçulmanos, lançou uma iniciativa de recrutamento, o Fórum Muçulmano das Forças Armadas. As forças armadas permitem o jejum durante o Ramadã e ajudam nas orações diárias, criando salas de oração nas bases e recentemente em um navio de guerra.

O Pentágono não mantém um controle de quantos militares muçulmanos morreram em combate desde 2001, mas eles serviram em todos os ramos - como oficiais, combatentes, intérpretes e no serviço de inteligência. Alguns dizem que a vida no serviço militar se tornou mais difícil depois dos ataques de 11 de setembro de 2001.

"Depois do 11 de setembro, eu realmente comecei a perceber uma mudança", afirma Mansoor Shams, que nasceu no Paquistão e serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos de 2000 a 2004. "Alguns sujeitos faziam comentários negativos, meio brincando, chamando-me de Taleban. Decidi cortar o mal pela raiz e a maioria dos caras entendeu."

Apesar de pouco lembrada, a cultura muçulmana possui um apoio firme no serviço militar americano, afirma o comandante Abuhena Saifulislam, capelão que serve como imã na Marinha e no Corpo de Fuzileiros, há 20 anos. Todas as sextas-feiras, conta ele, um imã faz as orações no Pentágono e, no Campo Lejeune, na Carolina do Norte, onde trabalha, ele lidera as orações diariamente.

Saifulislam foi convidado para fazer orações na Casa Branca pelos presidentes George W. Bush e Barack Obama. Em sua última visita, durante o feriado muçulmano de Eid al-Fitr, chegou à Casa Branca com um muçulmano de 95 anos que lutou na Segunda Guerra. "Já fui muitas vezes ao Afeganistão. Faço com que saibam que, como muçulmanos, vivemos bem na América. E que tenho relacionamentos ótimos", conta ele.

Saifulislam supervisionou a construção de uma mesquita completa em Campo Lejeune, com entradas separadas para homens e mulheres. Em sua longa carreira no serviço militar, ele afirma que tem ministrado para mais cristãos do que para muçulmanos e nunca enfrentou reações negativas.

"Quando era jovem, vim de Bangladesh sem família. E, de muitas maneiras, o serviço militar se tornou minha família. Não teria ficado por 20 anos se não me sentisse bem-vindo."

 

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